Cuba: O país não parou com a saída de cena do Comandante

Havana, 01/08/2007 – Um ano depois do anúncio que mudou a vida de Cuba em apenas alguns minutos, esta ilha do Caribe parece seguir seu rumo por caminhos imprevistos e, com tantas vezes no passado, quebrando todas as apostas sobre o presente e o futuro do socialismo no país. Inexplicável para muitas pessoas no mundo, e às vezes também para algumas no próprio país, o sistema cubano enfrenta “sem cair” o bloqueio econômico dos Estados Unidos e suportou a “onda expansiva” do fim do Muro de Berlim, que no final de 1989 inaugurou a queda em cadeia do socialismo na Europa oriental.Com esse mesmo “mistério”, Cuba superou a aparente inércia que sucedeu ao anúncio, feito em 31 de julho de 2006, sobre a doença do presidente Fidel Castro, sua retirada “provisória” do poder e a designação temporária à frente do país de seu irmão e ministro das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), Raúl Castro. O que parecia impossível se tornou normal. Enquanto analistas estrangeiros insistem na questão do retorno ou não de Fidel ao poder, a população da ilha parece ter se adaptado rapidamente às novas funções do Comandante em Chefe, que desde seu novo posto de convalescente escreve artigos para o principal jornal cubano.

“Creio que apenas fora de Cuba se fala se Fidel voltará, ou não. Aqui, embora não se diga em voz alta, sabemos que será difícil ele retornar como antes. O importante é que o temos dando sua opinião sobre as coisas mais importantes, enquanto outros fazem o trabalho duro”, disse à IPS Raúl Díaz, um militar da reserva. Mais de 30 artigos ou crônicas o presidente cubano publicou desde a inauguração, em abril último, de seu espaço Reflexões do Comandante em chefe no jornal oficial Granma. Essa foi a forma que encontrou para manter-se ativo após a enfermidade intestinal que o colocou à beira da morte.

Para Rosendo Ruiz, vendedor de obras de arte em uma feira de artesanato, no país “tudo continua igual”. Por sua vez, Helena Alvarez, dona de um restaurante privado, garante que os inspetores a incomodaram menos nos últimos meses, mas se queixa da queda repentina do turismo e, por fim, de sua renda. A “tranqüilidade” com que diz estar trabalhando no pequeno setor privado pode ser um dos sinais de que, embora com muita cautela e sem grandes anúncios, algumas coisas estão mudando na ilha para bem de seus 11,2 milhões de habitantes e dentro do sistema social imperante.

A redução significativa das manifestações de massa, discursos curtos e diretos, respeito aos horários dos programas de televisão preferidos pela população, maiores espaços para a crítica nos meios de comunicação nacionais, são apenas sinais de um estilo de trabalho que a população começou a identificar com a figura de Raúl Castro. “Especulam sobre uma suposta paralisação do país e até sobre uma transição em marcha. Mas por mais que fechem os olhos, a realidade se encarrega de destruir esses sonhos inoportunos”, afirmou o presidente em exercício no ato do último dia 26 pelo Dia da Rebeldia Nacional.

Após reconhecer inumeráveis êxitos, Raúl Castro pediu “clara consciência de nossos problemas, das deficiências, erros e atitudes burocráticas ou indolentes”. Devemos “transformar conceitos e métodos que foram apropriados em seu momento, mas acabaram superados pela própria vida”, assegurou. “Nunca acreditarmos que o que fazemos é perfeito e não voltar a revisar”, reclamou o presidente em exercício. Raúl Castro assegurou, ainda, que se evitaria a tendência, tão comum no passado, de generalizar de maneira automática para todo o país uma experiência bem sucedida em uma localidade ou setor social.

Entre as medidas já aplicadas, sem grandes anúncios nem grande cobertura da imprensa, aparece o pagamento da dívida estatal ao setor camponês, o aumento dos preços que o Estado repassa aos produtores cooperativos e privados de alimentos e um novo mecanismo para que o leite chegue à população de forma mais eficiente. Como elementos-chave do momento atual, Raúl Castro citou a necessidade de aumentar a produção agropecuária e industrial, eliminar importações “sempre que for racional” e aproveitar as boas e más experiências do passado recente para fomentar o investimento estrangeiro que aporte capital, tecnologia ou mercado.

“Qualquer aumento de salário ou baixa de preços, para que seja real, só pode proceder de uma maior e mais eficiente produção ou prestação de serviços, que permita dispor de mais renda. Ninguém, nem um individuo nem um país, pode dar-se ao luxo de gastar mais do que tem”, disse Raúl Castro. Outros desafios aparecem nos setores da habitação, transporte, serviços à população e turismo, este último vítima da força do impacto das medidas financeiras aplicadas pelo governo em 2004, em resposta ao plano norte-americano para propiciar mudanças políticas em Cuba.

A penalização aplicada ao câmbio do dólar norte-americano encareceu o turismo em Cuba e afetou, primeiramente, amplos setores da população que recebem remessas de dinheiro de familiares radicados nos Estados Unidos ou que vivem de fornecer serviços diversos aos visitantes estrangeiros. Como enfrentar, no mais curto prazo possível, os efeitos de uma medida que como esta teve sobre a população e, também, reverter a dolarização, está entre os maiores desafios do governo interino em matéria econômica, segundo fontes especializadas consultadas pela IPS.

“ Também se impõe uma reanálise do trabalho por conta própria e do papel que pode ter a iniciativa privada, muito limitada até o momento, em alguns serviços à população que o Estado não pôde garantir eficientemente durante década”, afirmou um economista ouvido pela IPS. Outros temas pendentes seriam a abertura das instalações turísticas à população cubana e a flexibilização das regulamentações sobre migração que limitam as viagens ao exterior e o regresso livre ao país de cubanos que se radicaram no exterior, disse Soledad Cruz, jornalista do diário cubano Juventud Rebelde em um artigo divulgado no site kaosenlared.net.

Considerados apenas como “balão de oxigênio” por alguns observadores, os passos em matéria econômica são acompanhados de intenso debate intelectual sobre a política cultural da Revolução Cubana que, após seu momento de auge no início do ano, também tomou o ritmo da normalidade. Ao contrário do silêncio que cercou o tratamento de determinados assuntos, considerados sensíveis no passado, o país começa a abrir-se à análise pública de questões como a violência contra as mulheres, os direitos das minorias sexuais e a problemática de grupos que vivem em situação de vulnerabilidade.

“Problema que não se identifica é como se não existisse e, ao contrário, problema que é identificado corretamente já tem ele próprio uma parte da chave para sua solução”, disse à IPS o historiador Jesús Guanche, a propósito de um projeto de lei que inclui o reconhecimento de iguais direitos para casais homossexuais e heterossexuais.

Entretanto, setores da sociedade civil alertam para a necessidade da abertura de espaços para diálogo, que permitam maior participação da cidadania na política interna e no enfrentamento e na busca de solução para os mais diversos problemas sociais. “O futuro não está em nos fecharmos, mas em nos abrir, sem perder o essencial de nosso projeto”, disse à IPS o pastor batista Raimundo García, diretor-executivo do Centro Cristão de Reflexão e Diálogo que, a 150 quilômetros de Havana, promove a análise sobre temas como deveres humanos, reconciliação e resolução de conflitos. (IPS/Envolverde)

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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