Tóquio, 09/10/2007 – A ditadura birmanesa não parece mudar diante da possibilidade de uma drástica redução da ajuda dada pelo Japão, seu maior doador, por causa do assassinato do jornalista Kenji Nagai por policiais que reprimiam uma manifestação de monges e civis em Rangul. Na realidade, os cortes previstos por Tóquio parecem se comparar com as rígidas sanções impostas à Birmânia pelos Estados Unidos e por outras nações ocidentais. “O Japão deve tomar medidas para demonstrar seu mal-estar”, disse à IPS uma fonte do Ministério das Relações Exteriores. “Porém, o governo japonês quer golpear duramente a junta”, apressou-se a acrescentar.
O chanceler Masahiko Komura renovou na semana passada sua promessa de tomar medidas punitivas após a avaliação feita por seu vice no ministério, Mitoji Yabunaka, que viajou até Rangun, a maior cidade da Birmânia, para investigar a morte no dia 27 de setembro de seu compatriota Nagai e, ainda, reunir-se com os chefes da ditadura. Nagai foi morto durante a selvagem repressão dos protestos liderados pelos monges budistas. O motivo inicial do descontentamento popular foi o aumento decretado pela junta governante do preço do petróleo em meados de agosto, mas depois derivou em um questionamento da legitimidade do governo militar. “Já restringimos a ajuda econômica somente a projetos humanitários, mas voltaremos a revisá-los cuidadosamente”, disse Komura à imprensa.
O Japão, que forneceu assistência à Birmânia por décadas, reduziu sua ajuda em 2003 quando a líder pró-democrática Aung San Suu Kyi, ganhadora do prêmio Nobel da Paz em 1991, foi colocada sob prisão domiciliar. Mas, em 2006 a ajuda chegou a US$ 11,1 milhões, além da cooperação técnica, de aproximadamente US$ 14 milhões. O fluxo financeiro do Japão para a Birmânia começou com a indenização de US$ 2 bilhões por ter invadido seu território durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O general birmanês Ne Win, que tramou o golpe de Estado de 1962 e governou com mão-de-ferro até 1988, conseguiu gerar simpatias entre líderes japoneses e obteve grandes programas de assistência.
O Japão foi o um dos primeiros países a aprovar o Conselho de Restauração da Lei e da Ordem (CRLO), nome dado à junta que sucedeu Win. Komura informou que não se reduzirá a ajuda que afeta diretamente a população, como um projeto de prevenção e tratamento da poliomielite, mas prevê cancelar os fundos para outro de US$ 4,7 milhões para construir um centro de capacitação na Universidade de Rangun. Ativistas pró-democráticos criticam a ajuda japonesa a esse país do sudeste asiático porque, segundo eles, contribui para garantir o fornecimento de gás natural e promover oportunidades empresariais.
De fato, dezenas de empresas deste país, de bancos e operadores turísticos até comerciantes e industriais, fazem negócios na Birmânia graças à boa disposição dos líderes militares. Algumas figuras importantes do governo, preocupadas pelos vínculos estreitos da Birmânia com a China, alertaram para os perigos de seguir o caminho das sanções. “Agora que a Birmânia estreita vínculos com Pequim, o Japão deve unir-se às nações ocidentais e punir o regime?”, pergunta o novo chefe de gabinete Nobutaka Machimura. “Por acaso é bom que Myanmar (nome que a junta deu à Birmânia) se aproxime da China por isso?”, acrescentou.
As sanções econômicas não terão grandes conseqüências sobre a situação da Birmânia, segundo um informe divulgado na semana passada por uma equipe de investigação da Organização de Comércio Externo do Japão. “A Birmânia não sofrerá uma crise econômica”, reconhece o documento, ao mencionar o apoio da China e a entrada de divisas com a exportação de gás natural, cujo preço aumenta no mercado internacional. Um funcionário admitiu que, como o Japão já cortou sua ajuda econômica e tecnológica, as novas medidas não terão um grande impacto. “Agora que já suspendemos os empréstimos em ienes, não conseguiremos resultados efetivos”, disse à IPS.
Além disso, Tóquio recebe as pressões dos birmaneses residentes no Japão que reclamam ações da população, horrorizada com a truculenta morte de Nagai. As imagens do que ocorreu com o jornalista foram transmitidas várias vezes pelas redes de televisão. Pelo menos 10 empresas de rádio e televisão reclamaram com o governo birmanês pela morte de Nagai. “Exigimos que não se crie obstáculos nem se oprima os jornalistas de nenhuma nacionalidade que buscam saber a verdade”, diz o comunicado.
Nagai, que trabalhava para a AFP News, com sede em Tóquio, aparece nas imagens sucumbindo a um violento ataque do exército, sem deixar de filmar o que ocorria. Foi retirado por numerosos soldados e ao que parece sua câmera foi confiscada. Momentos dolorosos também foram vividos com a chegada de seu corpo ao Japão. “Kenbo (sobrenome de Nagai), meu pobre Kenbo, voltou assim”, chorava sua mãe, enquanto olhava por uma pequena janela no caixão. Seu pai observava desde uma cadeira de rodas enquanto murmurava algumas palavras.
A policia japonesa fez a autopsia no corpo de Nagai e informou que recebeu um tiro nas costas. O projétil danificou o fígado e o jornalista morreu sangrando. Não encontraram provas de que a bala tenha sido disparada à queima-roupa, porém, mais investigações estão sendo feitas. Por outro lado, a Federação Budista do Japão pediu a imediata libertação dos monges e civis presos. “Temos um grande rancor e uma profunda tristeza pelas mortes, incluída a de um cidadão japonês, e pela quantidade de feridos e detidos”, diz o comunicado.
(Envolverde/ IPS)

