Bonn, 02/06/2008 – Políticas econômicas que descuidam da biodiversidade causam aos serviços proporcionados pela natureza à população mundial perdas que chegam a US$ 78 bilhões, segundo um informe da União Européia e do governo alemão. Uma versão preliminar do estudo intitulado “A economia dos ecossistemas e a biodiversidade” foi apresentada em Bonn, na Alemanha, onde na sexta-feira (30) terminou a IX Conferência das Partes do Convênio das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (COP9). A reunião, que começou no último dia 19, contou com a participação de mais de seis mil representantes de 70 países.
Em 2006, outro informe oficial, o Stern Review, realizado pelo Tesouro da Grã-Bretanha, alertou empresas e governos que combater a mudança climática custaria muito menos do que ignorá-la. O informe divulgado na quinta-feira situa o dano ecológico causado anualmente às áreas terrestres do planeta em US$ 78 bilhões. “Com o atual ritmo de perda de biodiversidade, o mundo em desenvolvimento nunca ficará em dia com o mundo industrializado”, disse à IPS Pavan Sukhdev, principal autor do informe e diretor de mercados globais da filial indiana do Deutsche Bank. “A pobreza não pode ser eliminada com a contínua queda dos serviços dos ecossistemas”, acrescentou.
O não-governamental Fundo Mundial para a Natureza (WWF) disse que o informe de Sukhdev constitui “um reconhecimento devido há muito tempo à biodiversidade como chave para o desenvolvimento”. A biodiversidade é o que permite o acesso dos seres humanos a alimentos, fibras, água e ar limpos, mas isso a isso não é atribuído valor pelo atual sistema econômico, segundo o informe. Como conseqüência, aos operadores econômicos resulta mais lucrativo destruir esses serviços em troca de ganhos de curto prazo. Se essa atitude persistir, até 2050 se terá perdido US$ 7,5 milhões de quilômetros quadrados de terras virgens, superfície equivalente à da Austrália.
Em não mais de uma geração, 60% dos arrecifes de coral terão desaparecido, devastando uma indústria pesqueira eu varia de US$ 80 bilhões a US$100 bilhões e eliminando a principal fonte de proteína para quase um bilhão de pessoas, disse Sukhdev aos ministros reunidos no plenário da conferência. Provavelmente essas perdas totalizarão bilhões de dólares, acrescentou. ‘Ainda nos esforçamos por estimar o valor da natureza. Estamos descobrindo que não atribuir valores a ela é uma causa subjacente da degradação dos ecossistemas e da perda de biodiversidade”, disse Sukhdev.
O estudo do Convênio é a maior avaliação já feita do impacto econômico dos danos ecológicos. Seus autores concluíram que as populações e os países mais pobres são os que dependem mais diretamente dos serviços da natureza e que, portanto, são os mais afetados pela contínua perda de biodiversidade. O Haiti é um exemplo da importância da biodiversidade. Este país perdeu boa parte da camada superior de seu solo pela erosão resultante do corte de praticamente todas suas florestas à procura de combustível. A nação caribenha sofre devastadoras inundações porque a água carece de barreiras que a contenham. Noventa por cento das crianças haitianas sofrem doenças originadas na água e têm parasitas intestinais porque não há florestas ou áreas ribeirinhas para limpá-la, disse Sukhdev.
“Os Objetivos de Desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio não podem ser atingidos sem frear e reverter as perdas de biodiversidade”, ressaltou o especialista. Essas metas, definidas em 2000 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem pobreza e fome em relação a 1990; garantir a educação primária universal; promover a igualdade de gênero; reduzir a mortalidade infantil e a materna; combater a Aids, a malaria e outras enfermidades; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento, tudo isto tendo 2015 como data limite.
Há mais de 40 anos alguns economistas sabiam que a medição tradicional do produto interno bruto e outros indicadores de riqueza ignoram o valor dos serviços proporcionados pela natureza. Este sistema perverso não considera desastres devastadores como o furacão Katrina, de agosto de 2005, e o tsunami asiático de dezembro de 2004. a atenção dos políticos e empresários quase exclusivamente ao PIB como medida de riqueza “nos custa muito em termos de crescimento não sustentável, ecossistemas degradados, biodiversidade perdida e, inclusive, bem-estar humano, especialmente os países em desenvolvimento”, diz o informe.
Mas, poucos economistas se dedicaram a tarefa altamente complexa e uma armadilha ética de dar valor em dólares à natureza. Segundo Sukhdev, não se trata de reduzir a simples dólares e centavos, pois “tem importantes valores culturais e espirituais”. É mais um esforço para dar um valor econômico aos serviços da natureza para levar um pouco de realidade à atual ficção econômica que rege o mundo, explicou o especialista.
A segunda fase do informe de Sukhdev trará recomendações detalhadas sobre como reformar políticas e modelos econômicos, com o objetivo de preservar os serviços da natureza para as gerações atuais e futuras. Esses capítulos serão apresentados na X Conferência das Partes do Convênio das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (COP10) que acontecerá na cidade japonesa de Nagoya, em 2010.
“Necesitamos reformar urgentemente nosso sistema econômico”, disse ao plenário da reunião o ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Sigmar Gabriel. Se o sistema continuar recompensando os que destroem a natureza, a condenará, ressaltou. É preciso desenvolver instrumentos financeiros para que a preservação ecológica tenha um beneficio econômico. Esses mecanismos devem figurar entre as prioridades da agenda política. “A natureza é muito mais do que economia, mas necessitamos fazer isto também”, disse o ministro. (IPS/Envolverde)

