Desarmamento: Fim do financiamento para bombas de fragmentação

Lima, 24/05/2007 – O futuro tratado internacional para eliminar as bombas de fragmentação deverá proibir às entidades financeiras investir na fabricação destes armamentos, disse à IPS Thomas Nash, coordenador da não-governamental Coalizão contra as Munições de Fragmentação (CMC, sigla em inglês). Segundo Nash, no rascunho do tratado que se discute em Lima há uma referência especifica à proibição de todo financiamento aos fabricantes dessas bombas.

“Na Bélgica, além da proibição de produzir essas bombas, também entrou em vigor, em março, uma lei que impede seus bancos e financeiras a investirem em empresas fabricantes. Todos os países devem imitar a Bélgica”, disse Nash em um fórum da sociedade civil paralelo a uma conferência intergovernamental realizada terça-feira em Lima. “Cortando o fluxo de dinheiro para as fabricas de munições de fragmentação, sem dúvida isso desestimulará a produção. Os bancos de financiamento internacional devem ou vir o clamor do mundo”, acrescentou.

Ativistas e governos discutiram na capital peruana os mecanismos para acabar com esse tipo de armamento, depois do acordo obtido em fevereiro, em Oslo, por 46 países para terminar em 2008 com um tratado global que proíba as munições de fragmentação espalhadas em zonas onde vivem mais de 400 milhões de pessoas, segundo dados da organização handicap International. Dessas novas nações, uma dezena de fabricantes dessas bombas, entre eles Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Espanha, França, Grã-Bretanha e Itália. Outro país fabricante, o Brasil, não participou da reunião em Lima.

Este tipo de explosivo é feito com dezenas ou centenas de munições contidas em obuses, bombas ou foguetes, com uma imprecisão inaceitável, afirmam seus críticos. Lançadas desde aviões, terra ou água, explodem e explodem estilhaços sobre superfícies muito amplas. Entre 5% e 30% não chegam a explodir na hora e ficam dispersas no solo ou enterradas podendo ser detonadas ao menor contato. Os seis maiores fabricantes destas armas (Lockheed Martin, EADS, thals, GenCorp, Textron Raytheon) obtiveram cerca de US$ 12,6 bilhões de seis grupos financeiros entre 2003 e 2006, de acordo com a organização não-governamental belga Netwerk Vlaanderen.

De acordo com o informe “Investimentos explosivos: As instituições que financiam as bombas de fragmentação”, elaborado por essa ONG, 68 financeiras e bancos internacionais destinam fundos a esta “indústria da morte”. A norte-americana Textron, cujas bombas CBU-150 foram utilizadas pelo exército norte-americano no Iraque, recebeu em 2005 créditos de US$ 1,25 bilhão reunidos por Citigroup e JPMorgan Chase. Estas duas financeiras aportaram US$ 120 milhos cada uma, sendo seguidas, com US$ 90 milhões por cabeça, por Bank of America, o britânico Barclays, o alemão Deutsche Bank e o suíço UBS, entre outros.

Em março de 2003, forças norte-americanas atacaram com bombas de fragmentação a localidade iraquiana de Hilla, matando 38 civis e ferindo outros 156, diz o informe. Apesar de a guerra do Vietnã ter acabado há mais d 30 anos, os efeitos dessas bombas ainda causam graves danos à população civil desse país. De acordo com a CMC, 34 países continuam produzindo esse explosivo, outros 25 os usaram em vários conflitos e 75 armazenam quantidades que representam uma ameaça para a humanidade.

“Noventa e oito por cento das vítimas não são combatentes, mas civis. No momento são registrados 13.306 mortes, em sua grande maioria pobres e menores de 18 anos”, explicou a representante da Handicap International, Anne Eilleneuve. “Os que se dedicam a fabricar essas bombas sabem que elas são entregues a uma indústria da morte”.

A norte-americana Jody Williams, prêmio Nobel da Paz de 1997 por promover a campanha internacional que culminou no ano passado com um tratado para eliminar as minas terrestres, esteve em lima para levar a mensagem de adesão de outras cinco premiadas, a guatemalteca Rigoberta Menchú, a iraniana Shirin Ebadi, as irlandesas Betty Williams, e Mairead Corrigan e a queniana Wangari Maathai. A declaração conjunta diz que “o controle de armas e o desarmamento não são assuntos esotéricos para domínio de uns poucos ‘especialistas’ que costumam negociar a portas fechadas, já que não se trata apenas de temas militares, pois compreende uma perspectiva humanitária.

“As bombas de fragmentação apresentam um problema mais grave do que as minas terrestres porque seu efeito é mais letal”, disse Jody Williams. “Por isso, entendo que os organismos que financiam as atividades das fabricas são tão responsáveis quanto estas pelas conseqüências mortais dos explosivos”, acrescentou. “Não só é perigosa a produção, como também o é seu armazenamento. Calculamos que apenas os Estados Unidos contam com milhões dessas bombas, prontas para serem usadas a qualquer momento”, acrescentou. Desde 1999, as zonas mais bombardeadas com esse explosivo são Afeganistão, Iraque, a província autônoma de Kosovo e o Líbano, e em todos os casos as principais vítimas são civis, disse Villeneuve.

“A Convenção de Ottawa (Sobre a Proibição do Emprego, Armazenamento, Produção e Transferência de Minas Terrestres) supunha cortar de fato o investimento nas fabricas. Mas parece que isso não acontece, porque há bancos que investem nos fabricantes, embora pertençam a países que proibiram as minas”, lembrou Villeneuve. “Por isso, o tratado sobre as bombas de fragmentação deve mencionar explicitamente a proibição de investir nos produtores dessa arma”, acrescentou. “Conseguimos ter um mundo praticamente em minas terrestres, agora, buscamos limpar o mundo das bombas de fragmentação. E esse não é um sonho impossível”, disse Nash. (IPS/Envolverde)

Ángel Páez

Ángel Páez se sumó a IPS como corresponsal desde Perú en 2005. Tiene una amplia experiencia como periodista de investigación en su país, en particular sobre violencia política, así como sobre corrupción, narcotráfico, tráfico de armas y otras formas de crimen organizado. Nacido en 1963, estudió periodismo en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos en Lima y comenzó a trabajar en el diario La República en 1985. En 1990 fundó la Unidad de Investigación, un colectivo de periodistas que destapó escándalos de corrupción del gobierno de Alberto Fujimori (1990-2000). Ángel fue el primero en publicar la noticia sobre uno de esos casos que más tarde contribuyeron a que tribunales chilenos extraditaran a Fujimori para que fuera juzgado en su país. apaezsalcedo@gmail.com Corresponsal en Lima del diario argentino Clarín y de la revista mexicana Proceso, Ángel es miembro del International Consortium of Investigative Journalists, una organización con sede en Washington que promueve investigaciones internacionales.

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