Esporte: Atletas e governos unidos contra o racismo

Madri, 23/02/2005 – o governo, associações profissionais e organizações sociais da Espanha decidiram nesta terça-feira unir esforços para combater o racismo no futebol, pelo mal que provoca e por seu reflexo na sociedade. O secretário de Esportes, Jaim Lissavetzky, presidiu uma reunião de mais de duas horas da qual participaram, entre outros, a diretora geral de Política Interna, Rosário García; o presidente da Comissão Nacional Antiviolência, Javier Duran, e o titular da Real Federação Espanhola de Futebol, Angel Maria Villar. Também estiveram presentes o presidente da Associação de Futebolistas Espanhóis, Gerardo González Movilla; o máximo dirigente da Liga de Futebol Profissional, José Luís Astiazarán, e o diretor geral de Esportes do Ministério da Educação, Rafael Blanco.

A decisão governamental acontece ao ficar comprovado um aumento dos atos racistas e xenófobos nos estádios de futebol da Espanha, tanto por parte dos torcedores quanto de técnicos e jogadores. O caso que causou mais reações, especialmente na imprensa, foi o incidente ocorrido durante um treinamento da seleção espanhola, semanas antes de um amistoso com a Inglaterra, no dia 17 de novembro, em Madri. Nessa oportunidade, o diretor técnico do selecionado da Espanha, Luis Aragonés, a fim de motivar o atacante José Antonio Reyes, lhe disse ao ouvido que ele era melhor do que aquele "o negro de merda", numa clara alusão ao francês Thierry Henry, ambos jogadores do time inglês Arsenal.

Diante das críticas surgidas devido a essa expressão racista, inclusive do próprio primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, o presidente da Real Federação Espanhola de Futebol minimizou a importância da controvérsia e disse que as palavras de Aragonés foram apresentadas fora de contexto. Dias depois, foram recebidos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional, que estão visitando as cidades candidatas a sede dos Jogos Olímpicos de 2012, entre elas Londres, França e Madri. Em comentários feitos pelos visitantes e divulgados por vários meios de comunicação locais e estrangeiros, afirmou-se que o racismo, tanto de algum técnico, como Aragonés, mas, sobretudo do público, pesariam negativamente na hora de decidir a cidade sede dessas olimpíadas.

Um dos jogadores que mais demonstrações de racismo sofreu da parte dos torcedores nos estádios é o camaronês Samuel Eto?o, atacante do Barcelona. Quanto ele e outros jogadores de origem africana pegam na bola, os torcedores xenófobos começam a gritar imitando sons de macacos. Diante disso, Eto?o resolveu iniciar uma campanha contra o racismo, que começou na semana passada quando marcou um gol e, imediatamente, se dirigiu à tribuna onde uma parte da torcida do Zaragoza grunhia como macacos. Eto?o comemorou diante deles pulando como se fosse um macaco. Ao fim da partida, o jogador, que lidera a lista de artilheiros do campeonato espanhol disse que toda a sociedade deveria se unir para acabar com o racismo, já que constitui uma violação dos direitos humanos.

Joan Laporta, presidente do Barcelona, se solidarizou com seu jogador e lembrou que no futebol há pessoas de todas as raças, religiões e ideologias e que esse esporte serve para unir. Laporta destacou, ainda, que há minorias "que são uma vergonha", mas, acrescentou que devem ser tomadas medidas para "erradicar estes comportamentos, porque há o risco de que acabem sendo aceitos". Nesta terça-feira, ao fim da reunião que presidiu, Lissavetzky informou que houve um acordo total para adotar medidas imediatas, que em breve constarão de um protocolo especial.

"O futebol deve ser fator de integração, não o problema, mas a solução para os problemas de racismo e xenofobia, ocorridos como conseqüência das mudanças que estão ocorrendo na sociedade espanhola, que agora é receptora de imigrantes", afirmou em entrevista coletiva o secretário de Esportes. "Para atacar esse grave problema é imprescindível a colaboração de todos os estamentos do futebol e, sobretudo, o apoio dos torcedores, para isolar, identificar e expulsar dos estádios uma minoria que utiliza este esporte para exibir sua condição de racista", prosseguiu.

Afirmou ainda que todos os presentes à reunião reconheceram o problema do racismo e da xenofobia como real e que manifestaram "um desejo expresso de agir diretamente com ações preventivas". Por isso antecipou que "as sanções ficarão mais rígidas, desde o âmbito federativo e desde a administração, mas nosso desejo é que todos os presidentes dos clubes da primeira e segunda divisões, os capitães, os técnicos, os árbitros e todo o mundo do futebol se reúnam aqui para assinar esse protocolo contra o racismo e a xenofobia".

Outro aspecto que destacou e que não tem a ver diretamente com o que ocorre nos grandes jogos, se refere à necessidade de favorecer a integração dos imigrantes nas competições amadoras. Esses imigrantes são obrigados a jogar no que chamou de "guetos esportivos", por culpa das lacunas legais existentes. Lissavetzky, membro do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), lamentou que a cultura da miscigenação esteja chegando tarde à Espanha, mas, se mostrou confiante , com ações concretas e rápidas, é uma questão que pode ser resolvida. Porque, destacou, "a Espanha não é um país racista, embora haja focos, como em todas as partes. Aqui, pelo menos, não temos nenhum partido político que pregue o racismo, como ocorre em outros países".

Por outro lado, a não-governamental Coalizão Espanhola contra o Racismo no Futebol (Cecra) decidiu instalara um telefone da diversidade para que de qualquer ponto da Espanha qualquer torcedor possa denunciar um fato racista. A Coalizão destaca habitualmente observadores nos estádios e assim também havia feito na partida de novembro entre Espanha e Inglaterra, onde havia 28 desses observadores, os quais detectaram bandeiras com mensagens xenófobas e símbolos proibidos que eram exibidos enquanto gritavam palavras ofensivas.
Por outro lado, espera-se que se concretize o compromisso do presidente da Fifa, Joseph Blatter, de nomear em março estrelas mundiais do futebol como embaixadores anti-racismo. Ele antecipou que seu capitão será o francês Henry, que foi insultado pelo técnico da seleção espanhola. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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