ESTADOS UNIDOS-IRÃ: Dúvidas sobre o computador atômico iraniano

Washington, 04/03/2008 – Cerca de mil páginas de documentos de origem duvidosa são neste momento o único obstáculo para que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) declare que o Irã respondeu todas as dúvidas sobre os objetivos de seu programa nuclear. O governo do presidente George W. Bush usou desde 2004 uma serie de documentos técnicos, supostamente obtidos de um computador portátil roubado, como evidência das intenções de Teerã de construir armas atômicas. Mas esses dados são vistos com grandes suspeitas há muito tempo por analistas norte-americanos e estrangeiros.

Funcionários alemães disseram que a fonte dessa informação foi a organização rebelde iraniana Mujahideen e Khalq (MEK, sigal em parsi), que junto com seu braço político, o Conselho Nacional de Resistência no Irã (NCRI) aparece na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Outros indícios sugerem, por outro lado, que o MEK não obteve os documentos de uma fonte iraniana, mas do Mossad, o serviço de inteligência de Israel.

Em seu último relatório sobre o Irã, de 22 de fevereiro, a AIEA, sob forte pressão de Washington, incluiu descrições sobre especificações técnicas para testes de poderosos explosivos, o projeto esquemático de um míssil capaz de transportar uma ogiva nuclear e planos referentes à construção de uma unidade para produzir “sal verde”. Assim é conhecido o tetrafluoruro de urânio, uma substância granulada que, segundo a revista time, “Você não queria salpicar sobre suas batatas fritas”: serve para produzir combustível para um reator nuclear ou como material passível de fissão para uma bomba.

Cobrou-se de Teerã uma explicação detalhada sobre estas supostas atividades. O Irã alega que os documentos são uma invenção do MEK e pediu cópias para analisá-las. Os Estados Unidos se negaram a entregá-las. A queixa iraniana conta com o apoio de funcionários alemães no dia 22 de novembro de 2004, o jornal The Wall Street Journal informou que o coordenador de Relações Germano-Norte-americanas do Ministério das Relações Exteriores de Berlim disse que a informação foi fornecida por “um grupo dissidente iraniano”. Outro funcionário alemão, familiarizado com o caso, garantiu à IPS que o NCRI foi a fonte dos documentos.

A Alemanha coletou grande quantidade de informação de inteligência a respeito do programa nuclear iraniano. No final de 2004, funcionários norte-americanos disseram ao jornal The Washington Post que o computador portátil com a informação tinha sido roubado de um iraniano que a inteligência alemã estava tentando recrutar. Mas os especialistas em Berlim contradizem a versão do governo Bush a respeito de os grupos de resistência iraniana não terem sido a fonte dos documentos.

Embora o Departamento de Estado o considere uma organização terrorista, o MEC é um favorito dos neoconservadores do Departamento de Defesa norte-americano, que propôs em 2003/2004 utilizá-lo para desestabilizar o regime de Teerã. Os Estados Unidos utilizaram informação do MEK sobre temas militares iranianos durante anos. Foi considerado uma fonte crível de informação sobre o programa atômico de Teerã desde 202, fundamentalmente por ter identificado instalações nucleares de Natanz.

A fonte alemã disse ignorar se os documentos eram autênticos ou não. Mas analistas da Agencia Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos e funcionários europeus da AIEA que tiveram acesso a eles são muito cépticos sobre sua veracidade. Apesar de seu êxito em identificar as instalações atômicas de Natanz, o histórico do MEK sobre o programa nuclear iraniano é pobre. Um alto funcionário da AIEA declarou ao jornal Los Angeles times em fevereiro de 2007: “Boa parte da inteligência que chegou até nós era incorreta”.

Wayne White, ex-subdiretor de Inteligência do Departamento de Estado para Oriente Médio, duvida que o MEK tenha os contatos necessários na burocracia iraniana e na comunidade científica para obter dados confiáveis. “Não creio que seus seguidores não tenham sido purgados do aparelho estatal. Penso que não contam com fontes internas”, afirmou. O Washington Post disse em 2006 que analistas da CIA especularam que “um terceiro país, como Israel, fabricou a evidência”. Essa teoria foi abandonada, embora sem explicarem as razoes que os levaram a isso.

Desde 2002 soube-se de nova informação que sugere que o MEK não obteve seus dados sobre as instalações atômicas de Natanz por sua conta, mas os recebeu do Mossad, Yossi Melman e Meier Javandanfar, que no ano passado escreveram um livro sobre o programa nuclear iraniano, disseram que “altos funcionários da inteligência israelense” lhes disseram que o Mossad sabia sobre Natanz um ano antes do anúncio do MEK sobre sua existência. Não o tornaram público – afirmaram – por medo de colocar em perigo a fonte de informação.

Shahriar Ahy, que foi assessor do xá do Irã Reza Phalavi (1941-1979), derrubado pela Revolução Islâmica, disse à jornalista Connie Bruck que o MEK não foi a fonte, mas sim um “governo amigo e foi entregue a mais de um grupo de oposição”,. Bruck escreveu no semanário The New Yorker, em março de 2006, que quando lhe perguntou se tratava-se de Israel Ahy sorriu: “o governo amigo não quer aparecer como a origem da informação. Se o governo amigo a entregasse aos Estados Unidos de forma pública, seria recebida de maneira diferente. É melhor que provenha de um grupo opositor”, respondeu. (IPS/Envolverde)

* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005 e reeditado em 2006.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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