Saúde: Pesquisa choca-se com conhecimentos tradicionais

Toronto, 13/09/2007 – As novas tecnologias médicas chocam-se nos países do Sul com obstáculos éticos, sociais e culturais, e não tanto financeiros, afirmam especialistas. Entre os fatores de rejeição estão atitudes do público e da comunidade, culturais e de gênero, segundo um exaustivo informe para o qual foram ouvidos especialistas sanitários do Sul e que foi publicado na revista eletrônica norte-americana da Internet PLoS Medicine. A falta de contato com os grupos sociais mais afetados pela aids pôs fim a testes clínicos do antiviral tenofovir no Camboja, Camarões e Nigéria. Os trabalhadores sexuais, por exemplo, não foram consultados adequadamente, nem tampouco se previa beneficiá-los com os testes.

“Essas provas contavam com investimento superior a US$ 100 milhões e nunca foram completadas”, afirmou um dos autores do estudo, Jim Lavery, cientista do Centre for Research on Inner City Health e do Centre for global Health Research, do Hospital St. Michael, em Toronto. Também houve enfrentamentos entre os promotores dos testes e os governos, porque havia trabalhadores sexuais envolvidos, afirmou Lavery à IPS. “Este fracasso revelou a complexidade de se avançar nas pesquisas médicas, apesar de ter sido de maneira bem intencionada”, acrescentou.

Lavery também reconheceu uma percepção cada vez maior de que os testes com medicamentos e outras pesquisas médicas desenvolvidas no Sul apenas beneficiarão a população do Norte industrializado. “Nós podemos eliminar essa percepção mudando a realidade, ao compartilhar os benefícios dessa pesquisa com as comunidades locais”, acrescentou. O informe, intitulado “Questões éticas, sociais e culturais baseadas na perspectiva de informantes-chave”, é o primeiro a dar conselhos sobre estes assuntos ao mundo em desenvolvimento, segundo outro co-autor do estudo Jerome Singh, do Centro para o Programa de Pesquisa da Aids na África do Sul, da cidade de Durban.

O estudo foi feito por uma equipe internacional de especialistas em bioética do Centro McLaughlin-Rotman para a Saúde Global em Toronto, com apoio de Grand Challenges in Global Health, iniciativa apoiada pela Fundação Bill e Melinda Gates. Gran Challenges conta com US$ 450 milhões para apoiar avanços científicos contra doenças que matam milhões de pessoas por ano nos países mais pobres.

“Simultaneamente ao rápido crescimento da pesquisa científica nos países em desenvolvimento há mais informes de projetos que enfrentam desafios relacionados com preocupações éticas, culturais e sociais”, afirmou Peter Singer, cientista do Centro McLaughlin-Rothman e também co-autor do informe. “Nosso objetivo foi antecipar fatores que possam servir de barreira para tais programas e tentar impedir isso na medida que avança este importante trabalho”, disse Singer à IPS.

Especialistas dos países pobres, ao serem questionados, enfatizaram a necessidade de os pesquisadores abrirem oportunidades para escutar e compreender as preocupações e os interesses das comunidades onde trabalham. “A comunidade deve ser dona de qualquer programa cuja sustentabilidade se pretenda”, disse Dara Amar, professor do St. John’s Medical College, da Índia. Ao mesmo tempo, o uso ou não de novos tratamentos por parte dos que precisam deles para se tratar sofre influência de fatores culturais relacionados com a religião, história, gênero e práticas sexuais, como o uso de anticoncepcionais, bem como pela existência de uma “cultura da ciência”.

“Cada tecnologia é vista primeiro em termos de eventual destruidora da cultura” da comunidade onde é aplicada, diz no informe o especialista queniano Calestous Juma, diretor do Programa sobre Ciência, Tecnologia e Inovação da Universidade de Harvard. “É impossível superestimar a importância dos fatores éticos, sociais e culturais”, afirmou o cientista Abdallah Daar, do Centro McLaughlin-Rotman. “Se qualquer um destes é ignorado, alguém pode se meter em sérios problemas”, acrescentou.

Um dos 44 projetos do Grand Challenges in Global Health refere-se ao controle genético dos mosquitos transmissores da dengue na região meridional do México. Lavery considerou que, neste caso, contam com escassas informações para facilitar a consulta e o trabalho com as comunidades locais. Nos próximos dois anos serão realizados 10 estudos de caso de todo o mundo sobre como comprometer as comunidades locais. “Aprenderemos o que está funcionando e o que não está, o que será muito valioso para a comunidade da saúde global”, afirmou. Essas preocupações éticas e sociais deveriam ocupar o centro destes projetos de pesquisa científica, acrescentou Singer.

E embora a simples falta de saneamento e água limpa seja uma causa fundamental da maioria das crises de saúde em boa parte do mundo, a pesquisa avançada rumo a novas vacinas e tecnologias é necessária para que haja melhorias no futuro. “Se não investirmos em pesquisa sobre vacinas contra a malária, por exemplo, nos próximos 40 anos os mosquiteiros continuarão sendo a principal ferramenta para prevenir a doença”, disse Daar. Também persiste uma enorme desigualdade em matéria de saúde entre o Norte e o Sul. A expectativa de vida de um cidadão norte-americano é de 80 anos, e aumenta, enquanto a de um africano e de 40 anos, e em baixa, enfatizou Singer. “Essa é a mãe de todos os desafios éticos”, assegurou. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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