Líbano: Mulheres no trabalho de desativar minas

Tiro, 13/08/2007 – A perigosa tarefa de eliminar um milhão de bombas de fragmentação lançadas por Israel no sul do Líbano já não é tarefa apenas de homens. As mulheres integram, pela primeira vez, as equipes de desativação.

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“Os homens dominaram esta atividade, mas não há motivo para ser assim”, disse Christina Bennike, diretora da organização de beneficência dinamarquesa Dan Church Aid, dedicada a esse trabalho no sul deste país do Oriente Médio. “Senti que era importante enfrentar esta assunto desde o começo, depois será algo natural, não diferente nem único”, afirmou.

A organização dinamarquesa e a governamental Agência Sueca de Serviços de Resgate deram um passo importante ao contratarem homens e mulheres para o desafio de eliminar metro a metro as mortais bombas de fragmentação que foram lançadas em zonas de combate. Estes explosivos são feitos com dezenas ou centenas de submunição contidas em obuses, bombas ou foguetes. Lançados de aviões, da terra ou da água, explodem a determinada altura do solo espalhando esses fragmento sobre superfícies muito amplas. Entre 5% e 30% das submunições não explodem imediatamente, e ficam dispersas no solo ou enterradas e podem ser detonadas ao menor contato.

“Temos a primeira equipe mista do Líbano e funciona bem”, disse Bennike à IPS em entrevista por telefone. “Eles têm claro que estão aqui para realizar um trabalho: devolver a terra à sua gente”, afirmou. Bennike também contratou duas supervisoras da província servia de Kosovo para encabeçar as equipes mistas. A iniciativa não tem precedentes na tradicional comunidade dedicada a desativar minas terrestres. Estima-se que Israel lançou quatro milhões de bombas de fragmentação no sul do Líbano quando enfrentou combatentes da milícia libanesa Hezbolá (Partido de Deus), xiita e pró-Síria, em julho de 2006.

Calcula-se que cerca de um milhão de submunições não explodiram e ficaram espalhada em aldeias, jardins, estradas, campos e vales. “O que encontramos não tem precedente”, afirmou Tekimiti Gilbert, chefe de operações do Centro de Ação contra as Minas das Nações Unidas (Unmacc). Este órgão cuida de coordenar o desativação de minas no sul do Líbano. “Olhe onde as lançaram, em aldeias e perto de áreas habitadas. O Líbano meridional é do tamanho de um selo postal. Não dá para acreditar que essa quantidade de bombas esteja esparramada em uma área tão pequena”, ressaltou. As equipes de limpeza enviadas para esta zona já eliminaram mais de 120 mil bombas de fragmentação.

Muitos dos integrantes das equipes de busca pertencem a povoados que foram bombardeados durante o conflito de agosto de 2006. Neamat Khassab, de 22 anos, vivia na aldeia Siddiqine, perto de Qana, que foi destruída pelo bombardeio israelense. Khassab agora trabalha desativando pequenos explosivos em casas e jardins no centro da aldeia de Soultaniye. É a única mulher em sua equipe. Trabalha rápido e com segurança enquanto seu detector de metais amarelo vai de um lado para outro roçando o solo. “São como minha família”, diz rindo, enquanto aponta seus companheiros. “Quando comecei tinha um pouco de medo, mas depois de conhecê-los me senti em casa”, acrescentou.

O terreno e o clima são as variáveis mais exigentes para os desativadores de minas. Com o inverno chegam as chuvas que enterram as minas, e com a primavera os explosivos se misturam à vegetação florescente. O verão seca o solo e torna mais difícil desenterrar os pequenos explosivos. O calor é quase insuportável para essas pessoas que usam um jaleco e um capacete pesado. O risco de desidratação é seu pior inimigo. Estes trabalhadores enfrentam sérios perigos físicos.

As submunições podem estar enroscadas no alto dos arbustos das plantações de banana, azeitonas ou cítricos. As mordidas de cobras, aranhas ou escorpiões constituem um perigo real. Além disso, devem permanecer muito tempo concentrados durante sua jornada de trabalho porque a mínima distração pode ser perigosa. Para realizar seu trabalho recebem um mês de treinamento. “A presença de homens e mulheres nas equipes permite manter um equilíbrio”, disse Chris Fielding, encarregado de operações da Dan Church Aid. “As mulheres se desenvolvem tão bem quanto os homens, sem problemas”, acrescentou.

“Estas jovens podem carregar macas entre 100 e 200 metros, se for necessário. Recebem o mesmo treinamento que seus companheiros. Sujam o cabelo e as unhas e não fazem disso um problema”, afirmou Fielding. As mulheres devem suportar a pressão adicional de ter de desafiar os papéis tradicionais de gênero. Alguma delas abandonaram o trabalho pela pressão de suas famílias, preocupadas com o perigo da atividade. Outras não dizem o que fazem. Muitos homens que conheço acreditam que o lugar da mulher é em casa e na cozinha, afirmou Moussa Chaalan, noivo de uma médica de Dan Church Aid. Mas, “nem todos. A situação econômica faz com que tanto homens quanto mulheres precisem trabalhar”, disse.

O salário médio no sul do Líbano é de aproximadamente US$ 200 por mês, devido à lamentável situação econômica do país. As organizações dedicadas à retirada e desativação de submunições da zona pagam entre US$ 750 e 850, um valor substancialmente maior. “Muitas mulheres chegam por necessidade”, disse Christina Bennike. “Procurar minas é um trablaho para o qual não contam com apoio da família. É sua última alternativa, não uma opção natural”, explicou. “Nunca fiz um trabalho como este”, contou Batoul Milije, uma mãe divorciada que precisa manter seu filho de 12 anos. “Disse aos meus companheiros: sou como um homem, serei forte”, recordou Milije, que trabalha na zona pastoril de Soultaniye, onde no ano passado morreu um adolescente ao explodir uma mina. “Meu filo só tem a mim”, suspirou.

Houve poucos acidentes entre as equipes de desativação, que levam muito a sério as medidas de segurança. O último lugar com mulheres feridas foi em Kosovo. Duas delas perderam as pernas. “É um assunto que preocupa na hora de contratar mulheres”, disse Bennike. “A desvantagem é que o período de recuperação das mulheres feridas é muito mais lento e as conseqüências sociais são muito diferentes para uma mulher incapacitada, ou com algum membro amputado, do que para os homens”, explicou.

A condenação internacional às bombas de fragmentação teve um impulso este ano. A grande quantidade de minas espalhadas no Líbano foi um bom motivo apresentado para reclamar uma proibição total. O exército libanês pediu à Unmacc que permaneça mais tempo e continue coordenando a desativação até o final de 208. Será necessário todo esse tempo para limpar todas as aldeias, jardins e zonas agrícolas. (IPS/Envolverde)

Rebecca Murray

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