Nações Unidas, 06/03/2008 – Os altos níveis de direção da Organização das Nações Unidas constituem um virtual terreno masculino, apesar dos discursos e das resoluções sobre igualdade de gênero. Em 1997, a Assembléia Geral exortou no sentido de dividir-se igualmente, entre homens e mulheres, os postos de tomada de decisões da ONU, e estabeleceu o ano de 2000 como prazo para que isso ocorresse. Oito anos depois, a meta continua distante. Cerca de 600 organizações feministas e de outros setores da sociedade civil atribuíram também à persistente discriminação de gênero no sistema da ONU o fato de a direção executiva do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) estar vaga.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) está acéfalo desde a nomeação em setembro da até então diretora-executiva dessa agência para encabeçar a Comissão Econômica e Social da ONU para a Ásia e o Pacífico (Escap). A agência foi dirigida temporariamente por Joanne Sandler. “Precisamos de uma designação agora”, disse Ana Agostino, coordenadora do Grupo Feminista de Trabalho do Chamado Mundial para a Ação contra a Pobreza (GCAP), que considerou inaceitável o atraso de seis meses. Organizações feministas esperam um anúncio na atual sessão da Comissão da ONU sobre o Status da Mulher, cujas deliberações de duas semanas terminam amanhã. Mas, nada garante que as coisas acontecerão dessa maneira.
As 600 instituições preparam uma carta dirigida ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, reclamando que acelere o processo de designação. O Unifem é a única agência que se preocupa com as mulheres”, disse Agostino à IPS. “E a única que as atende no terreno”, acrescentou. Além disso, a coalizão vai lançar uma campanha eletrônica. “Nós mulheres reclamamos justiça de gênero e responsabilidade na ONU”, ressaltou. Nesta aliança de organizações figuram a Associação de Direitos das Mulheres no Desenvolvimento, Centro para Direitos Produtivos, Alternativas de Desenvolvimento com Mulheres para Uma Nova Era, Coalizão Internacional para a Ação pelo Desenvolvimento, Organização Feminina pelo Meio Ambiente e o Desenvolvimento, South Asia Women’s Watch, Iniciativa Feminina por Justiça de Gênero e Centro Caribenho de Políticas para o Desenvolvimento.
Na carta ao secretário-geral, as signatárias manifestam seu apoio à candidatura da médica Gita Sem, professora de questões de população e saúde internacional na Universidade Harvard (EUA). A carta indica que as organizações “acompanham de perto o processo de designação desde agosto” e que Sem “é a principal candidata por competência, experiência e credibilidade”. O porta-voz da ONU, Farhan Haq, disse à IPS: “Ainda estamos trabalhando na designação”. A presidente da Coalizão Internacional pela Saúde Feminina, Adrienne Germain, disse à IPS que Sem “é uma grande candidata, com uma força sem precedentes”.
“Sua designação demonstrará o compromisso do secretário-geral com a integridade do processo de designações na ONU estabelecido” pela Assembléia Geral em 1997, acrescentou Germain. Por outro lado, a consagração de Sem fortalecerá o que se prevê como um longo debate sobre o trabalho futuro das Nações Unidas sobre igualdade de gênero, explicou. “As mulheres e meninas do mundo merecem uma liderança competente para o Unifem, e precisamos dela agora, não dentro de dois ou três anos”, ressaltou.
Por outro lado, Rachel Mayanja, assessora de Ban para questões de gênero, informou na semana passada que a representação feminina nos níveis hierárquicos e profissionais do Secretariado da ONU em dezembro era virtualmente a mesma do ano anterior. Quase um quarto dos diretores, subsecretários-gerais e secretários-gerais adjuntos (24,7%) eram mulheres, assim como 37,7% dos profissionais. “No ritmo atual, com aumento médio anual de 1,13% entre 1998 e 2006, o equilíbrio de gênero será atingido em 2027”, calculou Mayanja.
A igualdade já foi alcançada no Instituto de Treinamento e Pesquisa (Unitar) e no Fundo das Nações Unidas para a Populaçao (Unfpa). Além disso, faltam três pontos percentuais para chegar a esse objetivo no Unicef e na Comissão Internacional de Serviço Civil. Por outro lado, acrescentou Mayanja, a situação não melhora nos órgãos onde os 102 países da ONU têm representação direta. Dos seis principais comitês da Assembléia Geral, apenas o Econômico e financeiro é presidido por uma mulher. (IPS/Envolverde)

