Ambiente: Chile busca proteção de biodiversidade em montanha

Santiago, 19/06/2007 – A tão rica quanto ameaçada biodiversidade dos Altos de Cantillana, um cordão montanhoso na região metropolitana da capital chilena, recebe há dois anos a atenção de um inédito e ambicioso modelo de conservação implementado pelo governo e por particulares. Os Altos de Cantillana são montanhas descontinuas de mais de dois mil metros de altura que pertencem à Cordilheira da Costa, que abriga quebradas e vales profundos onde vivem cerca de 180 mil pessoas distribuídas em cinco comunas do sudoeste da região metropolitana: Alhué, ilha de Maipo, Melpilla, Paine e São Pedro. Seus 205 mil hectares abrigam oito espécies vegetais e pelo menos 163 de vertebrados entre anfíbios, répteis, aves e mamíferos, dos quais 15% se encontram no Chile.

Os Altos de Cantillana estão nas mãos de 2.500 proprietários privados, particularmente grandes empresas produtoras. As atividades econômicas realizadas na área são agricultura, mineração, pecuária e coleta de lenha e húmus, que é a camada superficial do solo constituída pela decomposição de material animal e vegetal. Em 2004, a região foi declarada área prioritária número um na Estratégia para a Conservação da Biodiversidade na Região Metropolitana de Santiago.

“Trata-se de uma zona mediterrânea, situada na área central do Chile, de muito interesse mundial por sua grande biodiversidade, mas que, ao mesmo tempo, está sofrendo muito o impacto provocado pelo ser humano. É considerada uma área crítica”, disse à IPS Diego Urrejola, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e coordenador do projeto GEF-Cantillana. O plano Conservação da Biodiversidade nos Altos de Cantillana 2005-2009 começou há dois anos, financiado pelo Estado chileno e pelo Fundo para o Meio Ambiente das Nações Unidas (GEF). Conta com orçamento de US$ 2,1 milhões, metade dos quais colocados pelo governo do Chile.

O programa é implementado através do Pnud e o órgão executor é a governamental Comissão Nacional do Meio Ambiente (Conama). Mas um de seus principais atores é o Comitê Diretor, formado pelos signatários do Acordo Público-Privado para a Conservação do Cordão do Cantillana, de 2005, ao qual aderiram 15 organismos públicos, cinco municípios e 13 proprietários privados. O projeto nasceu precisamente com produto do interesse em conservar a região, mas também para estimular a produção, expresso tanto pelo setor público quanto pelos atores privados.

Algumas das empresas instaladas na área são mineração Florida; divisão el Teniente da estatal Corporação Nacional do Cobre (Codelco); companhia chilena Agrosuper, maior produtora de carne do país, e diversas empresas agrícolas. Pelo acordo, os proprietários se comprometem a “elaborar os planos de manejo para suas respectivas propriedades e atividades” e a “colaborar na minimização dos danos sobre a diversidade biológica e fomentar a proteção e conservação do território com atividades econômicas sustentáveis”. As principais causas da perda de biodiversidade são desmatamento e pastoreio ilegal, extração de húmus e existência de lixões ilegais que contaminam a água.

Urejola criticou especialmente as más práticas no campo. “A agricultura baseada na tecnologia exerceu uma pressão sobre os montes. As vinhas e plantações de abacate estão subindo porque é possível irriga-los mais acima. Também preocupa o turismo e a recreação descontrolada, que podem contaminar o lugar e provocar incêndios”, afirmou. “O objetivo principal do projeto GEF-Cantillana é a conservação da biodiversidade da área, mas através de um modelo de gestão público-privado”, sintetizou seu coordenador. Hoje não existe um sistema de administração misto de áreas privadas.

“O que nos propusemos é extremamente inovador: armar uma institucionalidade público-privada, isto é, um sistema que tenha personalidade jurídica, orçamento e que ajude o desenvolvimento local”, disse Urrejola. “Hoje trabalhamos com 11 propriedades que cobrem, aproximadamente, 30% da área total e logo outras se somarão”, acrescentou. Nestes dois anos foram criadas as linhas de ação do projeto. A primeira é a preservação do lugar, que contempla a coleta de informação biológica e social junto com a identificação dos instrumentos formais e informais disponíveis para conservar uma área que não está na órbita do Estado.

A segunda linha de ação é a produção sustentável. “No comitê diretor estamos trabalhando com os grandes proprietários. Entretanto, a sustentabilidade dos produtos do projeto se verá nos nível comunitário e social. Por isso, estamos desenhando um programa de fomento produtivo para micro, pequenos e médios produtores agrícolas”, afirmou Urrejola. No caso da pequena comunidade de Alhué, de grande tradição agrícola e cultural, mas de baixo desenvolvimento humano, se pensou, por exemplo, em criar associações de pequenos e médios apicultores com a idéia de ganharem mercados graças a processos sustentáveis. Além disso, o município pretende conseguir autorização para desenvolver uma trilha turística em los Altos.

Em terceiro lugar, o plano de ação prevê “o fortalecimento da fiscalização, para tornar mais eficientes os recursos públicos destinado a esse item e envolver, em alguma etapa, os particulares, seja nos fluxos de informação ou no autocontrole”, afirmou Urrejola. A quarta linha de ação é a educação e a capacitação. Por fim, se contempla o ordenamento territorial. Urrejola explicou que no segundo semestre deste ano estas diretrizes serão implementadas e que em 2008 serão potencializadas. Em 2009 já deverá ser “auto-sustentável”, embora os resultados só serão vistos a longo prazo, ressaltou.

O consultor do Pnud disse que um dos aspectos mais complexos do projeto “foi identificar os verdadeiros interesses dos atores com os quais trabalhamos e aqueles com os quais não trabalhamos. Há proprietários que só querem conservar a biodiversidade, alguns preferem ajudar a comunidade e outros têm múltiplos interesses, desde pastagem do gado até fomento do turismo. Conhecer esses interesses, compatibilizá-los e agrupá-los em um sistema de gestão a longo prazo, sustentável, não é fácil”, disse Urrejola. Outro obstáculo foi chegar à comunidade. “Comprovamos que os municípios têm boa disposição, mas baixa capacidade financeira e técnica. Os municípios são chave nisto e fortalecer sua gestão é muito importante”, acrescentou.

Aquiles Miranda, gerente de gestão integrada de Mineração de Ouro Florida, que pertence à multinacional canadense Meridian Gold, disse à IPS que “uma das contribuições do Acordo Público-Privado foi realizar um zoneamento” da área, distinguindo entre setores de preservação, conservação, amortização e produção. “A Mineração Florida tem todas suas instalações e operações em uma zona de produção”, ressaltou Miranda, para quem o acordo só confirmou o conceito de mineração responsável da empresa. Em 2004, a firma começou a plantação de 17 hectares de palma chilena e nos próximos três anos espera plantar mais 60 mil árvores. A companhia participa ativamente do comitê diretor do projeto. “Cremos que é uma excelente instância de diálogo para conseguir acordos e enquadrar legalmente algumas das atividades realizadas na área”, disse Miranda, embora lamentando a lentidão com que o projeto avança. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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