La Paz, 30/05/2007 – O próprio presidente boliviano, Evo Morales, dirige a cruzada dos países andinos contra a decisão da Federação Internacional de Futebol de proibir, por razões de saúde, jogos internacionais em cidades que ficam a mais de 2.500 metros acima do nível do mar. O anúncio da resolução do Comitê Executivo da Fifa, reunido em sua sede em Zurique, provocou imediata reação do Conselho Andino de Ministros das Relações Exteriores de Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, que se reuniu em caráter de urgência em La Paz.
Morales, primeiro presidente indígena eleito da América do Sul e amante do futebol, presidiu uma reunião de emergência de coordenação, tão logo foi conhecida a decisão da Fifa, com seus mais próximos colaboradores, seu aliado político e prefeito da cidade de La Paz, Juan del Granado, e com o opositor governador do departamento de La Paz, José Luis Paredes. Diante da consulta da IPS, Paredes qualificou a restrição de injusta e anunciou uma apelação. Recordou que durante sua gestão como prefeito da cidade de El Alto, vizinha a La Paz e a 3.800 metros acima do nível do mar (msnm), organizou torneios de futebol e construiu o primeiro estádio de grama sintética do país.
Paredes expressou o temor de que outras cidades, como Potosi (3.977 msnm) fiquem marginalizadas dos torneios internacionais de futebol, algo que cresceu pela boa atuação da equipe local Real Potosí, que disputou duas vezes a Copa Libertadores da América. Em meio a variados conflitos sociais e polêmicas com a oposição pela aplicação de medidas drásticas como a recuperação dos hidrocarbonos, Morales fez um parênteses em sua apertada agenda e dedicou uma hora para criar uma estratégia em favor da prática do futebol internacional em cidades de seu país e de vizinhos que ficam na cordilheira dos Andes.
La Paz, onde fica o governo boliviano e a 3.650 msnm, cobiça o estádio Hernando Siles, normalmente escolhido para disputar torneios internacionais por clubes locais e, em especial, as eliminatórias para a Copa do Mundo. Sua grande altitude a torna uma sede temida particularmente pelas seleções de Brasil, Argentina e Uruguai, habituadas a jogar sempre ao nível domar. Por isso, em várias oportunidades se queixaram junto às autoridades internacionais que comando o futebol argumentando que a menor quantidade de oxigênio afeta seu desempenho normal.
O presidente boliviano se comunicou por telefone com seus colegas Michelle Bachelet, do Chile, e Hugo Chávez, da Venezuela, para pedir apoio político nesta cruzada em favor de seu país e dos outros três integrantes da Comunidade Andina de Nações (CAN). O vice-presidente da Federação Boliviana de Futebol, Mauricio Méndez, desde Zurique onde participara do 57º Congresso da Fifa nesta quarta e quinta-feira, se encarregou de informar pessoalmente Morales sobre os alcances da medida, que agora só pode ser vetada pela Confederação Sul-americana de Futebol. “Pedimos uma audiência à Fifa, e, se possível, o próprio presidente fará a apresentação”, disse Morales se referindo à sua pessoa e à possibilidade de viajar à Suíça.
Nascido em uma humilde localidade do altiplano situada a 3.800 msnm, Morales jogou futebol desde criança e depois dirigiu uma equipe que representou os plantadores de folha de coca, na região do Chapare, a partir do qual se projetou como líder sindical e político. Ainda costuma jogar com equipes profissionais e até com a seleção nacional como atancante. No momento. Uma comissão governamental dirigida pelo ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, e pelo vice-ministro de Esportes, o ex-jogador de futebol internacional Milton Melgar, viajará à sede da Fifa para expor os argumentos a favor do futebol nas alturas.
O futebol é o principal esporte praticado na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, com 9,6 milhões de habitantes, segundo o último censo. Sua seleção só participou de três mundiais da Fifa. Como convidada em 1930, na primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, em 1950 no Brasil, e por méritos próprios m 1994 nos Estados Unidos por ter ficado entre as quatro melhores seleções da América do Sul. “Não pode haver discriminação nem marginalização no esporte’, afirmou Morales com um estado de ânimo afetado pela notícia e enfatizando o princípio político de quebrar as barreiras colocadas no acesso a oportunidades econômicas e sociais.
Em pouco tempo serão convocados à sede do governo prefeitos e governadores afetados pela restrição, afirmou o mandatário, que delegou a Del Granado a missão de contatar seus pares de Quito e da cidade peruana de Cuzco, também incluídas na proibição por estarem acima dos 2.500 msnm. As críticas começaram a chegar com mais força à Fifa após a derrota do Brasil por 2 a zero frente a Bolívia em 1994, em La paz, durante a classificação para o Mundial dos Estados Unidos, vencido pelos brasileiros.
Em 1997, a Fifa colocou em prática o chamado “veto à altura”, que fez a Bolívia enviar uma representação à Suíça para convencer as autoridades de que um atleta com a devida preparação não tem dificuldade para jogar futebol em grandes altitudes. Assim, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, visitou La Paz em fevereiro de 2000, onde discursou. “Eu nasci entre as montanhas. Meu país é a Suíça, e está diante dos montes mais altos da Europa e por isso a altura não me causa medo”, foi a parte do discurso escolhida para ficar gravada em uma placa colocada na entrada do estádio Hernando Siles.
“A Bolívia tem o direito à universalidade do esporte e um direito natural por ficar em uma região geograficamente mais elevada do que os demais países”, disse à IPS o jornalista esportivo Ernesto Murillo. Na opinião do ex-presidente de Federação Boliviana de Futebol, Guido Loayza, o jogo em grandes altitudes é compensado com as partidas que as equipes bolivianas devem fazer em campo dos adversários suportando condições extremas de temperaturas de 40 graus e umidade de até 90%.
As diferenças geográficas são uma realidade na América Latina e se pusermos limites estaremos discriminando um país, afirmou Loyaza. O ex-dirigente recordou que a passagem de astros do futebol, como Pelé, com a seleção brasileira e o Santos Futebol Clube, e o argentino Diego Maradona, como o Argentinos Juniors, foi um sucesso e ambos venceram como visitantes e jogando em La paz. O ex-presidente da Bolívia Carlos mesa (2003-2005) sugeriu a Morales assumir a posição de defensor da prática do esporte em grandes altitudes e exercer, como mandatário indígena, uma representação com a força de caráter moral.
Mesa integrou a comissão institucional que foi à Fifa em 1997 levar argumentos médicos e culturais em defesa do futebol em cidade andinas e hoje está convencido do êxito de uma nova representação internacional que inclua Peru, Equador e Colômbia, que são membros da Comunidade Andina de Nacos. “Devemos agir em comum, não só na questão do futebol, mas na universalidade do esporte e contra a discriminação das culturas quéchuas e aymaras que se desenvolveram em zonas de grande altitude”, disse Mesa.
Em meio à luta de interesses de países que temem perder sua classificação a Fifa encaminhará uma saída pela via da conciliação que pode aumentar a altitude permitida e habilitar alguns estádios do Equador e da Colômbia, mas eliminaria, de todo modo, os cenários andinos da Bolívia, antecipou Murilllo. Caso a proibição seja concretizada, as capitais de departamentos bolivianas que ficariam excluídas são La Paz, Oruro (3.076 metros acima do nível do mar), Potosí (3.977) e Sucre (2.790), enquanto Cochabamba superaria levemente a margem indicada pela Fifa com seus 2.558 metros de altitude. (IPS/Envolverde)

