Washington, 18/04/2007 – A Associação Nacional do Rifle (NRA), principal defensora do direito de portar armas de fogo nos Estados Unidos, expressou suas “mais profundas condolências” pela morte a tiros de 33 pessoas em uma universidade do Estado de Virginia. A NRA emitiu sua declaração a respeito, mas abstendo-se de “maiores comentários até que todos os fatos sejam conhecidos”, quando a tragédia de segunda-feira renovou a atenção sobre o debate a respeito do controle do porte e comércio de armas neste país.
O ocorrido segunda-feira no Instituto Politécnico da Universidade Estatal de Virginia, em Blacksburg, foi o pior tiroteio em um centro estudantil na história dos Estados Unidos, país que tem uma altíssima taxa de homicídios por armas de fogo em comparação com outras nações ricas. “Nossos pensamentos e orações estão com as famílias” das vítimas desta “horrível tragédia”, afirmou NRA. Além dos mortos, 29 pessoas ficaram feridas.
Esta “horrível tragédia” lamentada pelos defensores do porte de armas levou dirigentes políticos e ativistas a exigirem do Congresso restrições para mudar imediatamente as atuais normas a respeito. “Tiroteios como este são possível pela facilidade sem igual com que as pessoas conseguem armas neste país”, disse a senadora Dianne Feinstein, do opositor Partido Democrata. O fato “voltará a reavivar os esforços adormecidos pela aprovação de regulamentações de armas” regidas pelo “senso comum”, acrescentou.
Os legisladores mais novos, que ocuparam suas cadeiras em janeiro depois das eleições de novembro em que os democratas recuperaram a maioria nas duas casas do Congresso, não demonstraram maior vontade em regulamentar o porte e comércio de armas. Observadores atribuem isso, em parte, ao fato de muitos procederem de distritos onde obtiveram maioria apertada, e por isso temem ganhar a inimizada dos democratas da área rural, inclinados ao uso de armas de fogo.
Os acontecimentos em Virginia renovaram as gestões pelo controle de armas, como a proibição dos rifles de assalto proposta formalmente em fevereiro pela senadora Carolyn McCarthy, do Estado de Nova York. A lei mais recente sobre o assunto data de 2005, quando, após anos de gestões de legisladores do governante Partido Republicano, o congresso proibiu demandar nos tribunais responsabilidade civil para os fabricantes, distribuidores, vendedores e importadores de armas de fogo.
Os legisladores favoráveis ao controle “devem ganhar alguma força” e não apenas “golpear o lobby das armas”, disse Jackie Kuhls, diretora-executiva da organização Novaiorquinos Contra a Violência das Armas (NYAGV). “As leis aprovadas protegem, claramente, os criminosos”, disse. O Congresso proibiu por lei durante 10 anos a fabricação, venda ou posse de 19 modelos de pistolas semi-automáticas, bem como carregadores de munição com mais de 10 cartuchos, e endureceu os requisitos federais para licença para os vendedores de armas.
Há grandes vazios legais no processo de venda e na concessão de autorizações de posse, segundo os críticos desse regime, considerado o mais liberal do mundo. A maioria dos governos estaduais não obriga os donos de armas de fogo a tr licença nem registrar sua arma. Todos os Estados estão obrigados a impor o pedido de licença aos proprietários de armas e a registrar todas elas, disse Kuhls. “Não há razão para que isso não seja feito. Fazemos com os automóveis, e isso não limita a liberdade de ninguém”, acrescentou.
A NYAGV alertou que a cobertura jornalistica do tiroteio se concentrou nas estratégias dos órgãos especializados da policia e a resposta das autoridades universitárias. A organização, por outro lado, se concentrou, ontem, em uma declaração nas leis, normas e políticas que permitem o acesso a grande quantidade de armas de fogo com as quais é possível cometer um massacre. O governo de George W. Bush se mantém firme na oposição às restrições, uma reivindicação-chave do Partido Republicano. A porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, afirmou que o governo está concentrado no “cumprimento pleno de todas as leis sobre armas que há nos códigos”.
O fundador da Rede Internacional de Ação contra as Armas Pequenas (Iansa), Yeshua Moser-Puangsuwan, disse à IPS: “Perdemos três mil pessoas no 11 de setembro de 2001. Mas 30 mil pessoas perdem a vida todos os anos por causa das armas e não vemos 10 vezes mais ações”. Quando “isto ocorre em outros países, como na Austrália, são dispostos grandes controles e uma redução na criminalidade e na violência armada. É um problema de saúde pública, e devem ser cuidadas suas causas e seus efeitos”, acrescentou. Diariamente morrem nos Estados Unidos 18 pessoas vítimas de disparos, segundo a Coalizão para Deter a Violência das Armas. A taxa de morte entre meninos e meninas por disparos neste país é 12 vezes maior do que em outras 25 nações industrializadas, de acordo com o governamental Centro para o Controle e a Prevenção de Enfermidades. (IPS/Envolverde)

