Iraque: A "libertação" ainda não chegou para as mulheres

Londres, 23/02/2005 – As condições em que vivem as mulheres no Iraque pioraram em muitos aspectos depois da invasão liderada pelos Estados Unidos, há dois anos, informou a organização de direitos humanos Anistia Internacional. "A atual falta de segurança obrigou muitas mulheres a abandonarem a vida pública e constitui um grande obstáculo para o avanço de seus direitos", diz o relatório "Iraque: Décadas de sofrimento – As mulheres agora merecem algo melhor", divulgado nesta terça-feira. O documento se concentra na situação atual, sem compará-la com os dias do regime do presidente Saddam Hussein, atualmente preso. "É difícil fazer uma comparação parque as condições de antes também eram ruins, mas, de certo modo, piraram", disse à IPS Nicole Choveiry, da Anistia Internacional.

Seqüestro e violação são um problema constante. "Isto não é algo que tenha começado com a invasão e depois acabou", alertou Choveiry. "Muitos dados revelam que as condições pioraram desde então". O assunto é tabu no Iraque, mas a Anistia conseguiu vários depoimentos segundo os quais se trata de problemas comuns. "As mulheres sofrem seqüestro por resgate, e muitas são violadas no cativeiro", afirmou a ativista. O alcance do fenômeno é muito difícil de estabelecer, acrescentou.

A ação de "grupos armados teve um grande impacto na participação das mulheres na política e na esfera pública", segundo Choveiry. "Muitas mulheres deixaram de ir á universidade e de trabalhar, e até mesmo de ir às compras. A falta de segurança é o problema central". A falta de segurança se agrava com as leis discriminatórias e a falta de regras específicas para a proteção das mulheres. "É necessária uma reforma legal e a criação de abrigos femininos", disse a ativista. As equipes da Anistia não visitam o Iraque desde 2003, ano em que a coalizão internacional encabeçada por Estados Unidos e Grã-Bretanha lançou a invasão.

O relatório divulgado pela Anistia se baseia em depoimentos a ativistas e vítimas desde Amã. Vários ativistas que trabalham dentro do Iraque também colheram depoimentos no país, disse Choveiry. As mulheres devem ter um papel ativo no futuro do Iraque, segundo o documento. Mulheres e meninas são alvo indireto de violações de direitos humanos e sofreram desproporcionalmente os prejuízos da repressão governamental e do conflito armado. O informe também indica que, na época de Saddam, "três guerras e mais de uma década de sanções econômicas foram particularmente prejudiciais para as iraquianas".

Ativistas políticas ou seus familiares e integrantes de minorias étnicas ou religiosas eram, então, submetidas a "abusos de gênero", incluindo violação e outras formas de violência". As leis iraquianas contribuem para a persistência da violência contra as mulheres. Muitas correm risco de morrerem ou ficarem feridas nas mãos de parentes homens se são acusadas de comportamento desonroso para a família. Mulheres de origem iraquiana são mantidas como reféns em uma tentativa de forçar a retirada das tropas estrangeiras. "Apanham e são ameaçadas de execução, e pelo menos uma delas, Margaret Hassan, supostamente foi assassinada", diz o relatório.

A Anistia Internacional fez freqüentes apelos a organizações armadas para que abandonem suas práticas violentas contra as mulheres, incluindo hostilidades, ameaças de morte, ataques, seqüestro e assassinato. Também exortou as forças de ocupação que dêem garantias legais para as mulheres detidas e à investigação das acusações de violência contra as mulheres apresentada contra seus integrantes ou contra outras organizações armadas. Entidades femininas do Iraque também pediram em reiteradas ocasiões medidas para deter a violência e a discriminação informou a Anistia.

Nos últimos anos criou-se inúmeras organizações não-governamentais e outras instituições dedicadas aos direitos das mulheres e, inclusive, para proteger as vítimas da violência de gênero. As mulheres que integrarem o próximo governo e a Assembléia Nacional (parlamento) devem garantir que "a legislação iraquiana e as futuras emendas estejam em total harmonia com os critérios internacionais" na matéria. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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