MUDANÇA CLIMÁTICA: Gore faz campanha por ações concretas

Washington, 08/04/2008 – Com o antecedente de ter ganho o Oscar pelo documentário “Uma verdade inconveniente” e o prêmio Nobel da Paz 2007, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore lançou uma campanha na mídia de US$ 300 milhões para impulsionar ações concretas contra o aquecimento global. A iniciativa inclui anúncios publicitários nos programas de maior audiência da televisão, nos quais aparecerão personalidades divergentes ideologicamente mas que se unirão para enfatizar a ameaça representada pela mudança climática e a necessidade de adotar medidas severas para reduzir drasticamente as emissões de gases causadores do efeito estufa.

Entre os “estranhos casais” que aparecerão nesses anúncios estão a atual presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, do opositor Partido Democrata, e um dos apóstolos da “revolução conservadora”, Newt Gingrich, do Partido Republicano, que ocupou esse cargo entre 1995 e 1999. O tele-evangelizador Pat Robertson, um dos porta-vozes da direita cristã, aparecerá junto com o líder religioso afro-norte-americano Al Sharpton, para mostrar que a ameaça da mudança climática é tão séria que pode unir até os que discordam praticamente de qualquer tema que se possa imaginar.

A iniciativa de Gore e sua Aliança para a Proteção do Clima busca colocar a questão ambiental como um dos principais temas na campanha para as eleições presidenciais e legislativas de novembro, dominada até agora pela crise econômica, o seguro para a saúde, Iraque e a “guerra contra o terrorismo”. Os três principais aspirantes à presidência prometeram deixar de lado a negativa do presidente George W. Bush em ratificar o Protocolo de Kyoto – que fixou metas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa – e promover leis que obriguem a indústria norte-americana a cumprir esse objetivo. Bush argumentou que o custo para à economia seria muito alto.

Por outro lado, o senador John McCain, quase certo de ser o candidato republicano, defende um projeto de lei que propõe redução de emissões em 60% a respeito dos níveis de 1990, até 2050. A senadora Hillary Rodham Clinton e seu colega Barack Obama, que ainda lutam para saber quem representará os democratas, propuseram uma redução maior nesse período, de 80%. Embora Gore tenha dito que espera uma mudança na política ambiental dos Estados Unidos, a campanha publicitária que lançou reflete seu ponto de vista de que os funcionários eleitos pelo voto apenas adotarão severas medidas se forem pressionados pela opinião pública.

“Podemos resolver a crise climática, mas exigirá uma mudança importante na atitude das pessoas e seu compromisso ativo. As tecnologias existem, mas nossos líderes não têm ainda a vontade política para adotar as enérgicas medidas que requerem”, disse Gore. “Quando os políticos ouvirem um pedido claro de mudança feito pelo público, então escutarão”, acrescentou. As primeiras peças publicitárias começaram a ser veiculadas na quarta-feira. Em um deles aparece o ator William Macy, que comparou o desafio da mudança climática à luta para derrotar os nazistas e o fascismo na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e os esforços para por fim à segregação e discriminação racial nos Estados Unidos. “Não esperamos que outros desembarquem na Normandia”, disse em referência à invasão da França ocupada pelos alemães em junho de 1944. “Não esperamos que outros garantam os direitos civis ou enviem um homem à Lua. Não podemos esperar que outros resolvam a crise climática. Devemos agir agora”, acrescentou.

A campanha conta com investimento de US$ 300 milhões nos próximos três anos. Várias fundações, e o próprio Gore, se comprometeram a fornecer a metade dessa quantia. O ex-vice-presidente doou os US$ 750 mil que recebeu ao ganhar o Nobel e todo o lucro obtido com o documentário “Uma verdade inconveniente”, que mostra os riscos da mudança climática e que em 2006 ganhou o Oscar. O prêmio Nobel da Paz, que ganhou em 2007 juntamente com o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, um grupo internacional integrado por milhares de cientistas que alertaram sobre a rapidez e intensidade do aquecimento global, deu a Gore um status sem precedentes em sua carreira política.

Muitos democratas lamentaram que não aproveitasse a oportunidade para tentar a candidatura presidencial do partido para as eleições de novembro próximo. Ao contrário, Gore se apegou aos seus esforços para mobilizar a consciência pública sobre a mudança climática e gerar alianças, especialmente com líderes religiosos, para ter acesso a setores sociais-chave que permitam exercer pressão para que sejam adotadas medidas para reduzir as emissões, em níveis nacional e internacional. Gore foi particularmente bem sucedido em persuadir líderes cristãos evangélicos, que tradicionalmente foram reticentes em relação ao ativismo ambiental, para que reavaliassem sua posição.

A campanha também busca recrutar 10 milhões de voluntários dispostos a dedicar tempo e recursos à causa ambientalista. Já foram concretizadas alianças com organizações não-governamentais e sindicatos, como o poderoso United Steelworkers, dos trabalhadores da indústria siderúrgica. Mas, alguns especialistas em opinião pública consideram que investimento de US$ 100 milhões anuais em publicidade não terá grande impacto. “Creio que o orçamento deveria ser 10 vezes maior”, disse ao jornal The New York Times John Murrey, professor de mercado da Universidade de Iowa. “Coca-Cola e Pepsi gastam mais de US$ 1 bilhão para promover refrigerantes. Cem milhões ao ano para mudar nosso estilo de vida parece bastante pouco”, acrescentou.

Porém, os organizadores fazem referência a duas campanhas de sucesso de serviço público nos últimos 40 anos, uma para que não se jogasse papel ou lixo na via pública, outra contra o uso de drogas, para fundamentarem sua esperança de que os filmes publicitários serão suficientemente lembrados para terem impacto. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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