Rio de Janeiro, 28/05/2008 – Um simples desequilíbrio entre oferta e demanda agrícola se resolve em menos de um ano, o suficiente para semear e colher grãos.
Os fertilizantes mais consumidos no mundo, os nitrogenados, seguem a alta do petróleo, pois sua matéria-prima são os hidrocarbono, especialmente o gás natural. De 155,4 milhões de toneladas consumidas dos três principais elementos dos adubos no ano agrícola 2005/2006 em todo o mundo (nitrogênio, fósforo e potássio) 60% foram nitrogênio, segundo a Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes. Se somar-se outros insumos, como pesticidas, e o combustível para transporte e as máquinas agrícolas, a dependência do petróleo por parte do agronegócio não permite expectativas otimistas.
O Brasil, por suas extensas terras disponíveis, tem um potencial “monumental” para ampliar sua produção de alimentos, mas está limitado pelo “gargalo dos fertilizantes”, admitiu Rodrigues. Dois terços do adubo consumido no País são importados, e os solos da área de savana que ocupa grande parte da região central nacional, o cerrado, onde mais se expande o cultivo de grãos e cana-de-açúcar, necessita muita fertilização, especialmente de potássio. O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes, superado apenas por China, Índia e Estados Unidos. Por isso deve desenvolver outras formas e fontes de fertilização, como o vinhoto de cana que tem muito potássio, e buscar jazidas nacionais dos minerais necessários, recomendou o ex-ministro.
Reduzir o consumo de agroquímicos é uma alternativa prioritária da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), rede estatal de 41 centros distribuídos pelo País, que gerou conhecimento e tecnologias agrícolas decisivas para o grande salto produtivo nacional das duas últimas décadas. A produção de soja brasileira, que se aproxima dos 60 milhões de toneladas anuais, “já não gasta um quilo sequer de nitrogênio”, destacou Segundo Urtiaga, pesquisador do centro de Agrobiologia da Embrapa, onde se desenvolveu o uso de bactérias inoculadas em sementes para aumentar a capacidade das leguminosas de fixar o nitrogênio do ar.
Essa técnica permite ao Brasil economizar US$ 5 bilhões por ano, “seis vezes o que o País investe em pesquisa agrícola”, disse Urtiaga à IPS. Além disso, melhora a produtividade e também o meio ambiente, já que, ao contrário do que costuma acontecer com o adubo químico, não gera excesso de nitrogênio no solo que provoca emissões de óxido nitroso, um gás 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono em sua capacidade de agravar o efeito estufa, acrescentou. A fixação biológica do nitrogênio já se aplica também na cana-de-açúcar, onde já se atende entre 60% e 70% de sua demanda, mas, em poucas variedades, informou o pesquisador. Uma alternativa é “alternar a plantação de cana com a da soja para enriquecer o solo”, disse.
Em razão dessa e outras vantagens da agricultura tropical, o Brasil consome menos nitrogênio do que fósforo e potássio, em contraste com outras potências agrícolas. Na China, por exemplo, os fertilizantes nitrogenados, muito contaminantes, correspondem a 64% do total contra apenas 26% do Brasil. Mas, uma grande expansão agrícola não se consegue sem custos. A produção brasileira de grãos cresceu mais que o dobro desde 1990, com uma pequena ampliação da área cultivada, graças a um aumento de 178% no consumo de fertilizantes, segundo dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda).
Agora, cooperativas e associações de agricultores reclamam algum mecanismo para atenuar o aumento de preços, como condição para atender a crescente demanda por alimentos. O governo pretende, sobretudo, aumentar rapidamente a produção de trigo, para reduzir a dependência das importações que representam dois terços do consumo nacional de 12 milhões de toneladas por ano. Mas essas metas se chocam com os altos preços dos fertilizantes, que, em média, aumentaram 73% em moeda nacional nos últimos 12 meses, segundo o instituto oficial de estatísticas. Esse insumo já representa mais de 40% dos custos de produção de alguns grãos, o dobro de alguns anos atrás, afirmam os agricultores.
O governo poderia, por exemplo, eliminar um tributo sobre o transporte marítimo, de 25%, para reduzir o custo de importação dos fertilizantes, disse à IPS Torvalo Marzola Filho, vice-presidente da Anda. A situação se agrava porque alguns países produtores estão retendo fertilizantes. A China decidiu gravar entre 100% e 135% suas exportações destes insumos, disse Marzola. O Brasil apenas continua importando esses produtos porque os preços dos alimentos, também muito elevados, ainda compensam os custos adicionais, concluiu. (IPS/Envolverde)


