Israel-Síria: Preparativos bélicos e discurso pacifista

Jerusalém, 24/08/2007 – Os governos de Israel e da Síria se dedicam nos últimos dias a assegurar que não têm intenções de iniciar uma guerra. Então, a pergunta surge automaticamente. Por que recrudesce a tensão entre os dois países? Por que os dirigentes israelenses estão tão preocupados com a possibilidade de uma guerra com seu vizinho setentrional? O que os preocupa é o enorme programa de apetrechos armamentistas da Síria, os preparativos militares desse país e a noção de que, embora nenhuma das partes queira a guerra, um erro de cálculo pode levar a uma.

“Israel não está interessado em uma guerra com a Síria, mas estamos nos preparando para qualquer eventualidade”, disse o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, ao visitar o comando setentrional do exército. O vice-presidente sírio, Faroukh a-Shara, disse que Damasco “não iniciará a guerra”, acrescentando que “as pessoas nas ruas da Síria não querem a guerra, embora não aceitem nada menos que uma retirada israelense das ocupadas colinas de Golan”. A tensão se agravou, em parte, pelos exercícios de treinamento que o exército israelense realiza nas colinas de Golan, dentro de seus esforços para reabilitar essa força depois da guerra no Líbano, há um ano.

Israel se preocupa com o rearmamento da Síria, particularmente com armas avançadas de fabricação russa, como mísseis antiaéreos e anti-tanques. Alguns foram comprados com fundos iranianos, embora muitos dos embarques ainda não tenham chegado ao país árabe. A imprensa russa informou que a entrega dos mísseis antiaéreos faz parte de um tratado de armas no valor de US$ 900 milhões. O sistema de mísseis é conhecido como Pantsyr S1 e se compõe de armas antiaéreas de curto alcance, que podem ser montadas na parte traseira de veículos. O que causa preocupação em círculos de defesa de Israel é que estes mísseis possam acabar no Líbano, nas mãos do movimento xiita pró-sírio e pró-iraniano Hezbolá, que opera no sul desse país e com o qual se enfrentou na guerra de julho e agosto do ano passado.

Os sírios também constroem fortificações de defesa no limite com Golan. Segundo a imprensa israelense, a Síria instalou 200 de seus mais avançados mísseis terra-ar perto de sua fronteira com Israel. Funcionários israelenses da área da defesa também tentam ler o que vêem com sinais conflitivos emitidos pelo presidente sírio, Bashar Al-Assad. Nos últimos meses, Assad emitiu gestos de paz para Israel, dizendo que está pronto para regressar à mesa de negociações. Mas estas declarações foram combinadas com advertências de “resistência”, junto com o Hezbolá.

Outro assunto que inquieta Israel é que, se voltar a estourar um conflito armado com o Hezbolá, a Síria pode realizar uma ação militar limitada para recuperar parte das Colinas de Golan e forçar o governo israelense a sentar-se à mesa de negociações. Israel capturou a estratégica cadeia montanhosa da Síria durante a Guerra dos Seis Dias (1967), e desde então Damasco reclama a devolução como preço para a paz com o Estado judeu. A última vez que as duas partes se sentaram para negociar foi em 2000, quando o então primeiro-ministro israelense Ehud Barak (1999-2001) se reuniu com Farouk a-Shara nos Estados Unidos. Mas as conversações fracassaram e nunca foram retomadas.

Embora a Síria reclame a devolução de Golan em troca da paz, Israel diz que para abrir mão dessa zona estratégica deverão ser implementados rígidos acordos de segurança que incluam uma zona desmilitarizada do lado sírio da fronteira. Israel Possi um centro de observação muito avançado no monte Hermon, o ponto mais alto de Golan, e que no Estado judeu é chamado de “os olhos do país”. Dali, Israel pode ter um panorama profundo do território sírio. Dirigentes e altos funcionários militares israelenses vêm se reunindo semanalmente para avaliar as intenções sírias.

“A Síria não está planejando iniciar uma guerra, mas o cenário de um possível erro de cálculo ainda é relevante”, disse há pouco o major-general Amos Yadlin, chefe de inteligência militar de Israel, segundo a imprensa. Ehud Barak, agora ministro da Defesa, também tentou acalmar as preocupações sírias em torno do treinamento militar israelense nas colinas de Golan dizendo que as manobras são parte de um esforço para garantir que Israel está preparado depois da guerra no Líbano. “Israel não está interessado em uma guerra com a Síria, e cremos que este país tampouco quer uma guerra”, afirmou Barak, em uma tentativa de apaziguar as crescentes tensões. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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