Lisboa, 11/05/2007 – Com passos graduais, firmes e decisivos, Angola se coloca, cada vez mais, como a potência econômica, política e militar africana que pode em poucos anos fazer sombra para a África do Sul na região. A Fênix angolana já levantou vôo desde as cinzas deixadas pelas guerras, de independência contra Portugal (1961-1974) e civil (1975 – 2002), que devastaram este país hoje com 16 milhões de habitantes e que deixaram mais de um milhão de mortos e cerca de quatro milhões de refugiados. No ano passado registrou crescimento econômico de 15% e calcula-se que esse indicador irá duplicar este ano.
Os próximos passos na busca de sua condição de país forte da África serão dados rumo à opção nuclear, para o qual contaria com apoio da China, segundo se depreende das declarações a uma rádio norte-americana feita pelo ministro angolano de Ciência e Tecnologia, João Baptista Ngandajina, reproduzidas pela imprensa de Portugal. Apesar de ser um dos principais exportadores de petróleo do mundo, Angola “tem limitações pra a produção de energia, então, por que não começar a pensar em projetos que no futuro possam produzir energia a partir de fontes nucleares?”, perguntou Ngandajina, que descartou que tal estratégia implique desenvolvimento de armas atômicas.
O parlamento elabora uma Lei de Energia Nuclear, que, uma vez aprovada, permitirá o desenvolvimento desta opção energética. O governo de José Eduardo dos Santos reiterou que inicialmente se dará prioridade aos projetos de pesquisa e à formação de quadros, e à nova lei, segundo o ministro, “definirá tudo que diz respeito à aquisição, transporte, uso e armazenamento que fizermos de equipamentos radioativos no país”. Ngandajina revelou que já foram identificadas jazidas de minerais radioativos, como urânio, mas não indicou as regiões do país onde se encontram.
Em declarações reproduzidas no último dia 8 na versão eletrônica do semanário português Expresso, o especialista em energia nuclear Antonio Costa e Silva afirmou que as abundantes jazidas de urânio existentes em Angola atraem o interesse da China, que tentara oferecer como moeda de troca “a formação de quadros e a abertura de uma ou duas centrais nuclears”. Costa e Silva, professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa, se diz cético quanto às possibilidades de Angola para implementar a opção nuclear, devido à necessidade de contar com tecnologias avançadas.
Esse avanço é difícil para um país como Angola, com uma economia primária baseada na exportação de matérias-primas, sendo que “ganharia mais exportando urânio do que de desenvolvendo uma política nuclear dentro de suas fronteiras”, afirmou . “Angola no clube nuclear?”, pergunta o especialista político residente em Portugal Eugenio Costa Almeida, doutorado pelo Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, uma das vozes analíticas mais autorizadas da imprensa portuguesa e internacional sobre temas africanos.
“Apesar de Angola neste momento ser uma potência local, tudo se conjuga para ser, em breve, uma forte potência regional, disse Almeida em entrevista à IPS. “No momento, contam mais os fatores políticos e militares do que os econômicos, mas, com uma tendência concertada de ser uma combinação dos três fatores, os quais farão de Angola uma potência regional”, previu. Este especialista citou como exemplo “a importante influência política de José Eduardo dos Santos, aliada a uma forte maquina militar, que conseguiu colocar, manter e consolidar o poder aos líderes dos Congos”.
Almeida recordou que na República do Congo Denis Sassou-Nguesso “foi derrotado nas urnas em 1997 e só voltou ao poder em 1999 através de sua força militar particular, os Cobras, que derrotaram os Zulus, o exército quase particular do presidente eleito Pascal Lissouba, com a ajuda das Forças Armadas de Angola, segundo crônicas da época”. O especialista lembrou também que na República Democrática do Congo, “o apoio político, militar e econômico de Angola permitiu que o presidente Joseph Kabila assumisse o poder em Kinshasa” em 2001, ratificado no cargo em eleições apenas em 2006.
Em São Tomé e Príncipe, o poder de Angola “é mais evidente no campo econômico, embora no político não esteja tão adormecido como se pretende fazer crer”, disse Almeida. O especialista citou o presidente dessa pequena ex-colônia insular portuguesa, Fradique de Menezes, quando ao assumir o cargo em 2001 acusou “clara e incisivamente” Angola de ingerência na campanha eleitoral e recordou que foi Luanda que em 2003 conseguiu evitar um golpe de Estado liderado pelo major do exército Fernando Pereira.
Na região, “Angola encontra um forte rival na África do Sul, que sempre que sente protagonismo angolano coloca sua figura política mais importante, Nelson Mandela, como negociador nos diferentes conflitos, até quando estes são fora de sua zona de ação e intervenção efetiva, que é o cone austral” do continente, afirmou o especialista. Consultado pela IPS se a pujante presença da China em Angola poderá condicionar os interesses de outros países que ali operam em força, especialmente Portugal e Brasil, Almeida destacou que “não necessariamente, nem me parece que isso ocorrerá”, porque Pequim “tem uma visão ampla de suas relações” e nunca tentam afastar eventuais competidores.
“Os chineses atualmente são um poço sem fundo na busca e na absorção de mais e mais conhecimentos que reforcem sua predominância no atual sistema internacional” e Angola, “que deseja consolidar sua capacidade e sua independência regionais, não descarta ajudas, venham de onde vier, enquanto estas não se chocarem com seus interesses”, afirmou. O especialista em relações internacionais destacou que, como se sabe, a amizade só existe entre duas pessoas, “os países não têm amigos mas interesses para defender”, motivo pelo qual Angola deseja manter “boas relações com Portugal e Brasil”.
Entretanto, fustigou os complexos que afloraram nos últimos anos do império luso-africano, “especialmente na esquerda portuguesa, que ainda persiste em pensar que colaborações políticas, econômicas e/ou militares podem configurar métodos neocoloniais”. Quanto ao Brasil, esse país sul-americano é avaliado em Angola “como um importante associado econômico que, além disso, apresenta a vantagem de falar a mesma língua e ter quase a mesma cultura e que são separados apenas pelo Atlântico”, afirmou.
As relações entre Angola e seus dois principais associados de língua portuguesa, Brasil e Portugal, “são muito importantes para a China, que não só não tenta minar essa relação como também incentivá-las”. Ao concluir, Almeida afirmou que para ser uma potência regional efetiva Angola ainda tem um longo percurso pela frente no caminho da paz e da democracia, “derrubando os últimos obstáculos que impedem sua concretização: a corrupção e a vassalagem da comunicação social, ou seja, ganhar uma liberdade efetiva”. (IPS/Envolverde)

