Flandes, Colômbia, 06/03/2008 – “Foi uma homenagem aos companheiros indígenas afro-colombianos, camponeses e a todos que morreram nesta guerra absurda”, disse à IPS o indígena colombiano Manuel Bautista no ato inaugural de uma marcha que termina hoje em Bogotá. Trata-se da “Homenagem nacional às vítimas do paramilitarismo, da parapolítica e dos crimes de Estado”. Milhares de flores de todas as cores foram lançadas no rio Magdalena – que atravessa o país desde o Maciço Colombianao, no sul, até o mar do Caribe, no extremo norte – por vítimas da guerra interna que chegaram desde os ocidentais Choco e Cauca, para se juntarem com os procedentes de regiões centrais, como Tolima, Huila e Cundinamarca.
Flandes, uma população de pescadores tolimenses, foi o local de encontro. E a ponte que a une com Girardot, cidade cundinamarquesa, foi o cenário da homenagem de aproximadamente 700 vítimas. Segundo a organização não-governamental Justiça e Paz, “na Colômbia cerca de quatro milhões de pessoas tiveram de abandonar suas casas e foram despojadas de suas terras, há pelo menos 15 mil desaparecidos, três mil enterradas em fossas comuns ou tiveram seus cadáveres jogados nos rios”.
“Foi comovedor. Um demonstração de generosidade, de compromisso por parte de comunidades indígenas que foram desprezadas pelo resto da sociedade. De mulheres negras, também discriminadas, que chegaram de Choco com a dor de tantos desaparecidos”, disse à IPS Iván Cepeda, coordenador do Movimento de Vítimas de Crimes de Estado. É “mais uma mostra do sentido da marcha que clama pela paz, em lugar da guerra”, acrescentou. Uma paz que os manifestantes buscam, mas não vislumbram. “Viemos apesar do que se vive em nossas comunidades, ao começar a segunda fase do Plano Colômbia (contra-insurgente e antidrogas) que, sabemos, representa deslocamentos, pessoas desalojadas, bombardeios, desaparecimento e morte’, disse Bautista.
Há mais de 40 anos a Colômbia está em guerra. As guerrilhas esquerdistas que pegaram em arma contra o Estado nos anos 60 se opõem desde a década de 80 a milícias paramilitares de ultradireita que atuam junto com a força pública. “Devemos todos reconhecer a dor das vilas rurais, das regiões afastadas. Porque nós os colombianos estamos sempre voltados ao gozo e nos recusamos a ver a verdade, e, mais ainda, a expressar a indignação compartilhada”, disse à IPS o ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, que acompanhou a pé os indígenas com seus bastões de comando sob um calor de 40 graus do meio-dia da última terça-feira.
“Mas estas mobilizações devem produzir uma convicção, um impulso que nos leve à resolução do Nunca Mais”, acrescentou Mockus, e, também, a evitar “os atalhos ou resultados de curto prazo”, tão comuns em nossa história, antiga e recente, prosseguiu. Na opinião do filósofo, são atalhos a decisão das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de montar um acampamento em território equatoriano tendo a fronteira como parapeito, ou que “o governo bombardeie esse acampamento, em lugar de consultar o presidente do Equador e de algum modo conseguir sua autorização, pois prefere o êxito”. O seqüestro e o paramilitarismo também são atalhos, acrescentou. “Em lugar de construir um Estado de Direito com uma força pública que respeite os direitos humanos, tomou-se o atalho do paramilitarismo, que produziu resultados com conseqüências indesejáveis”, acrescentou.
Segundo a Organização das Nações Unidas, 80% dos crimes do conflito foram cometidos pelos paramilitares, alguns dos quais aderiram a uma polêmica desmobilização acertada com o governo de Álvaro Uribe. “Hoje, e mediante as mobilizações, temos de aprender a paciência do caminho longo que é o dos resultados sólidos”, continuou Mockus.
Mais sobreviventes uniram-se à marcha nas localidades pelas quais passava: Melgar, Boquerón e Silvania, onde fizeram uma pausa ontem para seguirem até Bogotá. Também se somará a eles o “caminhante pela paz”, o professor Gustavo Moncayo, que reclama a libertação de seu filho, o cabo Pablo Emilio Moncayo, capturado pelas Farc em Patascoy, sul do país, em dezembro de 1007.
Na noite de ontem os caminhantes chegaram ao município de Soacha, a sudoeste de Bogotá, o local onde há 19 anos foi assassinado o candidato presidencial do Partido Liberal, Luis Carlos Galán. Ali a marcha foi recebida por seu filho, o senador liberal e opositor Juan Manuel Galán. Nesse ponto aderiram centenas de outras vítimas e sobreviventes. Pelo menos 200 deles leram no domingo seus testemunhos em uma jornada de vigília que se prolongou até meia-noite, na central Praça de Bolívar, em Bogotá. Os relatos podiam ser colocados em um livro aberto, do qual uma mulher desdentada e de roupa puída disse que não se aproximava “porque as folhas não serão suficientes para escrever meu drama”.
Hoje vão a essa praza gente de todos os pontos da Colômbia. Semelhantes concentrações serão realizadas em cidades de todo o país e até no exterior. “Ali exigiremos novamente a verdade, a justiça, a paz, com terra para os camponeses e democracia para todos na Colômbia”, disse Cepeda. O último informe de Justiça e Paz diz que “entre 1982 e 2005 foram assassinados mais de 1.700 indígenas, 2.550 sindicalistas e aproximadamente cinco mil membros da União Patriótica (partido político desaparecido graças a uma campanha de extermínio). Os paramilitares cometerammais de 3.500 massacres e roubaram mais de seis milhões de hectares de terras”, acrescenta. (IPS/Envolverde)

