Pequim, 24/04/2007 – A China convence o governo do Sudão a aceitar a presença de uma força internacional de paz em seu território para deter as matanças na região de Darfur. O objetivo de Pequim é impedir mais sanções contra esse país africano onde tem grandes investimentos. O ministro-assistente de Relações Exteriores da China, Zhain Jun, disse à imprensa na semana passada, após uma missão especial ao Sudão, que graças aos esforços de Pequim Cartum começava a ceder perante a pressão internacional e considerava o plano de paz proposta pelo ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan. “Não estamos a favor de aumentar ou expandir as sanções, porque há muitas esperanças de resolver este assunto”, disse Zhain.
Até a viagem de Zhain ao Sudão, quando se reuniu com o presidente Omar Hassan al Bashir e percorreu acampamentos de refugiados, Cartum se negava reiteradamente a permitir a intervenção da ONU em Darfur. Bashir havia afirmado que isso colocaria em risco a soberania do seu país, e descreveu as forças de paz da ONU como “neocoloniais”. Pequim mantém sua postura apesar da nova evidência de que o governo sudanês está diretamente envolvido na crise humanitária. Um informe das Nações Unidas que chegou aos jornalistas revela que Cartum camuflou aviões militares para ficarem parecidos aos da ONU e os usou para bombardear aldeias em Darfur.
Durante muito tempo, Bashir garantiu que seu governo não estava envolvido na guerra civil, na qual morreram entre 200 mil e 450 mil pessoas e fez 2,5 milhões de refugiados, segundo organizações humanitárias. Os problemas de Darfur, reino independente anexado pelo Sudão em 1917, começaram nos anos 70 como uma disputa por terras de pastoreio entre nômades árabes e agricultores indígenas negros. As duas comunidades são muçulmanas. Mas a tensão se transformou em guerra civil em fevereiro de 2003, quando guerrilheiros negros responderam com violência a hostilidade das milícias Janjawed (homens à cavalo, em árabe), acusadas de destruir centenas de aldeias, assassinar seus habitantes e violentar as mulheres.
Os janjaweed são acusados de realizar, com o apoio de Cartum, uma campanha de limpeza étnica contra três tribos negras que apóiam os dois grupos guerrilheiros. A nova evidência do papel da Cartum nas atrocidades ficou exposta em um informe confidencial de um painel da ONU, que vazou para a imprensa na semana passada. Apoiado por fotografias, o documento diz que o governo do Sudão teria pintado aviões militares de branco (cor habitualmente reservada aos da ONU) usando-os para levar armas aos janjaweed, bem como para realizar vôos de reconhecimento e missões de bombardeio em Darfur. Mas, a China preferiu centrar-se no que chamou de “uma medida positiva para a paz”, conseguida na semana passada.
Após meses de frustrados esforços diplomáticos, o Sudão finalmente concordou, no último dia 16, com uma ajuda em grande escala por parte da ONU que consistirá no envio de três mil soldados da policia militar, junto com seis helicópteros de ataque e outra aviação em Darfur. Isso faz parte da proposta de Annan, cuja idéia era criar uma força conjunta da União África e das Nações Unidas com 21 mil homens para substituir a força de sete mil militares do bloco africano atualmente instalada em Darfur.
A chancelaria chinesa disse acreditar que este não é o “momento adequado” para discutir sanções, e afirmou que as potências mundiais deveriam aproveitar a oportunidade diplomática e se concentrar na instalação de uma força da ONU em Darfur. “É hora de adotar medidas construtivas para implementar o acordo, em lugar de falar sobre novas sanções”, disse o porta-voz do Ministério, Liu Jianchao, em entrevista coletiva na última quinta-feira em Pequim. Apesar de Cartum demonstrar vontade de compromisso, Estados Unidos e Grã-Bretanha ameaçaram com sanções mais duras se o Sudão não agir de maneira rápida e decidida para frear a violência.
“O tempo de promessas acabou. O presidente Bashir deve agir. Se não cumprir suas obrigações, os Estados Unidos agirão”, disse o presidente George W. Bush no último dia 18. As medidas consideradas incluem sanções contra empresas que negociarem com o Sudão, congelamento de suas contas bancárias, embargo de armas e criação de zonas de exclusão aérea. A China advertiu que novas sanções somente vão piorar a crise humanitária em Darfur. “É melhor não seguir nessa direção”, afirmou o embaixador-adjunto da China na ONU, Liu Zhenmim. “Em poucas semanas, ou em poucos meses, o processo político produzirá alguns resultados”, afirmou.
O governo chinês preocupa o fato de as sanções mais duras possam prejudicar um processo político pelo qual seus diplomatas trabalharam duramente pelo qual Pequim está levando os créditos. A China, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU com direito a veto, investiu milhares de milhos de dólares no desenvolvimento dos poços de petróleo do Sudão, e é um dos principais sócios comerciais desse país. Durante muito tempo, o governo Bush pediu urgência à China para que pressionasse mais Cartum a cooperar com as Nações Unidas.
Pequim, entretanto, preferiu ver o Sudão como uma importante fonte de energia para sua economia em auge, negado-se a tomar posição na política interna desse país. Nos últimos meses, a política chinesa de não-intervenção no Sudão foi duramente criticada por organizações não-governamentais e ativistas pelos direitos humanos, para os quais, ao deixar de agir, o governo chinês avaliza as atrocidades em Darfur. A atriz norte-americana Mia Farrow, embaixadora da boa vontade da ONU, aproveita os preparativos dos Jogos Olímpicos 2008 em Pequim para chamar a atenção para a crise em Darfur. (IPS/Envolverde)

