Desenvolvimento: G-7 impões condições para cancelar dívidas.

Londres, 09/02/2005 – O Grupo dos Sete países mais ricos do mundo decidiu no último sábado examinar caso a caso a dívida externa dos países mais pobres, no que constitui um êxito parcial da campanha encabeçada pelo ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. "Acertamos uma análise caso por caso dos países pobres altamente endividados (HUPC, sigla em inglês), baseados em nossa vontade de dar um alívio de até 100% na dívida multilateral", afirmaram os ministros das Finanças do G-7 após sua reunião de dois dias em Londres. Isto significa que instituições multilaterais de crédito, como o Banco Monetário e o Fundo Monetário Internacional (FMI), nas quais o G-7 tem maioria, considerarão a dívida de cada um dos 37 HIPC, com vistas a um eventual cancelamento.

Não houve anúncio semelhante a respeito da totalidade dos países de baixa renda, que são 61, segundo a relação do Banco Mundial. A análise de cada caso pode incluir condições, pois o FMI vincula seus mecanismos de redução da dívida à concretização de determinadas reformas econômicas. A declaração dos ministros do G-7, que reúne Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão, deixa espaço suficiente para que o FMI mantenha suas condições. "Esta declaração está muito longe de um cancelamento da dívida", disse à IPS Romilly Grenhill, da organização humanitária ActionAid, uma das que promovem a campanha. "Devemos conseguir que o G-7 diga o que exatamente significa análise de cada caso". De todo modo, acrescentou, a declaração implica um reconhecimento de que o cancelamento da dívida é necessário para alguns. "Estabelece um caminho e compromete o grupo a ir mais além na reunião de doadores que acontecerá este ano", ressaltou.

ActionAid e outras organizações humanitárias, como Oxfam e a Agência Católica para o Desenvolvimento de Ultramar, participaram da campanha liderada por Mandela para que os ministros do G-7 aproveitassem a reunião para mudar a vida de milhões de pessoas do Sul. O próprio Mandela viajou a Londres para promover sua iniciativa, e, além de se reunir com participantes da reunião ministerial, realizou um ato com uma enorme presença de público. A declaração ministerial também se refere à necessidade de melhorar a ajuda ao desenvolvimento, mas, não se contradiz, com a insistência do FMI em vincular essa ajuda às "reformas".

"Para avançar no desenvolvimento econômico e social, consideramos essencial que os países pobres implementem políticas de desenvolvimento sustentável. Instituições políticas adequadas, responsáveis e transparentes são a base do crescimento econômico sustentável e da redução da pobreza", diz a declaração. O texto especifica ainda mais o tipo de reformas desejadas pelo G-7. "Aumentar a transparência fiscal é essencial. Uma prioridade para os países em desenvolvimento é combater a corrupção, que é uma importante barreira para o crescimento, o setor privado, o investimento e a redução da pobreza", afirmaram os ministros. Não faltou ao pronunciamento uma renovada insistência em promover a privatização, mas, sim, um compromisso para o cumprimento da meta de destinar 0,7% do produto interno bruto dos países do Norte industrial à ajuda oficial ao desenvolvimento.

Os ministros tampouco conseguiram um acordo sobre a criação de um Serviço Financeiro Internacional com a venda de parte das reservas de ouro do FMI, proposta do britânico Gordon Brown. Sua intenção é arrecadar cerca de US$ 50 bilhões dos mercados com apoio governamental para obter recursos destinados a cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela Organização das Nações Unidas, entre eles o de reduzir a população pobre do mundo à metade até 2015. Os Estados Unidos se opuseram firmemente à iniciativa. "Esse mecanismo não funciona para nós. Funciona para outros países, tudo bem", disse o subsecretário do Tesouro norte-americano, John Taylor.

A esse respeito, a declaração limita-se a mencionar o acordo entre os ministros sobre um "programa de trabalho" para analisar a iniciativa britânica e outras semelhantes da Alemanha e da França, bem como a Conta do Desafio do Milênio criada pelos Estados Unidos para financiar o desenvolvimento. De todo modo, Brown considerou que a declaração é um grande avanço. "Podemos estar no início de uma etapa final do processo pelo qual se reconheça que a dívida dos países mais pobres, consolidada ao longo de 20 ou 30 anos, é simplesmente impagável no mundo real", afirmou. Grenhill disse que a declaração é apenas o começo de um processo rumo à Cúpula dos Oito (G-7 mais Rússia) que acontecerá em julho na Escócia.

Haverá outras reuniões em abril e junho nas quais será analisado o cancelamento das dívidas e a ajuda ao desenvolvimento, acrescentou, o ativista. As organizações da sociedade civil esperam, de agora em diante, que suas campanhas pelo desenvolvimento do Sul pobre e pelo perdão das dívidas "sejam cada vez mais fortes", concluiu. O G-7, que controla as decisões dos organismos de crédito, lançou em 1996 a iniciativa para os HIPC, projetada para reduzir a dívida desses países a níveis manejáveis, em troca de seus governos aplicarem uma série de reformas econômicas para atrair investimento estrangeiro.

Até agora, 72 países, que juntos deviam aos organismos multilaterais US$ 100 bilhões, reduziram seus compromissos para US$ 30 bilhões, o que significa uma redução de menos da metade de seus serviços atuais. Entretanto, a maioria dos beneficiados pela iniciativa segue a cada ano com mais serviços de dívida do que investem em saúde e educação, o que, segundo os ativistas, é moralmente indefensável. Pior ainda, é que, na maior parte dos casos, a dívida original desses países foi contraída por ditadores que praticaram malversação do dinheiro. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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