Espanha: Terroristas em greve de fome

Madri, 17/05/2007 – Quatorze dos 19 presos e processados pelos atentados de 11 de março de 2004 na capital espanhola estão em greve de fome e dois deles também deixaram de beber líquidos. O ataque cometido contra trens estacionados ou chegando a três estações de Madri cheios de passageiros custou a vida de 191 pessoas e feriu cerca de duas mil, constituindo-se no maior ato terrorista cometido na Europa nas últimas três décadas. Quatro dos processados iniciaram a greve de fome na quinta-feira passada e os demais aderiram a partir de ontem.

Um dos que começaram a greve é Rabei Osman el Sayed Ahmed, conhecido como Mohamed El Egípcio. A principal prova apresentada contra ele pela promotoria e as acusações particulares são gravações feitas em sua casa em Roma e enviadas pela justiça italiana. Nessas conversas feitas poucos dias depois dos atentados pode-se ouvi-lo dizer: “Toda a operação de Madri foi minha, idéia minha… O programa foi de alto nível, inclusive eu estava preparado para ser mártir, mas certas circunstaâncias me impediram”.

No mês seguinte, e de acordo com a gravação de outra conversa, disse saber que depois do ataque “todos os árabes e espanhóis saíram às ruas chamando Aznar de assassino. Estou imensamente feliz que tenha caído o governo do cão Aznar. Quem apóia o cão terá somente um terremoto e Madri foi a prova, uma lição para a Europa”. José Maria Aznar, do Partido Popular (centro-direita) e firme aliado do governo norte-americano do presidente George W. Bush na invasão e ocupação do Iraque em março de 2003, perdeu as eleições três dias depois dos atentados.

Além de El Egípcio, também entraram em greve de fome e sede o marroquino Youssef Belhadj. Após dois dias nessas condições, ontem estavam fracos no tribunal onde são julgados e tiveram de ser atendidos pelo serviço médico, enquanto o presidente o júri, juiz Javier Gómez Bermúdez, ordenou a expulsão de ambos da sala. Durante o julgamento os acusados permanecem em um recinto blindado, de vidro. Ali pode-se ver vários deles escondendo o rosto com roupas e fazendo gestos de que não estavam se sentindo bem.

Bermúdez ordenou ao serviço médico forense que, se necessário, aplicassem hidratação forçada em ambos. Os demais ainda não sentiram os efeitos da greve, por tê-la iniciado mais tarde. El Egípcio havia colocado no dia anterior junto ao vidro da cabine blindada um papel afirmando que estava em greve de fome por considerar injusta e sem fundamentos a acusação da promotoria. Outro grevista, Abdelmajid Bouchar, acusado de ser um dos autores materiais dos atentados, enviou um recado escrito ao órgão de Instituições Penitenciarias.

“A partir de hoje, 10/05/2007, estou em greve de fome por tempo indeterminado pelo seguinte motivo: me processam neste caso como autor material por pura adivinhação”, afirmou. Acrescentou que nada tem a ver com os atentados, “tal como expliquei em meu depoimento e não posso mais suportar esta injustiça”, escreveu Bouchar. Este preso havia conseguido fugir no dia 3 de abril de 2004 de um apartamento no bairro madrilenho de Leganés antes da chegada da policia. Os outros sete ocupantes se suicidaram no local, detonando dezenas de quilos de explosivos.

Bermúdez disse à imprensa que a decisão dos grevistas é “deliberada e voluntária” e afirmou que a lei espanhola não contempla isto como motivo para suspender o processo uma vez iniciado o julgamento com os acusados presentes, como ocorreu. Fontes próximas aos grevistas e familiares lembraram nos corredores do tribunal o caso de José Ignácio de Juana Chãos (Iñaki), militante da ETA condenado a quase três mil anos de prisão por 25 atentados mortais, que após duas greves de fome conseguiu ser transferido, em março, para a prisão de um hospital do País Basco, de onde sai para passear pelos arredores.

A respeito da greve, Mohamed El Afifi, porta-voz do Centro Cultural Islâmico, o maior da Europa, disse à IPS que esse tipo de ação “nada tem a ver com a cultura islâmica. É realizada por pessoas na época moderna, mas nem a greve de fome nem os atentados têm algo a ver com nossa cultura’, afirmou. Porque “a violência contradiz os princípios de nossa religião e os que se suicidam, sejam por greve de fome ou como bombas humanas, não vão para o céu, mas para o inferno. E os mais condenados são os que matam inocentes”, ressaltou.

O julgamento seguirá, com ou sem greve de fome, por isso alguns dos advogados de defesa tentam fazer com que abandonem essa atitude. Foi o que fez Beatriz Bernal, que tratou do caso com seu cliente, Otman el Ganoui, para pedir que acabe com a greve de fome porque isso seria outro argumento contra os seus, que pretendem desvinculá-lo judicialmente dos terroristas que se suicidaram depois do atentado.

Em todo caso, faltam várias semanas para o fim do julgamento e, mais além das reclamações dos acusados, segundo as provas, declarações e testemunhos obtidos até agora, tudo parece confirmar que os atentados foram cometidos por extremistas islâmicos e não pelo grupo terrorista espanhol ETA (Euskadi ta Askatasuna – Pátria Basca e Liberdade, em basco). (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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