América do Sul: Consumidores perdem com o boom agrícola

Buenos Aires, 26/11/2007 – Por que aumenta o preço do pão, da batata, do tomate, da carne? No agropecuário Cone Sul-americano, muitos atribuem as altas a fatores locais e conjunturais, mas especialistas apontam um fenômeno maior: a demanda mundial por alimentos, que chegou para ficar. Tradicionalmente baratos em países produtores, alimentos como milho, batata, cebola, carnes ou frutas logo viram um luxo nesta sub-região. Os varejistas falam em seca, chuva ou geada para explicar o preço alto do tomate ou da alface, mas uma olhada nos mercados revela um processo mais complexo.

“Estamos diante de um ciclo de atual nos preços de produtos de base agrícola como há anos não se via, e isso é muito bom para países produtores. Resta resolver como os consumidores locais terão acesso aos alimentos”, disse à IPS Fernando Vilella, do programa Agronegócios e Alimentos da Universidade de Buenos Aires (estatal). A maior demanda por alimentos na China, Índia e no sudeste asiático provocou nos últimos anos uma mudança de tendência nos preços internacionais de produtos básicos, que passaram da depressão para a alta sustentada. “Na China, melhora a qualidade de vida da população e o consumo de carne aumenta um quilo ao ano por habitante”, disse Vilella.

Essa demanda pressiona o milho e a soja, muito usados como ração do gado, mas, também tem impacto sobre os preços a crescente extração de combustível desses cultivos e da cana-de-açúcar, e, ainda, o aumento do preço do petróleo, que eleva os custos de produção, transporte e venda. “São todos fatores combinados que permitem prever que a alta de preços dos alimentos continuará”, concluiu o especialista. Para a sub-região, grande produtora desses produtos, a melhora nos termos do intercâmbio constitui uma boa notícia na medida em que são valorizados bens nos quais estes países são competitivos.

Entretanto, os consumidores internos estão desprotegidos. Os preços da cesta básica de alimentos aumentam muito acima do índice geral e, calvo medidas governamentais defensivas, e temporárias. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina – questionado pela suposta manipulação de dados oficiais – neste ano o índice geral de preços aumentou 6,6% e os alimentos 8%. Mas um estudo da consultoria Equis revela uma distância maior. Este instituto segue a evolução da cesta básica de alimentos desde julho, e segundo seus dados nos últimos quatro meses os preços desse conjunto de produtos, que servem para fixar o limite de indigência, aumentaram 30%. Se considerar desde janeiro, a comparação mostraria uma brecha maior. Nos demais países da sub-região se repete, com matizes, a tendência de alimentos mais caros em relação ao resto dos preços.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação de outubro foi de 0,30%. Mas no item cereais, legumes e oleaginosas os preços aumentaram 6,4%, no das frutas 7% e das verduras 5%. As autoridades adotaram diferentes medidas para lidar com o problema. “Na Argentina há retenções – imposto sobre exportação de grãos e cereais – que permitem que os preços no mercado local sejam, em média, 30% mais baixos do que no mercado mundial”, explicou Vilella. Esta cobrança, que entrou em vigor em 2002, aumentou este mês entre 5% e 8%.

O governo também negocia preços máximos mediante acordos setoriais, reduz temporariamente tarifas sobre importação (por exemplo, da batata), restringe as exportações de carne bovina e apóia consumidores organizados no boicote a certos produtos, como o tomate. Neste ano, a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca entregou US$ 187 milhões a mais de 30 mil produtores do setor agroalimentar para “manter sua expansão, sem que o consumidor local seja afetado por valores do mercado internacional”, justificou.

Mas outra medida pendente é o controle dos oligopólios, que costumam ser determinantes na formação de preços. Desde a crise e a abrupta depreciação da moeda em 2002, a inflação chegou a 99%, mas os preços dos alimentos subiram 136%, e alguns aumentaram mais de 250%. Segundo a Secretaria de Defesa da Competição, os 20 produtos da cesta familiar que mais aumentaram são manejados por oligopólios que concentram a maior parte do mercado.

No Brasil, Uruguai ou Chile não há impostos sobre exportações, mas as moedas nacionais estão mais valorizadas frente ao dólar do que na Argentina, e o impacto no bolso do consumidor é menor. Nos dois primeiros, para manter os preços dos alimentos, as autoridades apelam para a importação temporária de algum produto, ou à redução de impostos sobre consumo. No Brasil, se compensa os produtores com créditos brandos e no Uruguai se estabelece preços de alguns produtos. Já nos Chile as intervenções são mais raras. O certo é que a comida é mais cara, sobretudo pelo cenário internacional de demanda ascendente e sustentada de produtos agropecuários, ao qual se somam fatores monetários nacionais e de formação de preços.

Este fenômeno foi batizado pelos entendidos com “agflaçao”, um aumento de preços dos alimentos causado pela maior demanda que afeta o consumidor final. A forma de enfrentá-la, segundo alguns observadores consultados, é aumentar a oferta, algo que tem seus limites. Outros acreditam que mesmo assim será difícil conter a situação. Se o mercado externo é mais atraente, os volumes que os empresários destinarão a ele também serão maiores, dizem os mais cépticos.

Para Federico Ganduglia, pesquisador do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, as principais causas são a maior demanda, os requerimentos adicionais de milho para produzir etanol e o aumento do preço do petróleo. “A demanda de trigo tende a crescer pelo aumento da população”, disse à IPS. “A China passou de exportadora a importadora de trigo, e esse é um fator que força para que os preços aumentem”, acrescentou. a nova revolução industrial nesse país e na Índia permite somar milhões de trabalhadores ao mercado dos alimentos, ressaltou Ganduglia. Outra questão é o impacto dos fundos especulativos que fica mais volátil no mercado de alimentos. “A simples expectativa de um aumento faz com que entrem capitais especulativos e surjam bolhas”, alertou. Em definitivo. Não existe um fator preponderante, mas todos contribuem para os preços subam, assegurou. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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