Direitos Humanos: Quantos monges precisarão morrer?

Mae Sot, Tailândia, 07/02/2008 – Os protestos pró-democráticos continuarão este ano na Birmânia, depois que a brutal repressão contra manifestantes pacíficos paralisou a população. É nisso que acredita o monge budista Ashin Kovida, um dos lideres do movimento. A força usada pela junta expôs ao mundo sua verdadeira natureza. “A comunidade pôde saber realmente o quanto é repressivo o regime militar birmanes”, enfatizou. “É uma das virtudes de nossa luta. Houve muitos assassinatos (monges, estudantes, simples cidadãos) quando os soldados atacaram brutalmente os manifestantes”, prosseguiu. “Também demonstrou porque o regime é responsável pelo sofrimento dos budistas birmaneses. A historia é espantosa”, ressaltou.

“Gostaria de perguntar ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas quantos monges e cidadãos deverão ser sacrificados antes de intervir”, acrescentou Kovida, que aos 24 anos ostenta o titulo de “venerável”. Ele estava em Rangun, antiga capital e principal cidade da Birmânia, quando a junta militar ordenou aos soldados disparar contra manifestantes desarmados. Também presidiu o comitê de monges que organizou uma marcha da qual participaram mais de cem mil pessoas nas ruas de Rangun em setembro, mês no qual se registrou um efêmero crescimento dos protestos em busca de alivio econômico e liberdade política.

Muitos dos participantes das manifestações eram monges que marchavam de túnica marrom. Segundo a ONU, 31 pessoas foram mortas e centenas foram presas na repressão dos protestos. Organizações de direitos humanos e de oposição aumentam esses números para mais de cem mortos e mais de mil detidos. Três religiosos budistas morreram, um deles a golpes e outro em sessão de tortura, informou no final de janeiro a Aliança de Monges da Birmânia. Segundo esta organização, se desconhece o destino de 44 monges e monjas detidos em incursões militares a 53 monastérios de todo o país. E a repressão teve efeito.

“As pessoas continuaram sofrendo como antes de setembro”, disse Kovida à IPS através de um intérprete. “A luta contra o regime militar continuará este ano. A população tem um grande desejo de que isso ocorra”. Mas, dificilmente Kovida participará desses protestos. Pouco depois das manifestações de setembro, e após uma fuga de três semanas, radicou-se em Mae Sot, na fronteira da Tailândia com a Birmânia, para evitar ser preso. Inicialmente, se refugio m uma casa a 65 quilômetros de Rangun, para evitar as patrulhas que o procuravam com uma foto sua em mãos. Precisou deixar crescer o cabelo na cabeça pintada de dourado, vestir-se como adolescente e usar pulseira.

Kovida cresceu na pobreza, em um vilarejo de 20 casas no ocidente da Birmânia. Chegou a Rangun em 2003 para iniciar seus estudos em um monastério, única maneira de um jovem de sua condição social ter acesso à educação. “Em meu tempo livre comecei a estudar inglês, e graças a alguns amigos vi gravações do que ocorreu em agosto de 1988”, recordou. Nesse ano ocorreu a última grande repressão: as tropas dispararam contra manifestantes e mataram cerca de três mil pessoas. “Me dei conta de que a culpa era do governo militar. Fiquei furioso e senti que deveria fazer alguma coisa”, contou.

A decisão da ditadura, em agosto, de aumentar o preço do petróleo em 500% sem aviso prévio aumentou a raiva de Kovida. “Começamos a ver mais gente sofrendo, crianças que não podiam ir à escola, mendigando comida nas ruas. Os monges não podiam ignorá-las, pois é o povo que sempre lhes dá seu alimento todas as manhãs”, exsplicou. Assim começou o processo de transformação de Kovida de discreto dissidente a líder de protestos em Rangun. No começo de setembro soldados se chocaram com 300 monges no povoado de Pakokky. Separaram 10 deles e os golperam com varas de bambu.

“Os monges deram prazo ao regime para se desculpar pelo que fizeram em Pakkoku em 17 de setembro. Não se desculparam. Começamos a organizar um protesto em Rangun, mas vimos que não tínhamos lideres. Tivemos que instalar um novo comitê”, explicou. Assim nasceu o Comitê Representativo de Monges Budistas. Kovida deu um passo à frente quando seus colegas em Rangun perguntaram quem se oferecia como líder para encabeçá-lo. “Nosso plano foi que os monges começassem a marchar e conduzissem a multidão. Acertamos agir de maneira sistemática e pacificamente”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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