Washington, 27/08/2007 – – No dia 15 de setembro vencerá o prazo para que o governo do presidente George W. Bush envie um informe ao Congresso defendendo sua estratégia denominada “surge” (embate) no Iraque, que implicou o envio adicional de mais de 30 mil soldados a esse país.
Com de costume, a administração contou para isto com ajuda de seus amigos nos mais importantes meios de comunicação. O mais recente “embate de informação” através das principais redes de notícias teve origem na pena dos analistas Michael O’Hanlon e Kenneth Pollack, dois autodeclarados críticos do “miserável manejo da guerra no Iraque”, que em um artigo publicado pelo jornal The New York Times em 30 de julho, sob o título “Uma guerra que podemos ganhar”, disseram que as forças de ocupação “finalmente estão chegando a alguma parte, pelo menos em termos militares”.
Ambos tiveram a cautela de não reconhecer uma possível “vitória no Iraque”, frase que, junto com “manter o curso”, foi recentemente omitida dos discursos de Bush. Porém, assinalaram que queriam elevar a moral dos soldados norte-americanos, surpreendidos pelo que consideraram avanços na estratégia “embate” e animá-los em seu potencial para produzir uma “estabilidade sustentável”. O’Hanlon e Pollack afirmaram que “há muitas coisas boas ocorrendo nos campos de batalha iraquianos, por isso o Congresso deveria manter o esforço pelo menos até 2008”.
Com este artigo, O’Hanlon e Pollack deram início a um embate de informação que poderia garantir cobertura política ao governo Bush para continuar com sua tática no Iraque. Os principais meios jornalísticos aderiram à campanha destacando que os outrora críticos da estratégia militar reconheciam certos avanços, mas, ignorando que tanto O’Hanlon quanto Pollack foram em um começo formes defensores da guerra. Em uma entrevista no dia 30 de julho para a rede CNN, a jornalista Heidi Collins descreveu Pollack como um opositor à guerra que, se baseando em uma visita de oito dias o Iraque, havia mudado de opinião.
“Você é um autoproclamado crítico da forma como a administração Bush maneja esta guerra. Você escreveu um livro sobre a situação no Iraque e compartilhou seus pensamentos com jornais e canais de televisão, mas parece que está mudando o tom um pouco”, disse Collins. O’Hanlon e Pollack foram apresentados da mesma maneira nos dias seguintes em entrevistas para os principais canais de televisão dos Estados Unidos. Como disse a Média Matters, organização que acompanha a atuação da mídia, na edição de 30 de julho do programa informativo CBS Evening News, o correspondente para assuntos de segurança, David Martin, incorretamente descreveu O’Hanlon como um “crítico” da guerra no Iraque “que costumava pensar que o ‘embate’ acontece muito tarde, mas que agora afirma que deve continuar”.
A estratégia do “embate”, que determinou o envio adicional de 30 mil soldados para juntarem-se aos 130 mil que já estavam no Iraque, foi anunciada por Bush no começo de janeiro e lançada oficialmente no mês seguinte sob a direção do general David Petraeus. A estratégia foi planejada para conter a crescente violência sectária em Bagdá e frear uma guerra civil em grande escala. “De fato, embora O’Hanlon tenha criticado a forma como Bush maneja a guerra no Iraque, apoiou a invasão e disse em uma coluna publicada em janeiro que o aumento de tropas era algo incorreto”, afirmou Media Matters.
No dia seguinte à publicação do artigo de O’Hanlon e Pollack, o vice-presidente, Dick Cheney, apareceu no programa do jornalista Larry King, na CNN, enaltecendo as opiniões dos analistas e destacando que estas foram divulgadas pelo The New York Times, “não exatamente uma publicação amiga” do governo. “Ambos foram duros críticos da guerra, e ambos trabalharam no governo anterior. Mas agora dizem pensar que existe uma possibilidade de termos êxito” no Iraque, afirmou Cheney a King.
Curiosamente, em 2002, o governo Bush deu a informação falsa ao The New York Times sobre a suposta presença de armas nucleares no Iraque, e o vice-presidente citou depois o artigo em uma entrevista posterior como parte de uma estratégia semelhante para defender sua política nesse país do Oriente Médio através dos meios de comunicação. As organizações que acompanham a atuação da mídia não deixaram de constatar as contradições das opiniões de O’Hanlon e Pollack, divulgadas por CNN, Fox ABC e CBS. “No que se refere a enganos e propaganda, é difícil recordar algo tão descarado e claramente falso”, escreveu Glenn Greenwald, do site Salon.com. “Ver como estes dois amantes da guerra, partidários da invasão, defensores do ‘embate’, camaradas de Fred Kagan, eram bobamente apresentados pela mídia como sendo exatamente o contrário do que são foi algo alarmante”, afirmou Greenwald.
Kagan, um dos arquitetos da estratégia ‘embate’, acompanhou o analista neoconservador Bill Kristol durante uma viagem pelo Iraque, que concluiu com uma avaliação de elogio aos esforços militares dos Estados Unidos. Em uma entrevista com Greenwald, O’Hablon reconheceu que não era exatamente um crítico da administração Bush, como foi descrito em numerosas aparições na televisão. “Está certo me perguntar se é adequado me caracterizar como um crítico da guerra, como fui chamado pelo vice-presidente Cheney. De fato, eu não usaria essa caracterização”, afirmou. (IPS/Envolverde)


