Direitos Humanos: Pouco orçamento da ONU para as mulheres

Nações Unidas, 22/02/2008 – Acabar com o contínuo subfinanciamento das atividades femininas dentro da Organização das Nações Unidas será uma das prioridades na agenda da sessão que a Comissão sobre o Status das Mulheres iniciará na próxima segunda-feira. O tema central desse encontro, que vai até 7 de março, é “Financiamento para a igualdade de gênero e o lugar ocupado pelas mulheres”.

“Acreditamos ser impossível debater sobre o financiamento da igualdade de gênero sem discurtirmos os mecanismos estruturais dentro do sistema da ONU a fim de distribuir os recursos necessários para melhorar as vidas das mulheres”, disse June Zeitlin, diretora-executiva da Organização das Mulheres para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento “Sem uma entidade feminina mais forte e consolidada liderada por uma subsecretaria geral e financiada de maneira ambiciosa, o tipo de mudança estrutural que as organizações de mulheres defenderam nos últimos dois anos, e os esforços feitos pelos governos e agências internacionais de desenvolvimento não serão suficientes”, disse Zeitlin à IPS.

Todo o orçamento de 2006 da única entidade feminina operacional (o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – Unifem) foi de apenas US$ 57 milhões, cerca de 2% do orçamento de US$ 2,34 bilhões do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para o mesmo período, disse a Liga Internacional de Mulheres pela Paz e a Liberdade.

Os orçamentos combinados de todas as entidades femininas da ONU – entre elas a Divisão para o Progresso das Mulheres, o Escritório do Assessor Especial para Assuntos de Gênero e o Instituto Internacional de Pesquisas e Capacitação das Nações Unidas para a Promoção da Mulher – totalizaram apenas cerca de US$ 65 milhões em 2006, segundo a Liga. “Isto é 0,005% do gasto militar mundial de US$ 1,2 trilhões em 2006”, acrescentou essa organização, em sua apresentação escrita perante a comissão sobre o Status das Mulheres.

Entretanto, no ano passado, o orçamento do Unifem duplicou, para atingir cerca de US$ 115 milhões. Mas seu nível de financiamento se manteve muito abaixo da maioria dos órgãos e agências da ONU. A Liga também considera “inaceitável que apesar de muitos compromissos com a igualdade de gênero e a posição das mulheres, as cifras falem de uma história diferente”. Uma proposta de uma nova agência feminina da ONU – que será presidida por um subsecretário-geral – permanece no limbo, apesar do apoio do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

A proposta pode ser uma realidade somente quando for aprovada pela Assembléia Geral, de 192 membros. Mas os países-membros protelam o assunto, seja por razões políticas ou financeiras. Jéssica Neuwirth, presidente da Equality Now (Igualdade Já), uma organização internacional de direitos humanos, disse que o financiamento para as mulheres, e particularmente para a defesa de seus direitos, “é desproporcionalmente baixo”.

Tanto no setor das ONGs quanto na própria ONU, o financiamento para as mulheres é exponencialmente menor do que para outros assuntos, acrescentou Neuwirth. Por exemplo, o Unicef tem orçamento de centenas de milhões, enquanto o do Unifem é de dezenas de milhões, ressaltou. “Durante muito tempo se reconheceu que investir nas mulheres gera altos lucros em matéria de desenvolvimento, paz e outros. Mas, ninguém está investindo realmente nas mulheres. É tempo de fazer coincidir a retórica com o financiamento”, disse Neuwirth à IPS.

Segundo Zeitlin, o informe do secretário-geral perante a CSW diz que é difícil rastrear os recursos destinados à igualdade de gênero dentro do sistema da ONU, tanto em nível nacional quanto regional. O informe de Ban também destaca que as recentes discussões sobre a reforma dos acordos institucionais para a igualdade de gênero nas Nações Unidas revelaram um sério subfinanciamento dos órgãos destinados especificamente a assuntos de gênero. “Isto é um subestimação”, disse Zeitlin, particularmente quando o orçamento do Unifem é comparado com os de outras agências da ONU.

Por exemplo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) dispõe de US$ 3,5 bilhões. “Não é preciso ser um gênio em matemática para ver que a quantidade de dinheiro dedicada às entidades da ONU especificamente encarregadas de promover a igualdade de gênero não é apenas um grande erro”, disse Zeitlin à IPS. Falando no mês passado em um seminário sobre o financiamento da igualdade de gênero, Marina Fe B. Duirano, do Unifem, disse que o gênero como tema que afeta outros vários assuntos deveria deixar de ser conceitual e mesmo efêmero e aproximar as mulheres das realidades.

“Necessitamos conectar as demandas das mulheres com políticas, programas e mecanismos de implementação”, disse Durano. Pouco vale estar na mesa de negociações quando o entorno externo governado pelas instituições mundiais limita as opções políticas disponíveis para as mulheres, acrescentou. Durano disse que muitas das políticas cobertas pelo financiamento para o desenvolvimento estão detalhadas nos acordos comerciais regionais. Também nos empréstimos negociados com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional e em instrumentos de assistência de agências de cooperação bilateral para o desenvolvimento

“Isto aparece sob a forma de condições que nossos respectivos governos questionam. Mesmo a igualdade de gênero se tornou refém desta mentalidade”, afirmou Durano. A governabilidade econômica mundial deve ser tal que “garanta nossa liberdade coletiva de expressão política. O que significa estar na mesa de negociações quando as agências externas decidem em nosso nome o que é bom e o que não é para nós?”, perguntou a especialista. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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