Bangcoc, 07/03/2008 – O forte encarecimento do arroz nos mercados internacionais é um duro golpe no estômago dos pobres da Ásia. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) informou à população de Timor Leste, 40% da qual vivem com menos de US$ 0,55 por dia, que vai reduzir sua ajuda por causa do aumento de preços. “Somos obrigados a entregar menos comida a Timor Leste, menos arroz do que pensávamos”, disse à IPS Paul Risley, porta-voz para a Ásia do PMA, agência especializada da Organização das Nações Unidas. “Pedimos que busquem substitutos locais”, acrescentou.
O governo de Timor Leste pediu ajuda ao PMA só depois de constatar que não poderia comprar do Vietnã quantidade suficiente de cereal devido à alta dos preços. “ oportunidade de reduzir a alta desnutrição está severamente limitada”, disse Risley. Em Timor Leste 46% das crianças sofrem problemas de desenvolvimento e 42% dos menores de 5 anos têm peso inferior ao mínimo recomendado. O PMA havia se comprometido a alimentar um quinto dos 1,1 milhão de habitantes do país.
O Vietnã, segundo exportador mundial de arroz, comercializa 4,5 milhões de toneladas anuais e é um dos maiores fornecedores do PMA. A Tailândia ocupa o primeiro lugar, com 9,5 milhões de toneladas. Em 2007, o mercado mundial somou cerca de 30 milhões de toneladas. Mas, no ano passado o Vietnã restringiu suas exportações para atender a demanda interna e evitar a fome por causa das inundações nas áreas produtoras, atribuídas por alguns à mudança climática. Dessa forma, os preços subiram no mercado internacional.
Esta foi apenas uma das razões da alta. Também incidiram a queda do dólar, o aumento do petróleo (que eleva o dos fertilizantes e o custo da colheita e do transporte do grão) e a demanda de alimentos por uma China cada vez mais rica. Em 2007, essa potência regional deixou de ser exportadora de arroz e trigo e implementou retenções para atender o mercado interno. Ao mesmo tempo, reduziu as tarifas alfandegárias para importação de grãos. “É muito provável que o preço do arroz baixe este ano, mas não se estabilizará até o final de 2008”, disse Sumiter Broca, do escritório regional para Ásia e Pacifico da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
O aumento do preço em 40% do arroz no ano passado acompanha um encarecimento de todos os alimentos como “cereais, óleos vegetais, carne, açúcar e banana”, acrescentou Broca. “É parte de uma tendência de longo prazo, mas neste momento a alta é preocupante”, afirmou. O aumento do preço do arroz começou em 2002, após seis anos de tendência à baixa dos preços. Mas, ao mesmo tempo, as reservas do grão, cujos principais produtores são Bangladesh, China e Índia, são as menores dos últimos 20 anos.
A produção mundial foi de 420 milhões de toneladas na colheita 2007-2008, que deixou uma reserva de 102 milhões de toneladas, 1% menos do que na temporada 2006/2007. Isto significa que na Ásia, a região com maior produção de arroz, o volume das colheitas aumenta lentamente: em 2007 foi apenas 0,5% superior à de 2006, e uma das razões fundamentais é que o rendimento dos cultivos se estabilizara, disse a FAO. A disponibilidade de terra também limita a possibilidade de aumentar a oferta.
A China, por exemplo, expropriou terras dedicadas ao cultivo de arroz para ampliar as cidades e instalar indústrias, centros comerciais e complexos residenciais. Em uma década, três milhões de hectares fora destinados para outros fins, segundo a revista Rice Today. “Embora exista algum potencial para a expansão da cultura do arroz em outros países, não se estenderá na Ásia muito além da estimativa atual de 136 milhões de hectares”, disse Sushil Pandey, do Instituto Internacional de Pesquisas sobre o Arroz (IRRI). “O aumento na produção de biocombustiveis é outro fator de pressão”, acrescentou.
É por isto que o IRRI e outras instituições propõem reeditar a “revolução verde”, que permitiu, pelo uso de variedades melhoradas de cereal, uso maciço de fertilizantes e mecanização de cultivos e colheitas incrementar a produção de arroz em 42% em 13 anos, entre 1968 e 1981. Mas, ativistas nas comunidades locais não se mostram muito impressionados com esta proposta. “O arroz híbrido precisa de muita água e apenas cresce em áreas irrigadas. Isto deixa marginalizados outros produtores”, alertou Neth Dano, pesquisador do centro de estudos Rede do Terceiro Mundo, com sede em Penang, na Malásia. (IPS/Envolverde)

