Eleições-EUA: Juntar votos e milhões

Oakland, Estados Unidos, 08/02/2008 – Nos últimos dois anos, várias organizações direitistas disputam o caráter de versão conservadora da não-governamental liberal MoveOn.org. Nos últimos dias, a Freedom’s Watch parece ter ganhado a batalha. A MoveOn.org, que conta com 3,2 milhões de membros, foi criada em 1998 por empresários do setor de informática para questionar o ex-presidente Bill Clinton pelo excessivo gasto em operações militares no momento em que ocorria o escândalo por sua ligação com a estagiária Monica Lewinsky.

Na medida em que foi crescendo, a MoveOn.org financiou anúncios apoiando a campanha do ex-candidato presidencial do Partido Democrata John Kerry em 2004 e contra a guerra do Iraque, entre outras causas. Por outro lado, Freedom’s Watch, organização sem fins lucrativos com sede em Washington e fundada no ano passado por um grupo de ex-funcionários da Casa Branca e endinheirados partidários do presidente George W. Bush, apenas agora estão se fazendo conhecer.

Freedom’s Watch constitui uma poderosa infra-estrutura organizacional e pode somar até US$ 250 milhões de gasto nos partidos nas eleições deste ano. No ano passado – pouco antes de o comandante das forças norte-americanas no Iraque, general David Petraeus, e o embaixador nesse país, Ryan Croker, compareceram ao Congresso – a Freedom’s Watch lançou uma campanha publicitária ao custo de US$ 15 milhões.

Sua intenção era obter apoio público para o pedido de aumento de soldados no Iraque feito por Bush. Embora a percepção do público sobre a ocupação desse país do Golfo não tenha mudado drasticamente, a Freedom’s Watch conseguiu um impacto no debate. Poucos meses depois, a organização centrou sua atenção no Irã. No final de setembro, a entidade publicou um anúncio na imprensa qualificando de “terrorista” o presidente Mahamoud Ahmadinejad.

“Se tivessem sido levadas em conta as advertências de Adolf Hitler quando escreveu “Minha Luta”, suas ações poderiam ter sido freadas. Ahmadinejad está dando a nós e à região sinais de advertência do mesmo tipo: quer a destruição dos Estados Unidos e de Israel”, disse ao jornal The New York Times Bradley Blakeman, presidente da Freedom’s Watch e ex-colabrador de Bush.

No final de outubro, a organização patrocinou um fórum sobre o Irã com vários especialistas em Oriente Médio do American Enterprise Institute, centro de estudos com sede em Washington e integrado por neoconservadores que participaram do projeto da guerra no Iraque. Em dezembro, a Freedom’s Watch se concentrou em divulgar suas idéias sobre a imigração com um anúncio na televisão atacando o candidato do Partido Democrata em uma eleição legislativa no Estado de Ohio. O jornal The Washington Post qualificou o anúncio como “agressivamente negativo”.

O financiamento aconteceu, “em boa parte, por conta de Sheldon G. Adelson, um executivo de cassinos de Las Vegas que no ano passado comprometeu a quantia sem precedentes de US$ 200 milhões em causas judias e israelenses”, informou o Post. Adelson “entregou no dia 7 de dezembro um cheque no valor de US$ 80 bilhões à Freedom’s Watch, segundo documentos da Comissão Eleitoral Federal, apenas quatro dias antes das eleições que deram uma cadeira na câmara baixa ao republicano Roberto Latta”, informou o jornal.

“Por trás de um primeiro plano vermelho-sangue, o aviso mostrava latino-americanos registrados pela polícia enquanto um narrador acusava o candidato democrata Robin Weirauch dos ‘liberais no Congresso” de apoiarem o atendimento gratuito em saúde para os imigrantes ilegais”, continuou o Post. “A Freedom’s Watch é o último de vários grupos que impulsionam o extremismo anti-imigrantes motivados pelo que consideram um dividendo político”, disse à IPS o diretor da Iniciativa para a Construção da Democracia do Centro para a Nova Comunidade, Devin Burghart.

“Depois que suas campanhas em favor da guerra não conseguirem mobilizar a população, a Freedom’s Watch s voltou para o que pode ser o assunto mais divergente e volátil na campanha deste ano: o nacionalismo”, acrescentou Burghart. Este especialista destacou que o fato de a Freedom’s Watch “ter subido no trem do nacionalismo é um indicador a mais de que a política anti-imigrante se converteu na nova vanguarda da guerra cultural. É um sinal de advertência sobre a força com que alguns aliados do Partido Republicano planejam usá-lo como arma no ciclo eleitoral 2008”.

Segundo o The Washington Post, a equipe de 20 pessoas que trabalha na Freedom’s Watch “mais do que duplicará nos próximos meses”. A sede da organização é alvo de modificações para convertê-la em “um moderno estudo onde o pessoal possa enviar anúncios a emissoras de televisão e de radio de todo o país na hora”. Esta organização não tem problemas financeiros. Seu orçamento fica entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões, “mais que o dobro do gasto das organizações liberais independentes maiores no ciclo eleitoral 2004”, disse o jornal.

“Entre os que contribuem com a Freedom’s Watch existe a sensação de que a MoveOn preencheu um vazio na esquerda, que conquistou apoio na esquerda, que arrecadou dinheiro da esquerda, que mobilizou a esquerda”, admitiu, em declarações ao The Washington Post Ari Fleischer, ex-porta-voz de Bush e fundador da Freedom’s Watch. “Esta organização embolsa enormes somas de alguns poucos contribuintes, um mecanismo que outros grupos não podem seguir porque o valor das doações é limitado por lei”, explicou à IPS o diretor-executivo do Centro para os Meios e a Democracia, John Stauber.

“Como a MoveOn, a Freedom’s Watch tenta aplicar um modelo de arrecadação de fundos da sociedade civil que mobiliza a base de seguidores enquanto gera dinheiro”, acrescentou Stauber. Mas a MoveOn.org só pode receber doações individuais de até US$ 5 mil. A Freedom’s Watch é dirigida por Blakeman, Mel Sembler (um milionário que foi embaixador na Itália) e Fleischer. Boa parte de seu apoio financeiro até agora partiu de Sembler e do multimilionário Sheldon Adelson, a sexta pessoa mais rica do mundo.

O site da Freedom’s Watch diz que “foi criado para ser a voz que luta pelos princípios conservadores dominantes, hoje, amanhã e para as próximas gerações. Nos comprometemos com o ativismo civil, as campanhas educacionais e informativas. (…) Criamos coalizões e colaboramos com grupos e indivíduos de mentalidade semelhante para fomentar nossos objetivos comuns”, acrescenta o site. Fleischer disse ao Post que a organização não estava “ampliando” sua agenda. “Dissemos que a prosperidade através da livre empresa e dos assuntos internos estariam na agenda. Mas algo tinha que vir primeiro, e isso foi o aumento das tropas e as políticas do presidente para o Iraque”, afirmou.

* Bill Berkowitz é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Pública periodicamente a coluna “Conservative Watch” na revista eletrônica WorkingForChange.org.

(Envolverde/ IPS)

Bill Berkowitz

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