Rio de Janeiro, 06/06/2007 – Como convidado da Cúpula do Grupo dos Oito desta semana na Alemanha, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentará argumentos suficientes para convencer seus pares da importância dos biocombustíveis na luta contra o aquecimento global. A possibilidade de o Brasil se converter num futuro próximo em uma espécie de Arábia Saudita verde, como diz próprio Lula, traz tanto euforia quanto temores.
Com os altos preços do petróleo e a pressão dos países ricos para reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa, o Brasil tem todas as condições para se converter no maior produtor de combustíveis renováveis, extraídos de óleos vegetais ou a partir da cana-de-açúcar, afirmou Adriano Pires, especialista em energia do Centro Brasileiro de Infra-estrutura. O País, que produz 17 bilhões de litros de etanol por ano, junto com os Estados Unidos, responde por 70% deste combustível usado no mundo.
As plantações de cana se estendem atualmente a seis milhões hectares no Brasil, o que representa crescimento de 13% nos últimos 13 anos. Mas para atender ao aumento da demanda interna e externa, segundo os usineiros, será preciso duplicar a produção nos próximos seis ou sete anos e, portanto, expandir as plantações de três para quatro milhões de hectares. O temor que esta política gera, segundo a organização não-governamental Action Aid, é que ocorra o mesmo que aconteceu com a soja, a monocultura que em cinco anos provocou o desmatamento de mais de sete milhões de hectares da selva amazônica.
Esta é uma preocupação compartilhada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que luta pela reforma agrária. A expansão da cana-de-açúcar “acelera a tendência histórica da concentração da terra” e, uma vez mais, como aconteceu com a implantação do álcool em 1975, renova uma política agrária “voltada ao mercado mundial sem importar a produção interna de alimentos”, advertiu Alexandre Conceição, da direção nacional do MST em Pernambuco. Este movimento também alerta para as tradicionais condições trabalhistas “escravagistas” do setor açucareiro.
“O custo social dessa política é a exploração do trabalho com um exército de trabalhadores braçais que cortam uma tonelada d cana por R$ 2,5, em condições precárias, numa situação que já causou a morte de centenas de pessoas”, afirmou o dirigente camponês. Entrevistada pela IPS, Camila Moreno, especialista em desenvolvimento agrário da Universidade Rural do Rio de Janeiro, afirmou que com o auge do etanol se reedita no Brasil “uma moderna visão do passado colonial escravagista açucareiro”, com um adendo que é a expansão de uma nova forma de “imperialismo” ecológico. Camila lembrou que muitas terras são compradas por fundos de investimento internacionais (norte-americanos e europeus), o que traz “uma nova forma de capitalismo que não se conhecia no Brasil”.
A tendência ficou evidente na primeira Cúpula do Etanol, organizada segunda e terça-feira em São Paulo pela União da Indústria da Cana-de-açúcar (Única) e da qual participaram especialistas e políticos de diferentes partes do mundo. Fontes do setor confirmaram que nesse contexto estão sendo destinados mais de US$ 15 bilhões para a construção de novas usinas para produzir etanol, que estarão prontas em 2012, cerca de 77 adicionais às 300 já existentes no Brasil. Nesses investimntos aparecem capitais norte-americanos, japoneses e chineses.
Mas talvez o parâmetro mais claro da euforia do etanol tenha sido o anúncio nessa cúpula do investidor húngaro-norte-americano George Soros de que investirá US$ 900 milhões em três usinas de produção de etanol no Mato Grosso do Sul. Uma compra feita através da empresa Adeco, presente na Argentina e da qual Soros é um dos principais acionistas, ele que já é um proprietário no Brasil de 150 mil hectares para plantar cana.
Celso Marcatto, coordenador de segurança alimentar da Action Aid, disse que para poder realmente chamar os biocombustíveis de “energia limpa ou renovável” é preciso considerar os impactos sociais e ambientais da “expansão desenfreada” da soja ou da cana-de-açúcar. O ativista entende que o Estado deve regular os setores de produção, transporte e comercialização dos biocombustivis para evitar que o País se “transforme em uma grande monocultura” ou “em várias monoculturas (mais precisamente de eucalipto, soja e cana-de-açúcar).
A Action Aid propõe garantir a proteção da agricultura familiar das comunidades camponesas e indígenas “contra a voracidade de expansão das grandes empresas produtoras de biocombustíveis” e incorporá-las à atividade agrícola sustentável como fonte de renda. Além disso, apresenta a necessidade de criar zonas de desenvolvimento para estes tipos de cultivos, que não afetem os sistemas ecológicos, e da definição de rígidos controles governamentais para evitar que sua expansão afete a produção de alimentos e contribua para a superexploração da mão-de-obra, principalmente no corte de cana.
Mas os representantes da indústria da cana e do governo diminuem a importância desses temores. Geraldo Coutinho, vice-presidente dos produtores de cana-de-açúcar do Rio de Janeiro, disse à IPS que, embora seja importante determinar áreas prioritárias e de restrição para esse cultivo, o Brasil ainda tem um “potencial fenomenal para ser explorado em terras ociosas ou subaproveitadas”. Por sua vez, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou que seus planos para transformar o Brasil em um produtor mundial de etanol vá contra a soberania alimentar ou contribua ainda mais para o desmatamento da selva amazônica, com a expansão da fronteira agrícola em cultivos como a cana-de-açúcar.
De acordo com Lula, o País destina 400 milhões de hectares à agricultura, dos quais apenas 1% para a cana-de-açúcar. Por sua vez, o vice-presidente, José Alencar, destacou na Cúpula do Etanol que, em lugar de provocar danos ambientais, o investimento em biocombustíveis pode contribuir para gerar um crescimento nos países pobres. (IPS/Envolverde)

