Washington, 26/02/2008 – Três autoproclamados “ex-terroristas” muçulmanos, com fortes vínculos com a direita cristã dos Estados Unidos, dão conferencias por todo o país criticando o Islã em círculos acadêmicos e despertando polêmica. Os “3-X terroristas”, Walid Shoebat, Kamel Saleem e Zacharia Ananin, são soldados de vanguarda das “guerras culturais” dos EUA, uma batalha discursiva sobre “valores” e assuntos candentes, desde o aborto até o fundamentalismo islâmico. Estes conferencistas embolsaram US$ 13 mil para participarem da 50ª Assembléia Anual da Academia da Força Aérea norte-americana. Trata-se de um fórum de quatro dias da qual participam 200 estudantes internacionais e cadetes, organizada pelo departamento de ciência política do centro de formação.
Para seus seguidores, os 3-X representam uma visão “moderada”. Se autodefinem extremistas muçulmanos convertidos ao cristianismo evangélico e que agora expõem as “verdades” do Islã. Para os críticos, são uma fraude. E os acusam de inventar grande parte de suas façanhas como assassinos em massa para vender sua islamofobia no circuito acadêmico e em canais de televisão por cabo, incluindo as redes de notícias locais Fox News Corp. e CNN. Mas, foi sua relação com políticos e organizações da direita cristã que causou maior preocupação.
“Esses homens são uma fraude, mas esse não é o ponto”, disse Chris Hedges, ex-jornalista do New York times, em um artigo amplamente distribuído via Internet. “Fazem parte de uma guerra obscura e temerosa contra a tolerância travada por alguns cristãos que, em caso de outro catastrófico atentado terrorista em território norte-americano, lhes permitiria avalizar a perseguição de muçulmanos”, acrescentou. “Abrem uma janela para a cosmovisão que destrói os Estados Unidos, que corrompeu o governante Partido Republicano, que inundou a mídia, que se colou em todos os clichês cotidianos para nos explicar a nós mesmos. É ignorante, racista e mortífera”, ressaltou o jornalista.
A polêmica parece seguir Shoebat e companhia onde quer que vão. O público e a imprensa não puderam participar do fórum estudantil na Universidade de Stanford, que os tinha como oradores. A Universidade de Princeton cancelou uma conferência de Shoebat em 2005 por considera-la “muito incendiaria”. No ano seguinte, a Universidade de Columbia restringiu o ingresso a uma conferência de Shoebat e de um ex-integrante da Juventude Hitleriana e ex-soldado alemão Hilmar von Campe apenas três horas antes de seu início.
A Organização Militar pela Liberdade de Culto, que manteve uma demanda contra o governo federal para que contenha o que chama de “evangelismo pavoroso” nas Forças Armadas, também protestou pela conferência. A relação entre a direita cristã evangélica e os 3-X é profunda. Os ex-militantes têm conexões com a Unidade Cristã pró-Israel (Cufi), cristã e sionista, do reverendo John Hagee. Também se relacionam com a Focus on the Family (Enfoque de família), parte das organizações paraeclesiásticas que promovem uma política conservadora nos Estados Unidos e mantêm fortes vínculos com o presidente George W. Bush.
Shoebat alega ser ex-agente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP, que cometeu atentados contra judeus e colocou bombas em Israel, convertido ao cristianismo em 1993. em 2007 publicou o livro “Why we want to kill you” (Por que queremos te matar?) e apareceu em um suposto documentário chamado “Obsessaop: radical islam’s war against the west” (Obsessão: guerra radical do Islam contra o Ocidente). O filme foi comercializado, em parte, por organizações que se definem pró-israelenses. Nele aparecem entrevistas com o professor de Direito da Universidade de Harvard Alan Dershowitz e com o “jornalista investigativo” Steve Emerson.
Também pode-se ver Itimar Marcus, do Observatório de Mídia Palestina, com sede em Israel, e Daniel Pipes, polêmico professor de história medieval islâmica cujo site campuswatch.com foi criticado em 2002 por seus supostos ataques segundo parâmetros do macartismo contra professores de estudos sobre o Oriente Médio.
No verão de 2006, Shoebat também participou da “noite para homenagear Israel”, um acontecimento de três dias apresentado pela Cufi, do pastor Hagee, que se propõe mobilizar cristãos sionistas como uma força política, segundo o site San Antonio Express. Shoebat, Saleem e Anani também prevêem integrar o painel de ex-terroristas na convenção do Cufi no mês que vem em Washington. Entre os oradores estarão o senador independente Joe Lieberman, pelo Estado de Conecticut, além de Pipes, Gaffney e Clifford May, presidente da Fundação em Defesa das Democracias.
Por sua vez, Saleem, que dirige uma organização chamada Koome Ministries, disse que em criança foi doutrinado pela OLP e enviou para Israel através de túneis subterrâneos sob as Colinas de Gola. Mas, analistas afirmam que não há registros desse fato. Saleem também alega descender do “grande visir do islã”, um termo refutado por ele em seu site. “Assumo a responsabilidade de escolher esse termo impreciso, que adotei para ocultar a localização e o titulo do clero com o qual estou aparentado”, justificou.
Os objetivos do site da Koome Ministries são claros. Primeiro, despertar, educar e formar as comunidades cristãs e judias sobre os perigos iminentes do Islã radical. Segundo, levar aos muçulmanos a mensagem redentora de Cristo. Terceiro. Pregar a “relação evangélica” para levar a verdade aos muçulmanos. O site pede aos visitantes que rezem por nações muçulmanas precisas e oferece vídeos de grupos indígenas que estão “prontos para o gospel”. Por fim. Anani alega que como militante libanês matou pelo menos 223 pessoas no início dos anos 70 e que foi “quase decapitado” por se converter ao cristianismo.
O passado de militante de Anani foi questionado por informe de 2007 do site canadense Windsor Star. Alguns de seus relatos não correspondem com os acontecimentos históricos reais, segundo Tom Quiggin, especializado na jihad (guerra santa). “O senhor Anani não é uma pessoa que tenha o menor grau de credibilidade a julgar pelas histórias que conta”, disse Quiggin. Shoebat e Saleem são cidadãos norte-americanos e Ananni é canadense. (IPS/Envolverde)

