China: Ricos burlam planejamento familiar oficial

Pequim, 17/05/2007 – Os casais de novos ricos da China optam por ter mais de um filho, burlando a limitação imposta pelo governo, alegando que, assim, impede que se convertam em malcriados sem respeito pelos pais ou pelas responsabilidades. A nova filosofia, em grande auge nas cidades da China, desafia os esforços governamentais de várias décadas para controlar o crescimento demográfico neste país com mais de 1,3 bilhão de habitantes e onde o comum era ressaltar o conceito de “menos nascimentos, melhor qualidade da nação”.

Os funcionários responsáveis pelo planejamento familiar alertam que o país pode enfrentar uma crise de população se mais casais ricos continuarem ignorando a rígida política de ter apenas um filho e criarem grandes famílias, como foi a norma neste país antes da chegada do Partido Comunista ao poder. Sob as controvertidas regras, introduzidas pelos governantes comunistas no final dos anos 70, os casais devem pagar multas se têm dois ou mais filhos. Mas, enquanto a economia do país floresce e os padrões de vida aumentam, cada vez mais famílias nas cidades percebem que podem pagar pelo que consideram o privilegio de ter mais filhos.

A baixa natalidade do país pode ser insustentável e o risco de uma “recuperação da população” é muito real, disse está semana o diretor da Comissão Nacional de População e Família, Zhang Weiqing. O número de pessoas com bom poder aquisitivo e de celebridades que têm mais de um filho aumenta rapidamente, disse Zhang, citando um estudo feito por sua organização. Quase 10% deste setor de alta renda agora opta por três filhos, porque as famílias grandes estão tradicionalmente associadas na China à riqueza e felicidade.

Entretanto, este “baby boom” entre os novos ricos da China gerou uma indignação pública, pelo fato de o dinheiro e o poder passarem por cima inclusive das regras mais rígidas do país. O governo alega que graças à política do filho único foi possível controlar o crescimento demográfico em um país que já tem a maior população do mundo. As multas impostas para quem viola essa política variam por região, mas nas províncias costeiras ricas, como Guangdong, pode chegar a 200 mil yuans (US$ 25,8 mil) por filho. A imprensa chinesa, por exemplo, informou sobre uma família de Guangdong que pagou 780 mil yuanes (US$ 100 mil) para ter vários filhos.

“Os ricos burlam política nacional mostrando que, com dinheiro, está pode não significar nada”, dizia um comentário publicado em março no China Daily. “Sem serem pressionados por uma espécie de castigo complementar, os que infringem está lei se sentem orgulhos de uma suposta superioridade baseada em sua riqueza. E é muito possível que mais pessoas sigam seu mau exemplo”, concluiu o jornal. Está tendência de violar a regra de ter apenas um filho aparece em um momento de crescentes tensões sociais causadas pela ampliação da brecha entre ricos e pobres.

Uma pesquisa feita via Internet pelo jornal China Youth Daily mostrou que mais de 60% dos que a responderam pensam que é injusto os ricos poderem desfrutar do privilegio de “dinheiro por bebê”. Enquanto os ricos pagam para evitar as regras, as mulheres pobres grávidas que vivem nas áreas rurais correm risco de vida, como seus bebês, ao fazerem partos clandestinos para evitar as elevadas multas, segundo um alto funcionário da Saúde.

“Algumas mulheres que não se atrevem a pleitear a assistência financeira no momento do parto por medo de serem punidas por ter mais de um filho escolhe, dar à luz em suas casas ou clinicas privadas baratas, que não atendem as condições básicas”, disse o vice-ministro da Saúde, Jiang Zuojun, em uma conferência sobre mulheres e crianças. Durante as duas últimas décadas, críticos da China acusaram a política do filho único de ser fonte de coerção e abortos forçados. Os casais que têm mais filhos são punidos com fortes multas, perda do trabalho e esterilizações forçadas.

Mas, os planejadores familiares chineses trabalharam duramente para superar a imagem draconiana de seu sistema coercitivo, estabelecendo projetos-piloto para tornar a política menos severa e perturbadora. A aplicação da lei do filho único foi flexibilizada na segunda metade dos anos 90, quando algumas famílias rurais tiveram permissão para ter um segundo filho se o primeiro fosse menina ou apresentava alguma deficiência. Na China rural, a tradicional preferência por filhos homens ainda se mantém, e nisto também incidem razões práticas. Como o sistema de seguro social cobre apenas os moradores de zonas urbanas, as famílias do campo têm mais filhos esperando ter quem os sustente na velhice.

Os casais ricos nas cidades têm considerações menos práticas, mas de um longo prazo semelhante, ao escolher pagar as multas para ter mais filhos. Eles se preocupam que a nova geração de filhos únicos, consentidos, conhecidos como “os pequenos imperadores”, cresçam egocêntricos e mal-educados, com pouco respeito por seus pais, entre outras coisas. “Não consigo inculcar em minha filha nenhuma disciplina”, disse a empresaria de bens de raízes Cao Li, que trabalha em tempo integral e deixa seus pais cuidarem da filha. “Ela é mal-educada, egoísta e exigente, e estar com ela apenas nos finais de semana não ajuda na disciplina. A única solução seria ter outro filho para que ela aprenda a compartilhar e cuidar de mais alguém”, afirmou.

Cao Li não tem tempo para corrigir as práticas educacionais dos avos em relação à neta, mas ganha o suficiente para ter outro bebê. “Custa muito criar dois filhos, mas, provavelmente, seja menos caro do que ter apenas um, o que resulta em uma decepção, quando somos idosos”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *