Bruxelas, 10/06/2008 – É possível apostar tranquilamente que não haverá choro em, massa quando o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, se reunir hoje com seus pares da União Européia, na última cúpula de seu mandato.
Serão analisados alguns temas conflitivos, com a proibição da UE às importações de suínos dos Estados Unidos, que já dura 11 anos, e o fato de Washington permitir a cidadãos de alguns países europeus entrar em seu território sem visto e exigi-lo de outros. Mas os assuntos mais delicados, vinculados aos direitos civis e políticos, serão evitados. O eurodeputado esquerdista grego Dimitros papadimoulis, pediu urgência à UE no sentido de pressionar Washington para que feche sua prisão em Guantânamo (Cuba) e acabe com os programas secretos de detenção, seqüestro e tortura da Agência Central de Inteligência (CIA), desenvolvidos supostamente com a colaboração de vários governos europeus.
“O Parlamento Europeu quer o fechamento de Guantânamo e das prisões secretas’, disse em um debate com representantes de governos do bloco e da Comissão Européia, braço executivo da UE. “Vão dizer algo sobre isso aos norte-americanos?”, perguntou Papadimoulis. Nem a Comissão Européia, nem, o governo da Eslovênia, atualmente na presidência rotativa do bloco, deram uma resposta. Emilou MacLean, advogado do não-governamental Centro para os Direitos Constitucionais (CCR), com sede em Nova York, disse que a iminente partida de Bush da Casa Branca não é pretexto para a União Européia manter sua reticência em discutir a questão de Guantânamo. Um informe do CCR destaca que interrogadores de vários países receberam permissão para ter acesso à prisão, onde ameaçaram presos. Entre essas nações figuravam China, Jordânia, Líbia, Tajiquistão, Tunis e Uzbequistão.
O departamento de Estado norte-americano criticou todas elas por violar os direitos humanos. Acredita-se que a segurança pessoal de aproximadamente 50 presos em Guantânamo estaria em perigo caso fossem enviados de volta aos seus países de origem. Ativistas pelos direitos humanos reclamam de governos europeus a concessão de refúgio a alguns. Vários já estão em condições de serem libertados, embora permaneçam sob custodia. “É fundamental que a comunidade internacional se pronuncie claramente”, disse McLean. “Além de palavras, são necessárias ações para fechar Guantânamo. Nos encontramos em um ponto crítico, na finalização de um ciclo político, e existe a oportunidade de corrigir os males que foram criados. Mas, isso somente acontecerá se forem tomadas medidas ativas”, ressaltou.
A mudança climática, uma fonte de conflitos entre Washington e União Européia, também estará na agenda da cúpula. Os Estados Unidos se negam a ratificar o Protocolo de Kyoto, que impõe aos países ricos metas de redução obrigatórias nas emissões de gases causadores do efeito estufa, ao qual a maioria dos cientistas atribui o atual ciclo de aquecimento global. Os europeus esperam convencer Washington a adotar uma atitude mais construtiva nos esforços para redigir um texto que os substitua, que deveriam culminar em um acordo no próximo ano. Para esse momento, o próximo presidente norte-americano, que assumirá em 20 de janeiro de 2009, terá tido tempo para definir suas políticas.
Os dois principais candidatos, John McCain, do oficialista Partido Republica, e Barack Obama, do opositor Partido Democrata, disseram considerar a mudança climática um problema urgente, a contrário de Bush, estreitamente ligado à indústria do petróleo. Stephan Singer, do não-governamental Fundo Mundial para a Natureza, não espera nenhum resultado concreto das discussões ambientais da cúpula. “A UE faria melhor em não investir muitos recursos em negociações com um governo que está chegado ao fim. O debate real será com o novo presidente norte-americano”, afirmou.
Singer acredita que a UE foi “se deu bem” pela falta de vontade de Bush para enfrentar os assuntos ambientais, já que isto permitiu ao bloco se converter em “líder auto-proclamado” dos esforços para combater a mudança climática. “Ficaria feliz se os Estados Unidos mostrassem uma liderança real e força à UE ao adotar uma posição mais firme. Seria grandioso”, acrescentou. Sem dúvida, boa parte das conversações nos corredores da cúpula dirão respeito às eleições de novembro nos Estados Unidos.
Timothy Garton Ash, professor de estudos europeus da Universidade de Oxford, disse que a presunção generalizada é que tanto McCain quanto Obama serão “mais multilateralistas” do que o frequentemente isolacionista Bush. Essa tendência seria muito mais acentuada no caso de Obama, cuja eleição seria “extraordinariamente bem-vinda” na Europa, acrescentou. (IPS/Envolverde)


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