INFÂNCIA: Mais crianças-soldados na Ásia

Nações Unidas, 16/05/2008 – O problema das crianças-soldados – prevalente há muito tempo em países africanos como República Democrática do Congo, Somália, Sudão e Uganda – também se arraiga agora na Ásia, especificamente no Afeganistão, Birmânia, Filipinas, Nepal e Sri Lanka. A Organização das Nações Unidas disse que dos 250 mil meninos e meninas soldados que se calcula exista em todo o mundo, uma considerável proporção está na Ásia meridional e no sudeste.

Quais são as principais causas do recrutamento militar forçado na Ásia? Está guiado pela ideologia ou pela pobreza? Ou por ambas? “Enquanto a ideologia e a pobreza têm um papel de diferentes proporções, também há uma terceira dimensão para este problema”, disse o medico Vinya Ariyaratne, diretor-executivo do Movimento Sarvodaya Shramadana, uma das maiores organizações de beneficência do Sri Lanka, que defende os princípios da autoajuda, a não-violência e a paz em um pais devastado pelas lutas. Em termos ideológicos, segundo Ariyaratne, as organizações insurgentes podem exercer o controle sobre toda uma geração de crianças, mas também sobre outra geração: a dos pais que invariavelmente ficam ligados a estes grupos por quererem proteger seus filhos. Entrevistado pela IPS, Ariyaratne disse que o recrutamento de meninos e meninas pode ser considerado um exemplo que representa a dinâmica do poder entre adultos e crianças. Ariyaratne, que também é coordenador regional para a Ásia meridional da Rede Global de Religiões, disse que o recrutamento militar inclusive pode ter repercussões mais graves nas vidas das crianças do que outras formas de abusos.

Os adultos que exercem poder e recrutam crianças fundamentam sua autoridade no uso da violência, e os menores não têm poder para resistir, temendo por suas vidas e de seus familiares. “Freqüentemente, as crianças são forçadas a se submeterem a este uso da força e não estão em situação de poder resistir sem ficarem sujeitas a ações de represália”, disse Ariyaratne. A situação se torna pior quando as instituições que deveriam protegê-las também entram em colapso, com uma perda de confiança pública nos sistemas estatais, acrescentou.

IPS – Que papel podem ter a religião e a ética na hora de ajudar a aliviar a situação das crianças no mundo e, particularmente, no Sri Lanka? Que papel teve Sarvodaya?

Vinya Ariyaratne – A pobreza externa das crianças é visível e óbvia, e pode ser atendida satisfazendo suas necessidades físicas. Mas, o mais grave é que uma proporção significativa de meninos e meninas no Sri Lnaka sofrem de pobreza emocional, que é oculta e invisível, e muito mais séria. Estas crianças não têm nenhum propósito ou direção na vida, vivem com muitas frustrações, autocompaixao, indignação e ódio de sua própria situação. Mas, não mostram abertamente nenhum sinal de que estas emoções negativas, que não estarão ocultas para sempre. Um dia, estas emoções reprimidas vão explodir.

Em geral nossas crianças não têm modelos adultos. Embora o pai esteja vivo e seja parte do lar, sua presença não é sentida pelas crianças, especialmente os homens. Há uma difundida violência e alcoolismo. Eles desejam ter figuras adultas que os guiem. Como muitas crianças em todo o mundo submetidas a várias formas de abusos, nossas crianças também demonstram uma tremenda coragem. Têm a capacidade de sair de situações desafiadoras. Como podemos ajudar uma criança a crescer em uma situação desta natureza com equanimidade? É aqui onde a espiritualidade, a religião e a ética podem ter um grande papel.

Sarvodaya adota um enfoque integrado diante do desenvolvimento e bem-estar da criança. Temos programas de meditação para que mulheres grávidas e seus maridos estabeleçam um vínculo emocional e espiritual com o feto. Temos programas para meninos e meninas em idade pré-escolar. Facilitamos a administração de aproximadamente cinco mil centros de desenvolvimento da primeira infância em todo o país. Os valores espirituais, morais e culturais são uma parte integral do desenvolvimento psicosocial e físico. A criança é incentivada a praticar os ensinamentos fundamentais das religiões às quais pertencem.

E através da GNRC podemos produzir livros de historias para as crianças, organizar acampamentos infantis para levar compreensão e harmonia entre as que pertencem a vários grupos religiosos e étnicos. Também trabalhamos co adultos. E os adultos que vão ajudar as crianças deveriam nutrir a “fortaleza emocional”, já que a situação é extremamente delicada e séria. Temos de ajudar as crianças a aprenderem a florescer como uma lótus, sem ficar presa na lama.

IPS – Qual a importância do fórum do GNRC que acontecerá entre 24 e 26 deste mês na cidade japonesa de Hiroxima? Atuará como um chamado para que a comunidade internacional faça mais pelas crianças em todo o mundo?

Vinya Ariyaratne – Creio fortemente que esse fórum é um acontecimento muito significativo para reunir grupos que se dedicam a trabalhar com e para as crianças com uma forte base espiritual. Quando atuamos, seja como comunidade nacional ou internacional, tentamos fazer mais em termos infantis em todo o mundo. As crianças não esperam caridade dos adultos. O desafio é equipar nossos corações e mentes adultas para entender as esperanças e aspirações, dores e sofrimento, e as necessidades delas a partir de sua própria perspectiva. Não oferecer o que os adultos pensam ser o melhor para elas.

Para isto, necessitamos nos despojar de nossas egoístas atitudes paternalistas e patriarcais e sermos suficientemente humildes para permitir que haja algum espaço em nossos corações e mentes diante dos verdadeiros problemas que afetam as crianças. Trabalhar co elas é uma prova formidável para os adultos examinarem e avaliarem sua própria capacidade de amar, perdoar, ter compaixão e ser considerado.

Os adultos não deveriam funcionar como canais de distribuição de serviços. O que fizermos deveria contribuir para criar uma relação profunda, significativa e confiável entre adultos e crianças. Uma vez que os adultos passem por esta transformação dentro de suas próprias mentes e corações, haverá tantas novas avenidas para atuar de um modo mais efetivo para aliviar o sofrimento das crianças e lhes dar esperanças para o futuro.

Hiroxima oferecerá lições, histórias de sucesso e esperança. Em minha opinião, Hiroxima será um marco em fazer que isto aconteça, o que dará a todo o mundo uma nova mensagem para nos preocuparmos com nossas crianças. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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