Finanças: A América Latina pode suportar o temporal

Santiago, 24/08/2007 – A América Latina está melhor preparada para enfrentar as atuais turbulências dos mercados financeiros internacionais, mas existem alguns riscos latentes, alerta a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. “A região se mostra menos vulnerável do que em etapas anteriores, devido a excedentes em conta corrente, amplas reservas internacionais, menor nível de endividamento externo, maior solidez fiscal e aplicação de políticas cambiarias mais flexíveis”, diz a Cepal em seu informe “Panorama da inserção internacional da América Latina e do Caribe 2007: tendências 2007”.

Neste ano as exportações dos países latino-americanos e caribenhos devem aumentar 13% em termos de valor e 5% em volume, enquanto as importações devem crescer 17% em valor e 6% em volume, segundo estimativas da Cepal. O crescimento nas exportações permitiria obter um superávit da balança comercial de US$ 56 bilhões, diz o documento. Isto se deve em grande parte aos bons preços dos produtos básicos, especialmente metais e combustíveis.

Entretanto, o documento de 226 páginas apresentado ontem na capital chilena pelo secretário-executivo da Cepal, o argentino José Luis Machinea, alerta que “riscos latentes” poderiam afetar este favorável cenário. Entre os riscos está “uma desaceleração mais forte dos Estados Unidos, derivada das dificuldades do setor imobiliário, maior volatilidade dos mercados financeiros”, novas ameaças no mercado do petróleo que poderiam repercutir em focos inflacionários e “a probabilidade de um ajuste desordenado dos desequilíbrios externos em nível mundial”.

“Neste mês de agosto os índices das bolsas mundiais sofreram retrocessos em muitos mercados, provocados pelos temores de contágio derivado da insolvência no mercado “subprime” dos Estados Unidos. Resta saber se essas baixas representam simplesmente um ajuste de preços ou desembocarão em um cenário de maior risco para a economia mundial”, diz o texto da Cepal. A expressão subprime, ou de menor grau, se refere aos empréstimos hipotecários concedidos a pessoas com baixa pontuação de crédito e que, portanto, pagam juros maiores que os encarecem e elevam o risco de morosidade. Neste cenário, a decisão de intervir dos bancos centrais do mundo desenvolvido reduz o risco, afirmou Machinea.

“Os países da região com uma dívida alta são os mais vulneráveis, mas o positivo é que têm vencimentos no curto prazo relativamente baixos. Se esta crise não durar muito, não será muito sentida. Se a situação se tornar mais estrutural, essas nações teriam algum problema”, disse Machinea à IPS. “No extremo de menor vulnerabilidade está o Chile, que quase não tem dívida e possui cerca de US$ 18 bilhões depositados no exterior, mas há alguns países onde a dívida equivale a mais de 50% do produto interno bruto”, explicou o economista.

“O Brasil reduziu sua dívida a pouco menos de 50% do PIB, mas na Argentina continua sendo de 70% e no Uruguai mais de 60% do produto interno bruto”, ressaltou Machinea. “O Chile tem uma política fiscal contracíclica, de redução do endividamento, por isso é o país que está mais forte. O caso do Peru também é importante porque foi capaz de ir diminuindo sua dívida, fortalecendo as finanças públicas e ao mesmo tempo mantendo o panorama competitivo, o que não é uma tarefa simples”, acrescenta o informe. O documento também dedica capítulos à importância atual da região Ásia-Pacífico e à urgência de uma maior integração latino-americana. Machinea disse que a Ásia-Pacífico já representa entre 20% e 37% do PIB mundial, seja medindo em moeda corrente ou em paridade de poder aquisitivo. Também é a fonte de 25% do comércio global e o destino de 18% do investimento estrangeiro direto.

A Cepal convidou os países da região a avançarem em uma estratégia mais pró-ativa de inserção com Ásia-Pacífico, através de uma presença maior nos diversos segmentos da cadeia de valor associada ao recurso natural, vinculando mais estreitamente comércio com investimento. “É importante revalorizar os recursos naturais, promovendo contatos de longo prazo, acordos de investimento, alianças tecnológicas neste setor, bem como a formação de conglomerados (clusters) estratégicos na Ásia-Pacífico entre países, empresas e determinadas zonas geográficas”, diz o texto.

Um aspecto central nesta matéria é o processo da integração latino-americana, que segundo o informe “está em evolução”, de onde podem surgir “iniciativas plurinacionais”. Neste sentido, Machinea disse que vê “mais conversações do que ações concretas”, embora “haja maiôs coincidência para abordar as assimetrias e os aspectos sociais da integração”. Neste contexto, a União de Nações Sul-americanas aparece como um mecanismo de convergência de acordos comerciais entre as economias latino-americanas.

No documento são detalhadas as recomendações que a Cepal faz às propostas de convergências apresentadas por um estudo preparado em 2006 pelas secretarias da Comunidade Andina de Nações (CAN), Mercosul e Associação Latino-americana de Integração (Aladi). As propostas das secretarias são em matéria de tarifas alfandegárias, normas de origem, salvaguardas, medidas sanitárias e fitosanitárias, investimentos e solução de controvérsias, entre outras.

O estudo sugere acelerar a redução alfandegária, harmonizar as normas de origem manter as disposições nacionais de defesa comercial de conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio e ter dois mecanismos de salvaguarda: um geral e outro aplicável a um grupo reduzido de produtos. A Cepal, por sua vez, apóia a aceleração da redução alfandegária e é a favor de eliminar as medidas antidumping no comércio intrazona em relação a produtos originários e manter direitos compensatórios em casos de subvenções. Também estima que devem ser eliminadas as salvaguardas no comércio intracomunitário e mantido o mecanismo durante o periíodo de transição. Além disso, Machinea destacou que se pode avançar mais rapidamente no “acúmulo de origem” do que na harmonização das normas de origem.

“Se tivéssemos acúmulo de origem entre todos os acordos intra América do Sul significaria que um exportador peruano poderia usar insumos argentinos para vender à Colômbia e manter as preferências. Hoje isso não é possível porque existem acordos bilaterais”, explicou à IPS Osvaldo Rosales, diretor da divisão de comércio internacional e integração da Cepal. “A triangulaçao, a utilização de insumos de toda a região não é possível, o que é impedimento para a formação de cadeias de valor integradas, cadeias sul-americanas que permitam competir no mundo global”, concluiu Rosales. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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