Washington, 06/02/2008 – A inteligência e as forças armadas dos Estados Unidos identificam a mudança climática como ameaça à segurança nacional, mas, paradoxalmente, o governo destina ao seu combate apenas um dólar contra 88 dólares destinados ao orçamento da defesa. O informe “Forças armadas versus segurança climática”, do Instituo de Estudos de Políticas, indica que o orçamento da defesa para este ano chega a US$ 647,5 bilhões – mais que o total do resto do mundo – contra US$ 7,37 bilhões destinados a combater o aquecimento do planeta.
Desse total, apenas US$ 212 milhões serão dirigidos aos países pobres para ajudá-los a obter fontes de energia limpa e renovável, menos do que Washington gasta em um único dia em suas operações no Iraque. “Enquanto não repararmos nos gastos para fazer a guerra parecerá que não temos dinheiro para evitar o desastre climático”, disse a autora do estudo, Miriam Pemberton. “As advertências cada dia mais alarmantes dos cientistas deixam claro que mudar essas prioridades de gasto não pode esperar”, acrescentou.
O informe é divulgado quando existe uma preocupação mundial sem precedentes sobre as conseqüências devastadoras da mudança climática. Os países mais afetados serão os pobres, que por essa situação contam com menos recursos para enfrentar as ameaças. Violentos fenômenos climáticos, prolongadas secas e aumento no nível dos oceanos serão inevitáveis, afirmam cientistas, caso não sejam estabilizadas rapidamente e em seguida reduzidas as emissões de gases causadores do efeito estufa, em parte responsáveis pelo aquecimento global.
Essa preocupação foi ressaltada no mês passado, quando se outorgou o prêmio Nobel da Paz ao Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) e a Al Gore, que foi vice-presidente dos Estados Unidos (1993-2001). O IPCC é uma rede da Organização das Nações Unidas formada por milhares de cientistas, cujas advertências sobre a realidade e o impacto do aquecimento global se tornaram cada vez mais imperiosas durante os últimos 15 anos. Gore, com seu documentário de 2006 “An Inconvenient Truth” (Uma verdade inconveninte), aumentou significativamente a conscientização popular sobre o assunto, especialmente nos Estados Unidos.
Ao aceitar o prêmio, Gore fez um chamado às nações do mundo para se mobilizarem e evitar o desastre climático, “com uma urgência e uma resolução compartilhada que antes só foram vistas quando os países se mobilizaram para a guerra”. Essa analogia militar foi reconhecida pelo Departamento de Defesa e pelas agências de inteligência dos Estados Unidos, que elaboraram uma série de informes sobre o impacto da mudança climática na segurança nacional.
Em maio, um grupo de generais e almirantes da reserva elaborou seu próprio estudo, no qual alertaram que, entre outras conseqüências, o aquecimento global pode causar caos político, migrações, extremismo e conflitos nacionais e internacionais por recursos vitais como água potável e alimentos. “A mudança climática age como um multiplicador de ameaças para a estabilidade nas regiões mais voláteis do mundo”, advertia o informe. Apesar destas advertências, o governo de George W. Bush não assumiu as ameaças à segurança que o aquecimento global apresenta.
Em 2001, tão logo assumiu o cargo, Bush retirou a assinatura dos Estados Unidos do protocolo de Kyoto, tratado internacional que estabeleceu metas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para os países ricos. Seu argumento foi que o cumprimento do acordo resultaria muito caro para a economia norte-americana. Embora o governo agora aceite que o problema é real e que as emissões devem ser reduzidas, continua se opondo à imposição de metas de cumprimento obrigatório.
Em termos orçamentários, os fundos para atender a emergência climática aumentaram gradualmente em relação ao gasto militar, segundo análise do Instituto de Estudos de Políticas. A relação de 88 dólares para um prevista para este ano “é, sem dúvida, um avanço” frente à proporção de 97 dólares para um do ano passado, quando foram destinados US$ 37 bilhões a programas climáticos e US$ 3,5 trilhões para a defesa. “Mas, também é, sem dúvida, uma melhora inadequada, considerando a magnitude relativa destes problemas. O terrorismo é um assunto sério, mas não nos rodeia. Os efeitos da mudança climática, estes sim, nos cercarão”, afirma o estudo.
Este ano, a maior parte do gasto em programas relacionados ao meio ambiente, quase US$ 4 bilhões, será destinada ao desenvolvimento de tecnologias, enquanto o Departamento de Defesa receberá US$ 77 bilhões para suas atividades de pesquisa e desenvolvimento. Apesar da quase unanimidade científica sobre a aceleração da mudança climática, a segunda partida orçamentária mais importante dentro das destinadas ao aquecimento global – US$ 2 bilhões – serão dedicadas a ajudar a resolver “as fundamentais incertezas associadas com a mudança climática”.
A maior parte destes fundos – destaca o informe – irão para a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa), cujo diretor, Michael Griffin, afirmou que, embora não duvide da tendência ao aquecimento, “não estou certo de que seja justo dizer que se trata de um problema que devemos combater”. Diante dos US$ 212 milhões de ajuda aos países pobres para enfrentarem a mudança climática, Washington dedicará quase US$ 1 bilhão em assistência militar ao estrangeiro.
O governo não detalhou como utilizará os fundos de ajuda internacional em 2008. Mas, em 2006, último ano sobre o qual existe esta informação, 90% do total foram usados para minimizar os efeitos de usinas elétricas que utilizam carvão nos países pobres e promover tecnologias norte-americanas mais eficientes. Cerca de 8% do total foram destinados a programas para enfrentar as conseqüências de secas, inundações, perdas de colheitas ou água potável e outros efeitos potencialmente catastróficos da mudança climática.
Em seu discurso anual sobre o Estado da Nação, no final de janeiro, Bush disse que pediria ao Congresso o aval para destinar US$ 2 bilhões, ao longo dos próximos três anos, a um fundo internacional dedicado ao clima e à energia limpa. Mas não disse como dotaria esse dinheiro. (IPS/Envolverde)

