Nações Unidas, 03/09/2007 – A paz na região sudanesa de Darfur parece mais distante do que nunca, apesar de o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, se envolver pessoalmente nesta semana viajando a Cartum. A visita coincide com uma intensificação dos esforços internacionais para resolver o sangrento conflito, que já dura quatro anos. Enquanto Ban prepara sua primeira viagem ao Sudão, de hoje até quinta-feira, o ânimo em Cartum continua sendo desafiador, segundo as mais recentes declarações oficiais. Há poucos sinais de disposição do governo do Sudão para cooperar com a comunidade internacional.
Ban Ki-moon disse estar “profundamente preocupado” pelo assassinato de várias centenas de pessoas no começo do mês passado. Os incidentes violentos incluíram um ataque contra uma delegacia policial e ataques aéreos contra aldeias do sul de Darfur. Em resposta a essas declarações, o regime sudanês assegurou que Ban se baseava em “notícias fabricadas”. O governo do Sudão rechaçou categoricamente informes sobre operações militares continuadas em Darfur. “Estas acusações são falsas e estão fundamentadas em informação inventada de organizações e agências com uma agenda política. O governo não teve nenhuma atividade militar recentemente e o exército sudanês não atua em Darfur”, afirmou à imprensa o porta-voz da chancelaria, Ali al-Sadek.
Inicialmente, o governo sudanês negou-se a aceitar o envio de capacetes azuis na região decidido pelo Conselho de Segurança da ONU, mas acabou cedendo devido à pressão internacional à criação de uma “força híbrida”. O contingente reunirá cerca de 26 mil soldados das Nações Unidas e da União Africana. A Escalada da violência e a atividade de militares sudaneses em Darfur “são fatos estabelecidos” e “nos atemos à nossa informação”, disse Yves Sorokobi, porta-voz Ban.
A organização Anistia Internacional divulgou na semana passada fotos ilustrando o contínuo deslocamento de equipamento militar do exército sudanês em Darfur, apesar do embargo de armas por parte da ONU e dos acordos de paz. “Um embargo é efetivo somente se ao ser infringido existem conseqüências”, disse Larry Cox, diretor-executivo da filial norte-americana da Anistia. “O Conselho de Segurança deve aplicar este embargo com força e imediatamente”, acrescentou. Os problemas de Darfur, reino independente anexado pelo Sudão em 1917, começaram na década de 70 como uma disputa pelas terras de pastoreio entre nômades árabes e agricultores indígenas negros, ambos muçulmanos.
A crise derivou em uma guerra civil em fevereiro de 2003, quando guerrilheiros negros responderam com violência às hostilidades das milícias árabes Janjaweed (homens à cavalo), que se presume são apoiadas por Cartum. Os Janjaweed e o regime sudanês são acusados de implementar uma campanha de limpeza étnica contra três tribos negras que apóiam os dois grupos guerrilheiros. A ONU calcula em cerca de 400 mil mortes e 2,5 milhões de refugiados o resultado do conflito, que também deixou mais de 3,5 milhões de homens, mulheres e crianças lutando pela sobrevivência em meio à violência e à fome.
Informes procedentes dessa região sugerem que, além de civis, muitos trabalhadores humanitários são vítimas de ataques violentos por parte das milícias desde setembro de 2006, quando o Conselho de Segurança decidiu pela primeira vez pelo envio de 20 mil soldados da ONU à região. “Quero ver pessoalmente as muito difíceis condições” em que irá operar em Darfur a força de paz, afirmou Ban. O objetivo da visita, acrescentou, “é destacar o acordo de paz e avançar em várias áreas relacionadas com Darfur: a força híbrida, o processo político, o acesso humanitário e o desenvolvimento de fontes de água”.
Em meio a renovados apelos a um rápido envio de tropas, organizações da sociedade civil envolvidas com a situação de Darfur aplaudiram esta visita de Ban Ki-moon ao Sudão, embora poucos acreditem que um diálogo como regime de Omar al-Bashir dê frutos. A visita constitui uma pressão sobre o governo, disse à IPS Marie Clark Brill, da organização norte-americana Africa Action, “mas agora é tempo de implementar recursos financeiros e logísticos”, acrescentou.
Africa Action reclama o envio imediato de tropas internacionais a Darfur. “A operação de manutenção da paz deveria ter sido implementada muito antes”, disse Brill, que dúvida das promessas de cooperação com a comunidade mundial feitas pelo Sudão. “Os acordos alcançados até agora são tão frágeis quanto promissores. Manter a atenção em Darfur é a melhor maneira de fazer o governo sudanês cumprir as promessas que fez’, disse à IPS Scott Paul, da organização norte-americana Citizens for Global Solutions.
Nos Estados Unidos, muitas organizações também consideram que a China deveria desempenhar um papel crítico na hora de por fim à carnificina em Darfur. Porém, este país se mantém à margem. Pequim compra 70% do petróleo do Sudão e tem, pelo menos, US$ 3 bilhões investidos no setor energético do Sudão, bem como quase US$ 57 milhões em peças de reposição e equipamentos para aviões. Nos últimos anos, desde a ONU surgiram ameaças de sanções economias contra o governo sudanês, mas tanto China quanto Rússia rechaçaram essa possibilidade no Conselho de Segurança, órgão em que ambos possuem direito a veto.
Entretanto, no começo de agosto, Pequim e Moscou somaram-se à proposta das Nações Unidas e de outros países para enviar uma força de 26 mil soldados a Darfur. Observadores atribuíram o aval chinês, pelo menos em parte, à pressão exercida por ativistas que apontaram em suas campanhas para a imagem do país asiático às vésperas dos Jogos Olímpicos do próximo ano, que acontecerão na capital chinesa. Funcionários da ONU afirmam que o envio da força de paz ainda vai demorar vários meses. Enquanto a população de Darfur espera a chegada das tropas, é provável que aldeões e trabalhadores humanitários sofram ataques armados por parte das milícias. (IPS/Envolverde)

