Kigali, 16/01/2008 – O que Gilbert Nshimyumukiza lembra do genocídio de Ruanda é que começou a chover enquanto ele e seus irmãos tentavam levar para dentro de casa o pai ferido. O terreno estava escorregadio pelo barro e o homem era muito pesado. Depois o cobriram com um lençol e esperaram que morresse. “A chuva caía. Sentei e comecei a chorar. Era muito jovem. Mas ninguém apareceu”, contou. Milhares de crianças e adolescentes ruandenses se viram em situação idêntica à de Nshimyumukiza. Órfãos, sem país que os aconselhassem, muitos nem mesmo pensaram o que significaria para seu futuro abandonar a escola.
Nshimyumukiza tinha 9 anos durante os cem dias de 1994 durante os quais cerca de 800 mil membros das etnias tutsi e hutu moderados foram massacrados pelas milícias conhecidas como “interahamwe”, e inclusive cidadãos comuns, empurrados à matança pelo regime hutu de linha dura. Agora ele tem 21 anos e está desempregado. Tampouco estuda. Admite que suas perspectivas de futuro são desanimadoras. Não se trata apenas dos problemas físicos ou psicológicos, mas de seu baixo nível de educação formal. “O governo admite na universidade os que se graduaram na escola secundaria com média de pelo menos três pontos. A minha foi 2,8”, disse à IPS.
Depois do genocídio, Nshimyumukiza tinha dificuldade em se preocupar com as aulas ou prestar atenção aos professores. “O governo deu aos sobreviventes dinheiro para as despesas escolares. Mas, não tínhamos comida, roupa, sapatos. Consegui um trabalho, cortando cabelo na rua, e isto me impedia de ir à escola, às vezes durante mais de uma semana”, recordou.
Noel Munyarwa, aos 10 anos, era um aluno da escola primária que se destacava tanto em matemáticas quanto nas travessuras e sonhava ter, algum dia, um carro. Agora trabalha como empregado doméstico, cozinhando e limpando para expatriados, muitos de sua idade, em uma organização não-governamental de Ruanda. Ganha US$ 40 por mês, mais alojamento e comida. Quando começaram os assassinatos na aldeia, sua família se refugiou na igreja, onde esperavam estar a salvo. Mas as milícias hutu cercaram o templo e jogaram granadas através das janelas. “Uma matou minha mãe e duas minhas duas irmãs”, disse à IPS com voz apenas audível, seu rosto transformado em uma máscara de dor. “Consegui fugir com minha irmã mais nova e acompanhamos outras pessoas par ao Burundi”, acrescentou.
Quando retornaram, seis meses depois, ir à escola estava fora de questão. O governo apenas oferecia ajuda para as matrículas, nada mais. “Precisava de sapatos e lápis e comida para depois da aula”, contou. Sua família adotiva não podia enfrentar esse gasto, por isso Munyarwa começou a vender cigarros e biscoitos na rua, junto com outros órfãos. Mais tarde encontraram trabalho em residências, para cozinhar, lavar pratos e fazer a limpeza geral.
Emmanuel Ngabanziza sempre desejou “se comportar mal” na escola primária, mas, apanhava de seu pai se não estivesse entre os primeiros da classe. Quando começou a matança, sua mãe e seu pai foram fuzilados diante dele, que fugiu junto com seus seis irmãos e irmãs. Quatro deles foram metralhados. Ngabanziz e duas irmãs conseguiram chegar ao Burundi com outras pessoas de sua aldeia. “Éramos mais de 150 fugindo através dos campos. Mas as milícias também estavam ali, com facões. Creio que 50 chegaram. Os outros foram assassinados”, disse à IPS.
Após quatro meses em um acampamento de refugiados na fronteira com Burundi, regressou a Ruanda, e à escola, mas não foi bem. “Me sentia miserável. Estava muito triste. Ninguém cuidada de mim. Sentia que estivera longe da escola por muito tempo”, contou.
Alguns jovens ruandeses que conseguiram sobreviver ao genocídio conseguir continuar suas vidas em melhores condições. Serge Rwigamba, de 26 anos, considera que sua vida consta de três fases: a despreocupada antes do genocídio, a terrível durante a matança e a atual, a das seqüelas. Quando estava na escola primária não pensava em sua origem étnica. Uma vez, quando um professor pediu que os alunos hutu ficassem de pé, ele também se levantou. Eram os melhores jogadores de futebol do colégio e os admirava. Somente quando o professor, um hutu, lhe ordenou rispidamente que se sentasse foi que tomou consciência de que é era um tutsi.
Durante o genocídio, Rwigambam, que tinha 13 anos, ficou escondido na igreja católica Sagrada Família de Kigali, enquanto outros tutsis eram arrastados para fora dela para serem mortos a tiros ou com facões pelas milícias. Escapou da morte cobrindo o rosto com pó para passar por menina. Seu pai e seu irmão não tiveram essa sorte. Agora, estuda na Universidade Livre de Kigali e trabalha como guia no Museu do Genocídio da capital, mas ainda luta com lembranças aterradoras. “Meu pai e meu irmão estão enterrados aqui, em algum lugar”, disse, enquanto percorria seu local de trabalho, onde 258 mil vítimas estão enterradas em 14 fossas comuns. “Tenho sorte. Posso visitá-los todos os dias”, acrescentou.
Como a maioria dos ruandeses jovens, Rwigambam é muito mais reticente que seus compatriotas mais velhos quando perguntado se está disposto a perdoar os responsáveis pelo genocídio. “Somos apenas humanos, não somos anjos. Quando nos dizem para perdoarmos, nos pedem para agir como se não fôssemos humanos”, afirmou. É mais afortunado do que muitos sobreviventes. Sua mãe consegui escapar e depois voltou ao seu trabalho na Cruz Vermelha. Agora está aposentada e não pode pagar o custo de sua educação universitária, mas o emprego no museu lhe rende US$ 240 mensais, suficientes para seus gastos.
Rwigamba admite que teve sorte e se identifica com os demais sobreviventes, mas, acredita que devem ser responsáveis por si mesmos. “É preciso incentivá-los a realizar pequenos trabalhos, precisam tomar a iniciativa”, afirmou. Muitos lhe respondem que é mais fácil dizer do que fazer e ressaltam que estão sem rumo e sem guia. “Tomara minha vida fosse diferente, mas não sei a que lugar pertenço”, disse Munyarwa. (IPS/Envolverde)

