Santiago, 12/05/2008 – (Tierramérica) Amamentação materna, alimentos enriquecidos e controle do crescimento são armas básicas para enfrentar uma possível onda de desnutrição infantil, alertam especialistas. A desnutrição infantil na América Latina e no Caribe se agravará por causa da carestia dos alimentos, apesar de a região produzir muito mais comida do que a que consome, prevêem técnicos e funcionários. “Na erradicação da desnutrição infantil, se joga o futuro dos países. O grande drama é a mãe grávida e a criança menor de três anos. É aí onde se fazem necessários todos os esforços. O resto é perfumaria”, disse ao Terramérica o médico Eduardo Atalah, subdiretor do departamento de Nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile.
A desnutrição global (déficit de peso para a idade) e em particular a desnutrição crônica (déficit de altura para a idade) deixam seqüelas físicas e intelectuais irreversíveis na infância. A alta de preços de produtos básicos, como milho, trigo, arroz e oleaginosas, supera em alguns casos os 100% e constitui a pior crise alimentar dos últimos anos para a América Latina e o mundo, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA). Sete por cento dos menores de cinco anos sofrem desnutrição global e 16% desnutrição crônica, o equivalente a quase nove milhões de meninas e meninos da região, conforme estudos divulgados em 2006. Contudo, esta situação pode piorar de forma drástica.
A desnutrição crônica está prestes a afetar 32% dos menores de cinco anos, cerca de 18 milhões de crianças, enquanto 50% dos menores de dois anos sofrem de anemia por falta de ferro, assegura a declaração final da conferência “Rumo à erradicação da desnutrição infantil na América Latina e no Caribe”, realizada nos dias 5 e 6 deste mês em Santiago, organizada pelo governo chileno e o PMA. Para combatê-la, os especialistas concordam que é necessário um tratamento “focado” e “multissetorial”: além das intervenções diretas na nutrição materno-infantil são necessárias melhorias em educação, moradia e serviços de água potável.
A resposta dos governos deve ser múltipla: desde estimular a produção e a comercialização transparente dos alimentos até estabelecer mecanismos de proteção social, como as transferências monetárias condicionadas, recomendam os técnicos. A experiência do Chile, cuja porcentagem de desnutrição crônica é de 1,3%, indica que é possível erradicar este problema com políticas sustentadas no tempo, que não serão abandonadas durante crises políticas nem econômicas.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) disse que entre dez e 15 milhões de latino-americanos poderiam cair na pobreza devido à inflação dos alimentos. “É provável que aumente a desnutrição naqueles países que não contarem com fortes redes de proteção social”, disse ao Terramérica Juan Rivera, do Instituto Nacional de Saúde Pública do México. Rivera foi um dos três especialistas latino-americanos que participaram de uma pesquisa sobre desnutrição infantil no mundo, cujos resultados foram publicados em 2008 na revista médica britânica The Lancet.
No estudo foram identificadas três grandes intervenções de sucesso a um custo não tão alto. A primeira é a promoção da amamentação materna exclusiva até os seis meses de vida e complementar a partir daí. Além disso, se destaca a entrega de alimentos enriquecidos com micronutrientes (como ferro, zinco e ácido fólico) a crianças entre seis meses e dois anos, e de suplementos de vitaminas A e de zinco em cápsulas. Para Atalah, também são indispensáveis os programas que “controlam o crescimento e o desenvolvimento dos menores desde a gestação até os cinco anos: as instituições públicas devem pesar e medir regularmente as crianças, avaliar seu estado nutricional e informar as mães para que a partir delas ocorra uma mudança”.
Atalah é um dos autores do estudo “Análise das melhores práticas recentes na América Latina em políticas de nutrição para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, encomendado pela Cepal e cuja versão preliminar foi divulgada na conferência de Santiago. A crise dos alimentos pode afastar a possibilidade de se alcançar o primeiro desses objetivos: reduzir pela metade a porcentagem de indigência e de fome até 2015. Esses objetivos foram estabelecidos pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 2000, tomando como referência os dados de 1990.
O êxito desta meta supõe diminuir pela metade a proporção de menores de cinco anos com desnutrição global, apesar de, por sua maior prevalência e gravidade, os países da região utilizarem como indicador de fome a desnutrição crônica. Isto é imperativo ético para a região, já que sua produção alimentar supera em 30% as necessidades energéticas de todos os seus habitantes. Além disto, em 2008 a região completa seis anos de crescimento econômico consecutivo, o que deixou ganhos extraordinários em vários países.
Segundo Atalah, na maioria das nações não existe informação atualizada e representativa para avaliar com exatidão o grau de avanço para a meta de desnutrição crônica, embora as tendências indiquem que algumas poderão cumpri-la e outras não. A Guatemala registra os piores índices, próximos de 50%. Pela desnutrição infantil se reduz a produtividade nacional devido à baixa escolaridade e à menor quantidade de população em idade de trabalhar, devido a uma mortalidade elevada, sem contar os custos adicionais em saúde e educação.
Um estudo publicado pela Cepal e pelo PMA no ano passado revelou que, só em 2004, a desnutrição infantil custou US$ 6,7 bilhões às economias da América Central e da República Dominicana, o equivalente a 6,4% do produto interno bruto desse conjunto de nações.
* A autora é correspondente da IPS.

