EUA-Índia: Como aprendi a amar a bomba

Nações Unidas, 02/08/2007 – O acordo de cooperação nuclear entre Estados Unidos e Índia fez disparar comentários negativos de ativistas pela paz, especialistas em desarmamento e opositores ao uso dessa tecnologia para produzir energia. “O pacto estratégico entre Washington e Nova Délhi pode gerar uma corrida armamentista entre Índia, Paquistão e também China”, disse à IPS o diretor-executivo do Comitê de Advogados sobre Política Nuclear de Nova York, John Burroughs. O acordo também afeta as perspectivas de avançar no campo do desarmamento e da não-proliferação de armas atômicas, acrescentou.

O subsecretário-geral encarregado de assuntos de desarmamento da Organização das Nações Unidas, Jayantha Dhanapala, disse que o pacto “tem o perigoso potencial de iniciar uma corrida nuclear entre China, Índia e Paquistão de desastrosas conseqüências para a paz e o desenvolvimento econômico da Ásia”. O governo indiano, por outro lado, disse que o acordo não desestabilizaria a região nem desataria uma corrida armamentista. Segundo o assessor de Segurança Nacional da Índia, N. K. Narayanan, tampouco haverá um “pacto gêmeo” entre China e Paquistão. “Este acordo não é uma desculpa para aumentar nossa capacidade estratégica”, disse Narayanan à imprensa em Nova Délhi. Os Estados Unidos e a Índia chegaram a um entendimento para compartilhar tecnologia e combustíveis para centrais nucleares.

A nação asiática jamais assinou o Tratado de Não-proliferação de Armas Nucleares (TNP) e possui seu próprio arsenal atômico. Zia Mian, da Escola Woodrow Wilson de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, disse à IPS que Washington encontra no pacto benefícios estratégicos e econômicos. O governo norte-americano procura contrapor-se à crescente influência da China ao selar um tratado com um país que historicamente esteve em maus termos com o regime de Pequim, segundo Mian, entre outros analistas de política internacional. “Porém, a população da Índia e do Paquistão pagará o preço, pois o acordo vai desatar uma corrida armamentista atômica entre esses dois países”, acrescentou.

O tratado permite a Nova Délhi aumentar sua capacidade de produzir materiais que podem ser usados para a fabricação de armas atômicas. O Paquistão já anunciou que fará tudo ao seu alcance para não ficar para trás. Índia e Paquistão, que ao longo de suas vidas independentes se enfrentaram em várias guerras, fizeram em 1998 seus primeiros testes declarados com armas nucleares, cada um a seu tempo e com poucos dias de diferença. Ambos países, os mais povoados da Ásia meridional, se constituíram em 1947, com a retirada das autoridades coloniais britânicas da região. A maioria da população indiana professa a religião hindu e os paquistaneses a muçulmana.

O establishment nuclear entre as duas nações será mais poderoso, drenará recursos da área de desenvolvimento social” para dedicá-los à consolidação de seus arsenais “ e aumentará o perigo de um confronto atômico no Sudeste da Ásia”, disse Mian. O subsecretário de Estado norte-americano, Nicholas Burns, que esteve à frente das negociações, negou que o acordo com a Índia seja um exemplo de duplo discurso em seu governo, que propõe castigar o Irã por manter seu programa de desenvolvimento nuclear. “Este entendimento envia uma mensagem a regimes renegados, como o de Teerã, de que caso se comportem com responsabilidade não serão punidos”, disse Burns à imprensa na semana passada.

Para o governo de George W. Bush, o programa nuclear iraniano esconde ambições armamentistas. Além de Índia, Israel e Paquistão se negarem a assinar o TNP, Teerã, é seu signatário. O pacto entre Washington e Nova Délhi, chamado “Acordo 123”, permitirá à Índia instalar uma nova usina de enriquecimento de urânio com fins civis, fundamentalmente utilizando reatores e assessoramento procedentes dos Estados Unidos. Mas o próprio presidente Bush havia assinalado em 2004 que “países que procuram empregar a energia nuclear com fins pacíficos” não precisam aumentar sua “capacidade de enriquecimento e processamento” de material atômico.

“Os detalhes do Acordo 123 permanecem envoltos em mistério”, disse Dhanapala à IPS. “Mas segundo se soube, trata-se de um cru exemplo de realpolitik que pisoteia os princípios da não-proliferação ignorando totalmente o TNP”. Além disso, disse que se envia “um mau sinal à imensa maioria dos signatários do tratado que se atêm fielmente às obrigações do TNP”. Na semana passada, Burns declarou à imprensa que o acordo com a Índia incentivaria outros países a desenvolverem armas nucleares fora do contexto do TNP. Quando se negociou o tratado de não-proliferação, recordou Burroughs, a Índia disse claramente que não aceitaria um mundo dividido entre os que têm armas nucleares e os que não e, em conseqüência, se negou a assiná-lo.

“O problema do pacto entre Washington e Nova Délhi não é reconhecer que a Índia tem um arsenal atômico”, acrescentou Burroughs. “O ruim é que nem Índia nem Estados Unidos dão mostras de trabalhar para eliminar seus arsenais junto com outros Estados que possuem esse tipo de arma”. O tratado não exige da Índia suspender a produção de material nuclear próprio para fabricação de bombas, nem que deixe de construí-las com os componentes que já tem armazenado. “Em suma, deus-se à Nova Délhi o certificado de membro do clube dos possuidores de armas atômicas”, acrescentou.

Mian ressaltou que o pacto Washington-Nova Délhi é uma clara violação da resolução 1.172, aprovada pela unanimidade do Conselho de Segurança da ONU no dia 6 de junho de 1998, depois das detonações atômicas realizadas por Índia e Paquistão. Esta resolução exigia das duas potências da Ásia meridional “deter imediatamente os programas de desenvolvimento de armas nucleares”. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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