Santiago, 30/11/2007 – Apesar de grandes avanços, é provável que a América Latina e o Caribe em seu conjunto não alcancem, até 2015, os seis objetivos no campo da Educação para Todos, fixados por 164 países do mundo há sete anos, afirma um informe da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura apresentado ontem. Isto se explica principalmente pelas grandes diferenças existentes entre países e dentro de cada um deles. Os dois objetivos mais críticos – dos quatro medidos nessa oportunidade – são alfabetização de adultos e qualidade da educação.
A sexta edição do Informe de Acompanhamento da Educação para Todos no Mundo 2008 foi apresentado na capital chilena, onde fica a sede regional da Unesco, em também em Nova Yorque e em Nova Délhi. O documento “Educação Para todos 2015. Alcançaremos a meta?” foi preparado por um grupo de especialistas a pedido da Unesco.
Em 2000, 164 países se comprometeram no Fórum Mundial sobre Educação, realizado em Dakar, no Senegal, a cumprir seis metas antes de 2015. esta são estender e melhorar a atenção e educação da primeira infância, velar para que todas as meninos e todos os meninos tenham acesso e terminem o ensino primário gratuito e obrigatório de boa qualidade e atender as necessidades de aprendizagem de jovens e adultos. Também se acordou aumentar em 50% a quantidade de adultos alfabetizados, conseguir paridade de gênero e melhorar a qualidade da educação.
Para avaliar os avanços ou retrocesso, em 2003 foi criado o Índice de Desenvolvimento da Educação para Todos (IDE), que mede de zero a um os quatro objetivos mais quantificáveis: universalização do ensino primário, alfabetização dos adultos, paridade e igualdade entre os sexos e qualidade da educação. Cuba é o país da região com IDE mais alto, de 0,983, ficando em 23º na lista mundial de países liderada pela Noruega. É seguida por Argentina com 0,9799; Chile com 0,969, e México com 0,953. Todos eles já alcançaram os seis objetivos. Os demais países da região estão em uma categoria intermediária, encabeçada pelo Uruguai, com IDE de 0,948, os quais deverão fazer “muitos esforços” para atingir as metas.
Em seguida estão Panamá (0,948), Venezuela (0,931), Peru (0,931), Equador (0,917), Bolívia (0,913), Paraguai (0,902), Brasil (0,901), Colômbia (0,899), República Dominicana (0,892), El Salvador (0,854), Honduras (0,848) e Guatemala (0,812). Do Haiti e da Nicarágua, dois dos países mais pobres do hemisfério, não se obteve dados suficientes. A evidência indica que até 2015 “haverá situações muito diferentes entre países”, disse à IPS Rosa Blanco, diretora do escritório regional da Unesco, para quem nem todos os países da região atingirão as metas. E para que a média regional seja positiva, todos devem cumpri-las, explicou a especialista. As nações mais críticas são Guatemala, Nicarágua, e República Dominicana.
Entretanto, “nenhum país da América Latina está em uma condição (irremediável) de não poder alcançá-las”, destacou Blanca. Consultada sobre o êxito de Cuba, Blanco afirmou que nesse país caribenho a educação é uma prioridade nacional há muitos anos. além de um investimento sustentado, possui boa formação docente e o trabalho destes é muito valorizado socialmente, o que está muito longe da realidade de todos os países da região. Javier Murillo, coordenador-geral do Laboratório Latino-americano de Avaliação, da Unesco, acrescentou que está demonstrado que o principal fator que explica o rendimento dos alunos é o nível de estudos da mãe.
Como Cuba impulsionou desde as décadas de 50 e 60, e de forma radical, a alfabetização, “hoje está colhendo os frutos”, disse o especialista. “Uma mãe alfabetizada dificilmente terá um filho analfabeto”, ressaltou. Por isso é tão importante o objetivo relativo à alfabetização dos adultos. Blanco disse que 10% da população adulta da América Latina e do Caribe são analfabetos. O Brasil (país mais povoado da região, com mais de 188 milhões de habitantes) concentra 40% dos analfabetos latino-americanos. Quanto à igualdade de gênero na educação primária, vários países da área a alcançaram como Bolívia, Equador, Peru e Honduras. Além disso, na maioria das nações há mais mulheres do que homens com educação secundária.
Porém, Murillo alertou que as desigualdades que incidem na educação “não se reduzem apenas às diferenças de genro”. Os países também devem atacar as dificuldades que enfrentam as mulheres para se inserirem profissional e socialmente, a iniqüidade na distribuição da renda, a pobreza, a marginalização que sofrem os povos originários, o isolamento territorial em que vivem milhares de pessoas e os obstáculos que existentes para os deficientes. Segundo Blanco, o balanço dos outros dois objetivos não considerados no IDE é relativamente positivo. Em matéria de atenção e educação da primeira infância, por exemplo, a América Latina é a região do mundo em desenvolvimento com maior cobertura de ensino para crianças entre 3 e 6 anos de idade.
Enquanto a taxa bruta de matricula em educação pré-escolar no mundo foi de 40%, a América Latina e o Caribe apresentam cobertura de 61%. Em Cuba chega a 100%, no México supera os 90% e no Equador se aproxima de 80%. Gautemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Costa rica, Colômbia e República Dominicana não chegam aos 40% da média mundial. Apesar das alentadoras cifras, falta dar prioridade aos menores mais vulneráveis e incluir os que têm menos de 3 anos.
“A América Latina fez muitos esforços em termos de acesso à educação. Nossos problemas maiores são a conclusão dos estudos – que deriva, muitas vezes, na repetência e acabando com o abandono da escola – e, naturalmente, a qualidade da educação”, disse Blanco. “O que aconteceu foi que primeiro houve políticas de cobertura, depois de qualidade e igualdade. O maior desafio (dos paises da região) é ter políticas articuladas que abordem de maneira integral cobertura, qualidade e igualdade”, acrescentou. Além disso, Blanco destacou que os indicadores utilizados para elaborar o IDE (como a taxa de matricula em educação primária, taxa de alfabetização e igualdade de gênero no primário e secundário) são muito limitados. Os países mais avançados não podem se conformar com esses êxitos, devendo aspirar mais, ressaltou.
Para medir qualidade só se considera a permanência na escola até a quinta série, o número de estudantes por professor, o gasto por aluno em educação primária e o gasto público corrente em educação primária. Entretanto, alguns desses dados são reveladores. As diferenças entre o gasto público como porcentagem do produto interno bruto entre os países da região também são enormes: em 2005 a Bolívia destinou à educação 6,6% do PIB, o Chile 3,8% e a Guatemala apenas 1,2%. (IPS/Envolverde)

