POPULAÇÃO-CHINA: Terremoto sacode a política do filho único

Pequim, 02/06/2008 – Os olhos amendoados e o rosto infantil de uma beleza comovedora recordam Hu Die, diva do cinema de Xangai dos anos 30. Mas o sofrimento do homem que se aferra à fotografia em preto e branco, rodeada por uma faixa de luto, remete à tragédia que hoje a China sofre. Bi Yuexing era bonita, mas não viveu para florescer. Esta aluna da sexta série foi uma entre as 127 crianças que morreram quando desmoronaram as paredes de uma escola, quase no mesmo instante em que começou o terremoto na província de Sichuna, no centro da China, na tarde do último dia 12. Com as fotos emolduradas de seus filhos mortos na Escola Primária Número 2 Fuxin, na cidade de Mianzhu, os pais organizaram vigílias e orações nos escombros do centro de ensino.

Nestas ocasiões criticaram as autoridades locais pela má qualidade da construção e pediram justiça. No domingo, a dor deu lugar à raiva. Os pais se indignaram diante de um funcionário do município de Mianzhu que chegou a se ajoelhar suplicando para confiarem a investigação às autoridades da cidade. A seguir, caminharam para se reunir com autoridades do distrito de Deyang, onde fica Mianzhu. “Precisamos que o governo faça justiça”, disse ao canal de notícias Southern Metropolis News Xu Jun, um dos pais.

O desafio aumenta para as autoridades diante da incomum queda para a desobediência civil, em um país que não vê com bons olhos os protestos. Esta inédita situação deixa clara a dimensão da perda sofrida por milhares de pais nessa cidade e em outras atingidas pelo terremoto. Mais de 10 mil pessoas morreram em Mianzhu. As autoridades informaram que pelo menos duas mil crianças, professores e professoras morreram na queda de 11 escolas primárias. Ontem, as autoridades nacionais aumentaram para 68 mil o número de mortos no terremoto de oito graus na escala Richter, o pior ocorrido na China em 50 anos.

Muitos pais perderam seu único filho. Há 30 anos, a China mantém uma rígida política de controle de natalidade que permite aos casais terem apenas um filho, impondo duras penas a quem viola a lei. Diante da quantidade de famílias que perderam seus entes queridos, as autoridades se apressaram a procurar acalmar os ânimos com ao anúncio de flexibilização dessa política nos casos de pais de filho único morto ou que ficou inválido por causa do terremoto. No começo desta semana, a comissão de população e família de Chengdu, capital da província de Sichuan, anunciou que as famílias implicadas podem pedir um certificado que as habilite a ter outro filho.

A nova norma também prevê a destinação anual de 600 yuan (US$ 85) para os pais com mais de 50 anos cujo único filho morreu ou tenha ficado incapacitado. Além disso, as penas aplicadas às famílias que violaram a norma do filho único serão suspensas se este ficou ferido ou incapacitado ou se sua casa sofreu danos graves. “A mudança é uma medida considerada com as grandes perdas sofridas pelas pessoas da área do terremoto”, disse ao China Business News um funcionário da comissão que pediu para não ser identificado. “Temos que pensar nas pessoas e em como reconstruir as famílias”, disse.

Pode-se dizer que esta é a primeira vez que o governo flexibiliza a política de filho único, muito questionada por razões humanitárias. As leis existentes prevêem exceções apenas se os pais pertencem a um grupo étnico minoritário ou residem no meio rural e seu primeiro filho é menina. Dede 2000, os casais que moram em cidades podem pedir permissão para ter um segundo filho se ambos foram filhos únicos. O governo conta com uma equipe de propaganda dedicada unicamente a promover a política do filho único como forma de melhorar a qualidade de vida, a educação e a saúde da nação.

Nos últimos anos, essa política foi muito questionada por exarcebar o envelhecimento da população e criar um perigoso desequilíbrio de sexos. Na China rural, onde está arraigada a preferência tradicional pelo filho varão, que pode trabalhar a terra e cuidar da família, muitas famílias optaram por abortar a gestação de fetos de sexo feminino, com a esperança de que o próximo seja do masculino. Funcionários desejosos de cumprir a cota são acusados de obrigar as mulheres a solicitarem um aborto ou a esterilização para manter baixa a taxa de natalidade.

A dureza com que as autoridades obrigam a cumprir a política do filho único provocou violentas manifestações. As últimas foram na província autônoma de Guangxi, onde milhares de agricultores se rebelaram contra as multas que, segundo alegaram, foram impostas de forma arbitrária e brutal. Em Sichuan, onde a força mortal da natu5reza matou milhares de crianças, a tragédia parece ampliada pelas restrições que a política estatal impõe às famílias. Nas cidades mais atingidas pelo terremoto como Mianzhu e Beichuan, a maioria dos pais é de trabalhadores imigrantes e agricultores que trabalham duro para melhorar o futuro de seu único filho. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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