O segredo do modelo nórdico: Alimentos tradicionais contra a fome

TURIM, 20/01/2005 – A fome afeta 846 milhões de pessoas no planeta, e 35 países carecem de segurança alimentar devido à escassez de comida, desordens internas ou clima adverso. Parte da solução para estes problemas está em recursos e práticas tradicionais, segundo cinco mil representantes da "comunidade do alimento" de todo o mundo, reunidos na Itália. No encontro Terra Mãe, realizado de 20 a 23 de outubro, na cidade de Turim, havia muitos agricultores filipinos, italianos, norte-americanos, da etnia africana masai, e do pampa, entre muitos outros, unidos pela vontade de criar uma economia sustentável que resolva o problema mundial da alimentação.
"Podemos cooperar entre nós e dar respostas aos governos para enfrentar a globalização que nos forçou a reduzir os preços. Estamos entre os primeiros produtores de arroz do mundo, mas o vendemos a US$ 0,30 o quilo", explicou ao Terramérica o vietnamita Nguyen Van Vinh, de uma comunidade produtora de arroz biológico de Hai Phong. Nessa comunidade, no nordeste do Vietnã, uma centena de famílias introduz patos com poucas semanas de vida nos arrozais para que exterminem os insetos e seus excrementos sirvam de adubo. Assim, evitam o uso de pesticidas e fertilizantes.
Os participantes do encontro, patrocinado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), defenderem o consumo de cereais nutritivos como o amaranto (Amaranthus caudatus), a quinoa (Chenopodium quinoa) ou o sorgo (Sorghum vulgare ou Sorghum bicolor), resistentes a terrenos difíceis e doenças. O problema é que "os jovens preferem comida da moda, como batata frita ou hambúrguer, e rejeitam pratos tradicionais", disse ao Terramérica Dutta Mita, de uma comunidade de produtores de arroz, milho e cana-de-açúcar do Estado indiano de Bengala Ocidental. "Querem copiar o estilo de vida norte-americano que vêem no cinema, e os produtores de alimentos acabam por vender esse tipo de alimento", acrescentou.
Além disso, o Sistema Mundial de Informação e Alerta sobre Agricultura e Alimentação (SMIA) da FAO registra uma queda na produção mundial de cereais, de 229,7 milhões de toneladas por ano. A produção de alimentos é afetada por múltiplos fatores, entre eles guerras civis, pragas e fenômenos climáticos extremos na África, crises humanitárias na Coréia do Norte, Iraque ou Sri Lanka, e carestia no Haiti ou República Dominicana.
Segundo participantes do Terra Mãe, é preciso diversificar os hábitos de alimentação e ter em conta, por exemplo, que a carne de lhama (Lama Glama) consumida na Bolívia, a de bisão (Bison bison), no Canadá, ou a de rena (Reginfer tarandus), na Suécia, Finlândia, Rússia e Noruega, são mais sustentáveis do que a de frango (Gallus gallus) ou a de vaca (bos taurus), disse ao Terramérica Blind Ingemas, produtor de carne de rena. A rena é o alimento tradicional dos lapões, na costa setentrional escandinava, onde o inverno dura 200 dias, com temperaturas de até 30 graus abaixo de zero.
Um estudo nas províncias orientais tailandesas de Kalasin, Yasothorn, Ro-Iet, Khon-Kaen e Surin registrou mais de cem variedades de arroz (Oryza sativa), das quais atualmente são cultivadas apenas cerca de 50, algumas para consumo direto do grão e outras para confecção de bolachas, doces, vinhos e licores. "Somos comunidades pobres e pequenas. Produzimos para nossa sobrevivência e um pouco para vender no mercado. Não competimos com produtos convencionais, apenas procuramos fazer o melhor possível, cuidamos do meio ambiente e não usamos produtos químicos", disse ao Terramérica Avaiporn Suthonthanyakon, produtor de arroz de variedades tradicionais na Tailândia.

No extremo da cadeia de produção alimentar estão os cozinheiros, também presentes em Turim. "Difundimos receitas tradicionais da época pré-hispânica, como o locro (guisado que leva milho, feijão e carnes), os tamales (massa de milho recheada com pedaços de carne), as humitas (creme de milho cozido, servido em folhas de milho) e produtos autóctones como milho e batatas andinas", disse ao Terramérica Alejandra García, chef de Comida Tradicional na Argentina. Tudo isso "se perde com a globalização, e a idéia é cozinhar como na casa de nossas avós", acrescentou.

* A autora é colaboradora do Terramérica.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Francesca Colombo

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