Buenos Aires, 11/07/2008 – No momento em que o preço da soja, principal cultivo de exportação da Argentina, atinge níveis recordes nos mercados internacionais, especialistas em agricultura familiar e entidades ambientalistas alertam sobre o grave impacto social e ambiental da monocultura. Com 16,6 milhões de hectares, mais do que a metade da terra cultivada hoje no país, a soja, que já é cotada em torno dos US$ 600 a tonelada, se expande à custa do milho, do trigo, dos cítricos e da pecuária, entre outras atividades agropecuárias. Este avanço continuará apesar do polêmico aumento do imposto sobre exportação.
O governo aumentou em março de 35% para 44% o imposto e o declarou flexível, isto é, pode aumentar se os preços subirem. Mas, para torcer a resistência empresarial ofereceu em troca generosas reintegrações a pequenos produtores, que são maioria. Desse modo, em lugar de deter vai incentivar esse cultivo, afirmam os especialistas. “O modelo da soja é considerado um “boom e colapso”, como corre com a pesca, a mineração ou a exploração intensiva da madeira’, disse Jorge Cappato, da Fundação Proteger. “S pressiona um ecossistema acima de sua capacidade para obter enormes lucros no curto prazo à custa dos recursos”, ressaltou.
“Com a grande rentabilidade assegurada, quem vai querer produzir trigo ou leite?”, perguntou Cappato. “O modelo da soja joga por terra o impacto social, ambiental, sanitário e econômico no médio e curto prazos. Destrói a agricultura familiar e empurra os trabalhadores rurais para as cidades”, acrescentou Cappato. A área semeada de soja cresceu 126% em uma década e, segundo organizações não-governamentais, se propaga em prejuízo não apenas de outros cultivos e outras atividades. Avança sobre florestas nativas com sua rica biodiversidade e áreas de agricultura familiar e pertencentes a povos originários.
“Nos últimos nove anos, segundo dados oficiais, foram perdidos 2,5 milhões de hectares de florestas nativas, sobretudo no norte do país, e isto, em grande parte, se deve ao desmatamento para plantar soja, um cultivo que vai espremendo as demais atividades”, explicou à IPS Hernan Giardini, do Greenpeace Argentina. O Centro de Direitos Humanos e Ambiente disse este mês que no ano passado se perdeu, em média, 821 hectares de floresta por dia, apesar da aprovação de uma lei para a proteção e exploração sustentável dessas florestas, teme-se que a vontade de aplicá-la nas províncias fraqueje diante da pressão dos preços internacionais.
Além da perda de biodiversidade, os especialistas indicam que o glifosato, o herbicida que é combinado com a soja transgênica para controle total de pragas, contamina as camadas de água. E sua aplicação aérea tem impacto negativo na saúde de moradores rurais que vivem junto às plantações. Em conversa com a IPS, o engenheiro agrônomo Walter Pengue, pesquisador do Grupo de Ecologia da Paisagem e do Meio Ambiente da Universidade de Buenos Aires (estatal), disse que no começo dos anos 90 se vendia na Argentina um milhão desse herbicida, enquanto no ano passado já passava dos 180 milhões de litros.
“É um insumo estratégico interessante, como pode ser o gasoil, mas é preciso usar com racionalidade”, recomendou. Apesar disso, denúncias do chamado Grupo de Reflexão Rural, outra organização ambientalista, disseram que a fumigação sem controle causa alergias, intoxicações, más-formações, aborto espontâneo e câncer. Sobre a plantação direta, associada ao cultivo de soja transgênica, Pengue concordou que é uma prática que permitiu diminuir a erosão do solo, mas alertou que essa melhora também permite chegar a sistemas lábiles onde o mesmo cultivo resulta ser de risco, por exemplo em províncias do norte do país.
Para este professor de Economia Agrícola e Ambiente em várias universidades, o “sorgo de Alepo”, uma praga que está ficando resistente ao glifosato, já apareceu em seis províncias, e as alternativas que se discute para combatê-lo implicam voltar a pesticidas descartados nos anos 80 por serem muito tóxicos. “Com este sistema de soja transgênica fomos ficando sem especialistas em pragas, e os que há, estão vendidos para empresas (produtoras de sementes modificadas e do herbicida)”, denunciou. Além disso, o solo vai perdendo nutrientes que não recupera na mesma medida nem com grandes quantidades de fertilizantes.
Desde os anos 70, quando se começou a plantar soja, o solo perdeu 11,3 milhões de toneladas de nitrogênio (descontada a reposição natural), 2,5 milhões de toneladas de fósforo, e valores muito altos de outros nutrientes, disse Pengue. Por fim, os analistas agropecuários ressaltam que o modelo tampouco é socialmente sustentável. “Há uma prosperidade pontual em algumas cidades pelos bons preços. Pequenos produtores arrendam sua terra e conseguem mais dinheiro do que já viram na vida”, acrescentou. Mas essa bonança “não é desenvolvimento”, ressaltou Pengue.
“Um país não pode depender exclusivamente dos preços de um produto, tem de apontar para todos os alimentos, como faz o Brasil”, disse Pengue. No campo hoje, disse, a tecnologia desloca peões rurais por uma mão de obra mais qualificada, capaz de manejar colheitadeiras e outras maquinas. “São os novos atores do campo e relegaram os outros, que ficaram fora do sistema”, acrescentou.
Giardini, do Greenpeace, também apontou esta questão. Na província de Chaco, tradicional produtora de algodão, o avanço da soja diminuiu de 40% para 20% a população rural. Essas mudanças se notam nos subúrbios cheios das capitais provinciais. Segundo dados oficiais, a pobreza na Argentina afeta 20,6% de seus 38 milhões de habitantes. Mas na região nordeste, onde reina a soja, o fenômeno aumenta para 37% dos quais 13,6% são indigentes, isto é, não têm renda para enfrentar gastos com alimentação básica.
“Camponeses de províncias como Salta ou Santiago del Estero, com uma posse precária da terra, estão ameaçados pela venda de campos com eles dentro e isso também está relacionado com a soja em grande escala”, disse Giardini. “Em algumas localidades pequenas são erguidos hotéis, cassinos e até cabarés, mas não há giro de dinheiro (dos altos lucros concentrados) e muitos desses locais ainda não possuem nem privadas”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

