Quênia: Se desfazem esperanças de solução pacífica

Nairóbi, 09/01/2008 – O presidente do Quênia, Mwai Kibaki, reeleito em dezembro em eleições questionadas por acusações de fraude, anunciou ontem a formação de seu gabinete e, assim, sepultou as esperanças de um acordo para colocar fim à atual onda de violência. “O Quênia deve se preparar para outra erupção de ódio e violência politica”, disse à IPS um empresário com estreitas ligações com o líder da oposição Raila Odinga, que acusa o presidente de fraude escandalosa para privá-lo da vitória. Diversas fontes indicaram à IPS que já começaram enfrentamentos em Kisumu, reduto do Movimento Democrático Naranja liderado por Odinga, e em áreas de Nairóbi.

“Kibaki escolheu colocar a si mesmo e seus comparsas acima do interesse nacional. O resultado pode ser mais trágico do que o já visto até agora”, alertou o empresário. No dia 30 de dezembro, três dias após as eleições presidenciais, Kabki se declarou vencedor. Os primeiros informes indicavam que Odinga estava à frente com várias dezenas de milhares de votos. Além disso, o oficialismo foi claramente derrotado nas eleições parlamentares, nas quais o Movimento Democrático Narajna conquistou cerca de cem das 210 cadeiras em disputa. Após o anúncio presidencial, estalou a violência étnica que colocou frente a frente os kikuyos, que constituem a base eleitoral de Kibaki, e os luos, seguidores de Odinga.

Até o momento, mais de mil pessoas morreram e foram registrados episódios que recordaram as imagens do genocídio de Ruanda há mais de uma década. Sob a pressão da comunidade internacional, parecia que a direção política do Quênia despertava do pesadelo da violência que havia envolvido o país nos últimos 10 dias. O presidente da União Africana, John Kufuor, e o subsecretário de Estado norte-americano, Jendayi Frazer, foram os que mais esforços fizeram para buscar uma solução pacifica. Kibaki e Odinga haviam concordado em iniciar conversações na próxima sexta-feira para por fim ao conflito, que já causou mais de 250 mil refugiados internos.

Mas, com a designação de metade do gabinete (os demais ministros serão nomeados brevemente, disse Kabaki) as possibilidades de reconciliação parecem feridas de morte. Em uma atitude de rechaço aos gestos conciliadores de Odinga, e sua decisão de aceitar mediação internacional para resolver a crise, Kibaki escolheu como vice-presidente Kalolnzo Mysyoka, que foi terceiro colocado nas eleições como candidato do Movimento Democrático Naranja-Quênia, uma facção que se separou do partido de Odinga. O líder da oposição durante a primeira presidência de Kibaki, Uhuru Kenyatta, que também pertence à etnia kikuyo, recebeu um cargo no gabinete, junto com John Michuki, íntimo do presidente que, segundo se acredita, não se preocupou com os métodos para garantir a reeleição de seu chefe político.

O anúncio do gabinete, quando o país ainda sentia o trauma provocado pela súbita e nunca vista erupção de violência, é, no mínimo, irritante. Tratou-se de uma decisão particularmente provocadora às vésperas do início da mediação de Kufuor, aceita por Odinga. O porta-voz do presidente, Raphael Tuju, participaria das negociações. “Demos uma oportunidade para a mediação ao cancelar a marcha de protesto desta terça-feira. Em troca, tivemos a designação de um gabinete por parte de um presidente cuja vitória está envolta em sérias dúvidas”, disse John Dolla, um empresário de Nairóbi que pertence à etnia luo. “Em lugar de retribuir os gestos de paz e reconciliação de Odinga, Kibaki avançou para consolidar seu poder. Isto é escandaloso e uma clara provocação”, afirmou, por sua vez, um morador de Nairóbi.

Nas atuais circunstâncias fica difícil visualizar como a mediação internacional poderia ter êxito. Os anúncios do presidente se anteciparam à missão da União Africana e Enfureceram a oposição. Odinga não se sentará à mesa com um presidente que ele e os observadores internacionais consideram responsável por uma fraude eleitoral de grandes proporções. Nesse clima, espera-se para ver o que Kufuor pode conseguir com suas gestões. O fato de essa crise ocorrer após eleições que transcorreram pacificamente, com uma participação de eleitores sem precedentes e caracterizada por um apertado resultado, constitui uma triste marca para a direção política do Quênia. Fraudaram os que votaram para ter uma mudança de paz. (IPS/Envolverde)

Najum Mushtaq

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