Mundo: Imigrantes africanos encontram a morte no Mediterrâneo

Itália, 29/08/2007 – Em uma semana como qualquer outra, chegaram à Lampedusa, pequena ilha italiana do mar Mediterrâneo, 439 imigrantes sem documentos, incluindo um bebê de 15 dias, em velhas lanchas a motor. Também apareceram 20 corpos boiando, vítimas de naufrágio. O verão no hemisfério norte é uma temporada “quente” de fluxo de imigrantes para a Itália. Cerca de 2.300 chegaram entre julho e agosto, segundo a seção italiana da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que presta os primeiros auxílios no porto de Lampedusa. Somente 113 quilômetros separam a costa tunisina de Lampedusa, agora porta de entrada para a Itália e a Europa para milhares de pessoas que fogem da guerra e da pobreza.

“As pessoas chegam transtornadas”, disse à IPS Antonio Virgilio, da MSF. “Costumam viajar vários dias sem comida nem água. É uma travessia trágica, sobretudo para as mulheres e crianças”. Os imigrantes procedem da África subsaariana, África ocidental, Eritréia, Etiópia, Nigéria ou Sudão. A maioria começa sua travessia na Líbia e no Marrocos. Lampedusa, ilha de 20 quilômetros quadrados que conta com 12 praias, tem 5.500 moradores permanentes, mas recebe mais de 50 mil turistas no verão. Os imigrantes ilegais são levados a um centro de detenção perto do aeroporto para não terem contato com ninguém.

O centro pode abrigar cerca de 190 pessoas. Em julho havia mais de mil ao mesmo tempo e surgiu uma epidemia de diarréia, com febres altíssimas. A Médicos Sem Fronteiras já alertava em 2004 sobre as violações de direitos humanos contra os solicitantes de asilo em Lampedusa e para as condições inadequadas da infra-estrutura que os abriga. Devido a esse informe, a organização não teve mais permissão das autoridades para visitar o centro de detenção, mas seus médicos voluntários continuam prestando serviço no cais. Depois, o centro se converteu em um complexo de “recepção e primeiros auxílios”.

Agora os imigrantes permanecem nesse local de 48 a 72 horas, antes de serem transferidos para território continental italiano, e não mais entre 30 e 60 dias, como antes. Mas as condições para os que chegam em lanchas e sem documentos continuam dífíceis. A pressão exercida pela MSF e outras organizações levou à decisão de fechar esse centro. Logo será aberto outro, com capacidade para 700 pessoas. As novas instalações contarão com uma recepção mais adequada e serão oferecidos cuidados médicos. “Pedimos à Itália que disponha medidas de recepção dignas de um país democrático”, disse Virgilio. “Médicos Sem Fronteiras irá a Lampedusa somente quando o sistema de saúde pública começar a fornecer assistência médica a essa gente”, ressaltou.

A MSF assinou este mês um acordo de cooperação com o sistema estatal de saúde pública para trabalhar no centro de detenção. “Em comparação com o ano passado, chega menos gente e há mais mortes”, disse Virgilio. “Houve mudança no meio de transporte utilizado: agora são embarcações menores que podem fugir facilmente dos controles. Mas também são mais inseguras”. Em julho, 79 pessoas morreram afogadas no estreito de Sicília quando tentavam chegar até Lampedusa ou outro ponto da costa siciliana, segundo Fortress Europe, site dedicado às vítimas da imigração clandestina que pública um informe mensal com o número de falecidos nas costas européias.

É paradoxal que uma das propagandas em um site de promoção do turismo convide os viajante a irem a Lampedusa para “desfrutar do mar, mais do que qualquer coisa”. O mar Mediterrâneo “é cada vez mais um mar de corpos. Apenas os delinqüentes podem organizar esse tipo de viagem”, afirmou o ministro do Interior, Giuliano Amato, após a última tragédia. “Mas também nós, os governos, vamos acabar com grande parte da responsabilidade se não tomarmos medidas e acertamos acordos para um controle mais eficaz e melhor patrulhamento nos pontos de partida”, destacou o ministro. “Para a Itália e os países da União Européia é prioritário rechaçar (os imigrantes) recorrendo a instrumentos militares e não lhes dar as boas-vindas”, afirmou Virgilio. A UE destinou no ano passado 11 milhões de euros (US$ 15 milhões) para um programa chamado Frontex a fim de devolver os imigrantes ilegais aos seus países de origem. (IPS/Envolverde)

Stefania Milan

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