Washington, 04/02/2005 – Às vésperas da reunião de ministros das Finanças do Grupo dos Sete (G-8) países mais ricos, mais a Rússia, organizações humanitárias pressionam o governo dos Estados Unidos para que incentive um cancelamento completo, imediato e incondicional da dívida dos países mais pobres. A rede Jubileu-Estados Unidos, uma coalizão de 60 organizações não-governamentais, e o grupo África Action, apresentaram na terça-feira um pedido formal ao Departamento do tesouro com mais de três mil assinaturas, no qual qualificam a dívida de "ilegítima". O secretário do Tesouro, John Snow, representará o governo de George W. Bush na reunião do G-8, que acontece nesta sexta-feira e sábado em Londres. O G-8 está integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão, mais a Rússia.
"Este ano, as nações mais pobres investirão milhares de milhões de dólares no pagamento obrigações ilegítimas ao Fundo Monetário Internacional (FMI), ao Banco Mundial e outros credores poderosos, em lugar de destiná-los em programas urgentes de luta contra a aids, a pobreza e as pestes", disse o coordenador do Jubileu-Estados Unidos, Neil Watkins. "Enviamos uma mensagem clara ao secretário Snow: a dívida custa vidas humanas, e não pode haver demora nisto. Tem de regressar com um acordo sobre um perdão multilateral da dívida", afirmou.
Ao mesmo tempo, 69 legisladores norte-americanos, tanto do Partido Republicano (governante) quanto do Partido Democrata (oposição), enviaram sua própria carta a Snow propondo o cancelamento das obrigações. "Os habitantes dos países mais pobres necessitam de uma mudança. Necessitam ter sua dívida completamente perdoada", diz a carta, assinada, entre outros, pelos representante republicanos Spencer Bachus e James Leach, e os democratas Barney Fank e Maxine Waters.
Importantes organizações humanitárias internacionais, como ActionAid, Oxfam e Agência Católica para o Desenvolvimento de Ultramar, também pediram aos ministros do G-8 que aproveitem a reunião desta semana para mudar a vida de milhões de pessoas no Sul. "Se os ministros das Finanças chegarem a um acordo sobre o cancelamento da dívida, esta reunião do G-8 será um marco na luta para acabar com a obscena pobreza que mata 50 mil pessoas no Sul todos os dias", afirmou Max Lawson, da Oxfam.
Em Londres estarão em jogo os milhares de milhões de dólares devidos pelos países mais pobres, em sua maioria da África subsaariana, aos organismos multilaterais de crédito. Grande parte da população dessas nações sobrevive com menos de um dólar por dia. O G-8, que controla as decisões dos organismos de crédito, lançou em 1996 a iniciativa para os Países Pobres Altamente Endividados (HIPC). Este programa foi desenhado para reduzir a dívida de 41 nações a níveis manejáveis, desde que seus governos aplicassem uma série de reformas econômicas para atrair investimentos estrangeiros.
Até agora, 27 países que juntos deviam aos organismos multilaterais US$ 100 bilhões reduziram seus compromissos para US$ 30 bilhões. Entretanto, a maioria dos beneficiados pela iniciativa HIPC continuam pagando anualmente mais em serviços da dívida do que investem em saúde e educação, o que, segundo os ativistas, é moralmente indefensável. Pior ainda é que, na maior parte dos casos, a dívida original destes países foi contraída por ditadores de praticaram malversação com o dinheiro.
"Assim como os Estados Unidos fizeram um apelo para o cancelamento da dívida do Iraque, é tempo de que, junto com os demais governos do G-8, reconheçam a odiosa e ilegítima natureza da dívida dos países africanos e a cancelem por completo", afirmou o diretor da África Action, Salih Booker. Muitos dos países pobres são açoitados pela aids, malária e outras doenças infecciosas, que matam milhões de pessoas por dia. A discussão entre os governos mais poderosos do mundo sobre a necessidade de lançar iniciativas mais amplas do que o HIPC começou na última cúpula do G-8, realizada em junho na cidade norte-americana de Sea Island.
Nesse encontro, a Grã-Bretanha, que assumiu a presidência rotativa do grupo em 1º de janeiro, apresentou uma proposta de cancelar 100% da dívida de mais de 30 países pobres. O governo do primeiro-ministro Tony Blair sugeriu que o FMI vendesse parte de suas milionárias reservas de ouro para perdoar as obrigações dos países mais pobres e, inclusive, se comprometeu a responder por 10% do total. O valor das três mil toneladas de ouro dessas reservas está calculado em US$ 8,5 bilhões, nos preços de 1971, mas, no mercado atual chegaria a US$ 42,2 bilhões, segundo o próprio Fundo. Trata-se da maior reserva de ouro do planeta, depois da dos Estados Unidos e da Alemanha. (IPS/Envolverde)

