Estocolmo, 24/08/2007 – Falar de banheiro não é agradável para muita gente, e menos ainda em público. Mas é necessário. “A falta de disposição para discutir os serviços sanitários é uma das razões pelas quais cerca de 2,6 bilhões de pessoas, das quais 980 milhões são menores, carecem de um sistema de saneamento adequado”, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). “O saneamento é um problema sobre o qual é difícil falar e as pessoas o colocam debaixo do tapete”, disse, por sua vez, o ex-subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Sociais, José Antonio Ocampo Ocampo. O resultado “tem um impacto global desastroso sobre a saúde e o desenvolvimento social”, acrescentou.
A falta de saneamento, higiene e água potável cobra anualmente a vida de mais de 1,5 milhão de crianças menores de 5 anos, de acordo com o Unicef. A todo momento, a metade dos leitos hospitalares do mundo está ocupada por pacientes que sofrem enfermidades causadas por água contaminada, informa a Organização Mundial da Saúde. Um bebê da África subsaariana tem quase 520 mais possibilidades de morrer de diarréia do que um da Europa ou dos Estados Unidos. As Nações Unidas esperam que a falta de diálogo a esse respeito acabe em novembro, quando seu secretário-geral, Ban Ki-moon, lançar formalmente 2008 como o “Ano Internacional do Saneamento”, por decisão tomada pela Assembléia Geral em 2006.
A ONU procura ajudar as nações pobres a reduzir a extrema pobreza e a fome de maneira drástica até 2015, dentro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. As Nações Unidas esperam dar máxima prioridade a uma das metas mais esquecidas: melhorar os sistemas de saneamento. “O Ano Internacional do Saneamento contribuirá para concentrar a atenção nessa silenciosa crise humanitária”, disse Ocampo.
Um dos principais objetivos da iniciativa é “elevar de forma significativa a quantidade de pessoas com bom saneamento e práticas de higiene”, segundo a ONU. “Saneamento é uma palavra ruim em muitas culturas e não se fala de banheiro com as visitas. A medida pretende discutir o assunto deixando as vergonhas de lado”, segundo uma equipe que reúne várias agências das Nações Unidas. O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais está a cargo dessa equipe integrada por OMS, Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas (ONU-Habitat), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud).
O diretor-executivo do Instituto Internacional da Água, de Estocolmo, Anders Berntell, disse que saneamento, saúde, água e higiene são assuntos muito importantes. Berntell participou da conferência Semana Internacional da Água realizada este mês na capital sueca. “Bons sistemas de saneamento e higiene contribuem para erradicar a pobreza extrema e a fome, promover a educação primária universal e a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil e materna e garantir a sustentabilidade ambiental”, acrescentou, recordando os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Berntell afirmou que o saneamento é descrito como “o órfão” do setor hídrico, descuidado e sem que ninguém fale dele.
Mas o legislador e prefeito da cidade sul-coreana de Suwon, Sim Jae-Duck, não tem vergonha de falar em público de banheiros nem de saneamento. Sim também é presidente de um comitê da Associação Mundial de Banheiros que organiza uma conferência internacional marcada para Seul entre 21 e 25 de novembro. A conferência, que se concentrará em analisar os problemas de serviços higiênicos no mundo, vai coincidir com o lançamento do Ano Internacional do Saneamento, na sede da ONU em Nova York. Quase 60% da água consumida pelos humanos por dia são desperdiçados nos banheiros, afirmou Sim. “Um uso adequado do banheiro e da água nos permitirá conservá-la melhor e fornecer maior acesso a esse recurso não contaminado”, disse à IPS.
Na qualidade de prefeito de Swon, 40 quilômetros ao sul, Sim lançou o que chamou de “revolução do banheiro” na Coréia do Sul, e contribuiu para criar uma cadeia de banheiros públicos que não prejudicam o meio ambiente e são fáceis de usar. “Em Suwon se oferece ao público uma imagem dos banheiros do futuro”, afirmou. Neles é ativada uma música clássica suave graças a sensores de movimento instalados no teto. Além disso, os banheiros estão decorados com pinturas e flores vivas e contam com calefação baseada na energia solar. Pelo menos um deles oferece ao usuário uma vista panorâmica de um rio que corta a cidade.
Além disso está sendo elaborado um projeto para criar banheiros que se beneficiem das tecnologias da informação e se possa ouvir um serviço de notícias 24 horas por dia. “Como ocupam um lugar importante em nossa vida cotidiana, queremos criar um conceito de espaço cultural em nossos banheiros”, afirmou Sim. As pessoas passam, em média, mais de três anos de sua vida no banheiro, acrescentou. No gigantesco estádio dessa cidade sul-coreana que foi sede da Copa do Mundo de 2002 há muitos banheiros na forma de gigantescas bolas. Sim lembrou que os brasileiros que visitaram Suwon e foram várias vezes campeões mundiais de futebol, ficaram impressionados com os banheiros e pretendem copiar a experiência em seu País. (IPS/Envolverde)

