Colômbia: Água, um direito de todos

Bogotá, 27/08/2007 – Sessenta organizações ambientais, indígenas, sociais e sindicais da Colômbia realizam uma campanha para que o acesso à água potável seja incorporado como um direito fundamental na Constituição do país. Os promotores da iniciativa já cumpriram o primeiro requisito legal, que consistiu na coleta de aproximadamente 135 mil assinaturas, cinco por mil do total dos eleitores aptos a votar, mas agora enfrentam um desafio maior. Após o organismo estatal de Registro Nacional do Estado Civil certificar a validade das assinaturas, as entidades não-governamentais deverão conseguir o apoio de 1,5 milhão de cidadãos. Nesse caso, o Congresso aprovará um projeto de reforma constitucional e convocará um referendo nacional para que o povo adote ou rejeite a proposta.

Como parte da iniciativa foi feita uma travessia pelo rio Magdalena, que terminou sexta-feira no porto de Girardot, 133 quilômetros a sudoeste de Bogotá, na província central de Cundinamarca. Ironicamente, a campanha para garantir o acesso a água acontece em um país que ocupa o segundo lugar quanto à disponibilidade de recursos hídricos na América Latina e o sétimo no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Nesta nação de 42 milhões de habitantes, cerca de 12 milhões carece de água potável e quatro milhões têm dificuldades para obtê-la, mesmo em condições de insalubridade, segundo dados da estatal Defensoria do Povo.

O governamental Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (Ideam) prevê, por sua vez, que 69% da população pode sofrer escassez de água em 2025. As entidades que promovem a reforma constitucional indicam que a privatização do serviço de fornecimento de água, autorizada por lei em 1993, como uma das causas do problema. “De 349 empresas existentes no país, 141 são privadas e 24 de economia mista”, segundo dados da organização não-governamental Censat-Água Viva. Um de seus pesquisadores, Danilo Urrea, disse à IPS que “a privatização aumentou de maneira considerável o custo do serviço, e a concessão a operadores privados também gerou escândalos e corrupção”.

À privatização das empresas soma-se a intenção de estabelecer uma cobrança de pedágio para a navegação no rio Grande de la Magdalena, no trecho de acesso ao porto da caribenha Barranquilla,onde chega após percorrer 1.540 quilômetros. O rio nasce no Maciço Colombiano no extremo sudeste do país, atravessa 18 das 22 províncias e 700 localidades ribeirinhas. Na década de 70, o Magdalena fornecia cerca de 70 mil toneladas de pescado por ano. Nos anos 80 esse total caiu para 40 mil, diminuindo novamente para 20 mil na década de 90, e atualmente não passa das oito mil toneladas.

Este problema também figura da agenda dos promotores da campanha. “Não se pode acabar com as empresas oficiais argumentando que o Estado é corrupto. É preciso conseguir a recuperação e transformação do manejo de água em benefício da população em geral”, disse Urrea. A primeira jornada de coleta de assinaturas em apoio à reforma constitucional aconteceu em 1º de maio, durante a celebração do Dia dos Trabalhadores, em diferentes cidades do país. Durante os dois meses seguintes foram realizadas diversas ações, movidas principalmente pelos jovens.

Este mês, durante o Primeiro Fórum pela Água e pela Vida no Caribe, realizado em Barranquilla, teve início a travessia do Magdalena que concluiu sexta-feira em Girardot. Este porto é um ponto nevrálgico, pois o rio Grande de la Magdalena recebe nessa cidade um dos afluentes mais contaminados do país, o Bogotá, que nasce na província de Boyacá. Nele são despejados resíduos químicos provenientes em boa parte da indústria do coutro e da floricultura.

Esta primeira etapa da campanha terminará com uma “avaliação positiva”, disse Urrea. “Se não conseguirmos a convocação do referendo, conseguimos realizar um trabalho de sensibilização das comunidades ribeirinhas, parte de nosso grande objetivo. E, naturalmente, continuaremos nos empenhando”, acrescentou. O ministro de Meio Ambiente, Desenvolvimento e Habitação Territorial, Juan Lozano, afirmou em um debate na televisão que dará prioridade à conservação do Maciço Colombiano e à recuperação dos recursos hídricos. ‘Está em nossa perspectiva manter o serviço público, tanto quanto a preservação do meio ambiente”, garantiu Lozano. (IPS/Envolverde)

Helda Martínez

Helda Martínez escribe para IPS desde Colombia, en especial sobre desarrollo y sociedad. Se graduó en 1981 como comunicadora social y periodista. Ese mismo año obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar en la categoría Mejor Trabajo Social, modalidad radio. Trabajó para medios de comunicación masivos de su país, como el periódico El Espectador y la radio Todelar. También se desempeñó como investigadora y redactora de varias publicaciones. Entre ellas se destacan "La guerra: Una amenaza para la libertad de información", editado por Medios para la Paz en 2002; "Prensa, conflicto armado y región. Aprendizajes del diplomado - Periodismo responsable en el conflicto armado" - Medios para la Paz, 2006; "Colombia y las Sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos" - IIDH, 2010.

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