Moscou, 23/02/2005 – Acadêmicos e ativistas da Rússia e de outros países exortaram o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a pressionar seu colega Vladimir Putin para que corrija o "rumo autoritário", às vésperas de uma reunião de cúpula entre ambos. Os dois mandatários se reunirão nesta quinta-feira em Bratislava, capital da Eslováquia, no contexto da viagem que Bush realiza por países da União Européia. "Sua próxima cúpula com o presidente Putin é uma oportunidade importante para fortalecer seu compromisso declarado com a defesa das liberdades e dos direitos humanos em todo o mundo", diz a carta escrita por cerca de 60 personalidades da Rússia, Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.
"Como parte dessa política, pedimos ao senhor e aos Estados Unidos que desafiem publicamente o curso autoritário da gestão do presidente Putin. Pedimos que faça dos direitos humanos, das práticas democráticas e do estado de direito elementos essenciais do diálogo com Moscou e uma pré-condição para aprofundamento dos vínculos bilaterais", acrescenta a carta. Porém, seus signatários parecem esquecer que Bush passou por cima das liberdades, das práticas democráticas e das normas internacionais na "guerra contra o terrorismo" que lançou em virtude dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Washington e Nova York. Também esquecem que Putin se converteu em importante alado dos norte-americanos depois desses fatos, nos quais o presidente russo viu sua grande oportunidade de acabar com o movimento separatista da república autônoma de Chechênia, de maioria islâmica.
Entre outras medidas, Putin compartilhou informação secreta com a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Escritório Federal de Investigação (FBI) dos Estados Unidos, e, ainda, facilitou a instalação do exército norte-americano em antigas bases militares soviéticas na Ásia Central. Com a esperança de ganhar o apoio ocidental em sua guerra na Chechênia, Putin também ajudou os Estados Unidos a preparar a guerra do Afeganistão, em 2001, e aceitou a anulação do tratado antimísseis de 1972. Esse apoio deu um forte impulso em suas relações com Putin, embora os vínculos logo tenham se deteriorado pela oposição de Moscou à invasão do Iraque, à campanha de Putin contra a empresa petrolífera Yukos e pela intervenção russa nas últimas eleições presidenciais da Ucrânia.
Muitos russo consideram que a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para a Europa oriental é uma ameaça aos interesses de segurança da Moscou. A carta dos acadêmicos e ativistas pede ao presidente Bush que tome nota da necessidade de restaurar na Rússia o pluralismo político, por fim à perseguição governamental às organizações não-governamentais, criar meios de comunicação independentes, abertos á opinião de oposição, promover os direitos humanos básicos e redefinir a política para a república autônoma da Chechênia. O pedido constante da carta está de acordo com as reivindicações de ativistas dos direitos humanos, tanto russos quanto estrangeiros.
A Anistia Internacional denunciou que, em sua guerra contra os separatistas chechenos as forças russas "realizaram ataques contra civis e cometeram 'desaparecimentos?, execuções extrajudiciais, violações e outros atos de tortura, tudo isso sem medo de castigo algum". Além disso, na Federação Russa "a tortura e os maus-tratos são praticamente rotineiros nas delegacias de polícia, e as condições existentes nos centros de detenção preventiva do país", inclusive de menores de idade, "são tão espantosas que só podem ser consideradas tratamento cruel, desumano ou degradante", afirmou a organização humanitária, que tem sede em Londres. As autoridades tampouco agem de forma apropriada "para combater a violência racista e a atuação discriminatória da polícia", acusou a Anistia.
"A atitude da Rússia diante da democracia e do império da lei cria grande preocupação dentro e fora do país", disse á IPS Lilia Shevtsova, do Centro Carnegie de Moscou. "A comunidade internacional questiona os ideais democráticos da Rússia, cujas autoridades devem demonstrar seu compromisso com a democracia aceitando as críticas", afirmou Shevtsova. Mas, a julgar por declarações de funcionários do governo russo, Putin não mudará de postura. Alexander Yakovenko, porta-voz da chancelaria, disse à IPS que as relações com os Estados Unidos são boas, mas, ás vezes, se tornam tensas pelas pressões sobre Washington para que adote uma linha dura contra Moscou.
"Existe, em geral, um dinamismo positivo que caracteriza as relações bilaterais. Não é segredo que há forças que exigem que o governo (dos EUA) mude sua política em relação à Rússia", acrescentou. A chancelaria russa declarou na semana passada, em um comunicado á imprensa, que a Europa deve deixar de vigiar a Rússia, e assinalou que este país cumpriu todos os requisitos de reforma judicial e legislativa. "A realidade do mundo moderno, global e diverso descarta qualquer monopólio em questões de democracia ou relações internacionais", afirmou o chanceler Sergey Lavrov em um comentário publicado no jornal oficialista Rossiiskaya Gazeta.
"Estamos dispostos a discutir qualquer assunto com os Estados Unidos, não apenas para lhe dar respostas, mas, também, para fazer perguntas, mas a democracia não é uma batata que pode ser levada de uma plantação para outra", advertiu o chanceler. A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, disse, em sua primeira viagem á Europa depois de assumir esse cargo, este mês, que a Rússia deve mostrar mais compromisso com o estado de direito, uma justiça independente e a liberdade de imprensa. (IPS/Envolverde)

