CHADE: Apoio europeu ao ditador Idriss Déby

Bruxelas, 28/03/2008 – Europarlamentares de esquerda acusam a União Européia de apoiar o ditador do Chade, Idriss Déby, devido ao envio a esse país africano de uma missão militar com maioria de efetivos de sua metrópole, a França. Em meados deste mês, quase a metade da Eufor, a forma com mais de 3.700 soldados da UE, havia chegado ao Chade. Prevê-se que os demais efetivos estarão ali antes do início da temporada das chuvas, em maio ou junho. Tropas de 14 países da União Européia integram a missão, mas duas das nações mais poderosas do bloco, Alemanha e Grã-Bretanha não enviaram um único soldado.

O predomínio francês na força alimenta desconfianças, pois outra missão oficial separada implementada por Paris denominada Epervier, com quase dois mil efetivos, já está no Chade apoiando o presidente Déby, no poder desde o golpe militar de 1990. no começo deste ano, em um levante na capital, N’Djamena, soldados franceses fizeram a segurança do aeroporto onde helicópteros de guerra repeliam os insurgentes. Esta não foi a primeira vez que Déby foi resgatado pelas Forças Armadas da França, cujas tropas estão postadas o Chade no contexto de um acordo que data da década de 70.

Em 2006, Paris deu apoio logístico a Déby quando o ditador repeliu a insurgência da rebelde Frente Unida para a Democracia. O governo da França também se recusa a criticar publicamente Déby, que ordenou a prisão de opositores, alguns dos quais desapareceram. Na quinta-feira, em sessão do Parlamento Europeu, o esquerdista alemão Tobias Pflüger considerou pouco clara a lógica da Eufor, cujo envio descreveu como “altamente irresponsável”. “O melhor seria suspendê-la agora, para deixar em evidência que não desejamos uma escalada que possa ser atribuída à presença de nossa missão”, afirmou.

Pflüger lamentou que outros Estados da União Européia não questionaram, que, uma vez que o contingente esteja plenamente operacional, mais da metade de seus membros serão franceses. “As pessoas parecem usar luva de veludo e se abster de criticar o víncul da missão com o governo francês”, acrescentou. A europarlamentar verde Marie-Anne Isler-Béguin, da França, advertiu: “Neste momento, basicamente estamos apoiando um ditador”.

Mas, Torben Brylle, diplomata que representa a UE no Chade e no vizinho Sudão, discorda dos cépticos. Nesse sentido, garantiu que lidera gestões intensas para explicar aos líderes comunitários do Chade os objetivos da Eufor. “Não somos atores na luta interna de poder”, disse Brylle à IPS. A Eufor opera sob um mandato do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, recordou. “Vejo uma impressão generalizada de que a contribuição positiva da Eufor é entendida. Não estamos ali para substituir as operações humanitárias, mas para criar um contexto seguro para proteger a população civil”, ressaltou.

Oficialmente, a Eufor é parte da resposta da Europa ao persistente conflito na região sudanesa de Darfur, de predomínio negro. A maioria dos refugiados que fogem do conflito nessa área cruzam a porosa fronteira para o Chade. Cerca de 25 mil sudaneses já estão nesse país, devido à violência atribuída às milícias árabes janjaweed (homens à cavalo) que, segundo a maioria das versões, respondem ao regime do Sudão, controlado por islâmicos árabes.

Para Brylle, está “bastante claro que a situação em Darfur não melhorou”, em parte pelo recrudescimento dos ataques contra trabalhadores humanitários que desde o começo deste ano somam 56 e nos quais morreram três socorristas. A “lúgubre e realista avaliação” é que desde outubro passado “não se desenvolveu um processo político” de diálogo, disse Brylle. Neste mês começaram em Sirte, na Líbia, negociações entre os grupos que lutam em Darfur. “Não existe uma solução militar para o conflito de Darfur. A única maneira sustentável de solucioná-lo é um acordo político. Infelizmente, a as partes optam por uma solução militar”, acrescentou.

A socialista portuguesa Ana Gomes disse não vê o Conselho de Ministros da UE, do qual participam os 27 governos do bloco, “compreender realmente que UE está em jogo” em Darfur. De todo modo, Discordou das críticas à Eufor. A missão ser “muito francesa é culpa daqueles países que não enviaram tropas”, afirmou a parlamentar. Já o conservador alemão Michael Gahler sugeriu que a presença francesa o Chade pode por em perigo a imparcialidade nominal da Eufor. “A pergunta é? Os habitantes do Chade podem distinguir entre os rostos brancos das tropas neutras e as que estão ali apoiando o governo?”, disse. (IPS/Envolverde)

David Cronin

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