JOGOS OLÍMPICOS: Fadiga olímpica já afeta moradores de Pequim

Pequim, 15/07/2008 – Faltando menos de um mês para o início dos Jogos Olímpicos, a obsessão das autoridades chinesas com a segurança e a imagem da cidade e do país determinaram tantas restrições para a população da capital que muitos pequineses já não vêem a hora de tudo acabar.

 - Comité Organizador de los Juegos Olímpicos

- Comité Organizador de los Juegos Olímpicos

“Muito se falou da economia olímpica e dos benefícios para os pequenos empresários privados como eu, pela chegada de muitos visitantes estrangeiros”, disse o vendedor de roupas Wang Xingfei. “Agora, nos dizem que devemos fechar as lojas e ficar em casa pelo menos até o final dos jogos”, lamentou Wang, cujo comércio foi fechado por ser considerado “indecoroso” e “inseguro”. A abertura das Olimpíadas está marcado para 8 de agosto.

Os fechamentos também afetaram centenas de estabelecimentos que vendem cópias piradas e baratas de filmes em DVD. As autoridades tentam esconder a existência deste setor da economia negra dos olhos dos esperados 500 mil turistas. “Assistir filmes em DVD piratas é meu passatempo favorito. É muito divertido e barato poder ver os novos filmes ao mesmo tempo em que são exibidos nos cinemas dos Estados Unidos”, disse Xiao Jiang, cliente habitual de uma loja de vídeos no mercado de Yaxiui. “Vamos passar um bom tempo aborrecidos porque estão com medo de vender, mesmo de maneira escondida”, acrescentou, enquanto olhava as prateleiras vazias da locadora, que já não exibem mais os últimos lançamentos, mas apenas clássicos como “Lawrence da Arábia” e “O vento levou”.

Durante sete anos Pequim se preparou em gastos com o olhar voltado para os Jogos. Os líderes chineses consideram que ter êxito na olímpica tarefa é questão de orgulho nacional, que colocará o país em um lugar de importância internacional. Mas, muitos moradores estão começando a sentir “fadiga olímpica” devido às mudanças na vida diária, impostas pelas medidas de segurança e de melhoria da imagem adotadas pelo governo. O preço de transformar Pequim em anfitriã dos Jogos Olímpicos é alto. Para purificar o ar e adotar outras medidas ambientais as autoridades ordenaram a suspensão de centenas de milhares de projetos e forçou indústrias poluentes interromperem suas atividades por um longo tempo.

Milhares de trabalhadores migrantes foram forçados a voltar aos seus lugares de origem. “Inclusive, se tivéssemos a possibilidade de fazer alguns pequenos trabalhos de construção nos próximos meses não poderíamos aceitar, porque não se permite a entrada na cidade de caminhões transportando cimento ou material de construção”, disse Shao, um empreiteiro que pediu para não ter o sobrenome mencionado. Embora sua renda caia em queda livre, Shao ainda deve pagar pela alimentação e pelo alojamento dos trabalhadores migrantes que conseguiram permanecer em Pequim para não correr o risco de perdê-los, seja por voltarem às suas casas ou por procurarem emprego em outra cidade.

A paralisação temporária de indústrias poluentes e obras de construção se estende por uma enorme área que compreende quatro províncias na China setentrional. Na oriental cidade-porto de Tianjin, perto da capital, a proibição afeta cerca de 40 fábricas e mais de 20 obras civis. Em Pequim, um draconiano regime de trânsito, que entrará em vigor no próximo domingo, impedirá a circulação pelas ruas da cidade de metade de seus três milhões de automóveis. O objetivo é livrar o céu da capital de seu característico smog. Nas primeiras duas semanas de julho houve apenas dois dias claros, apesar do fabuloso investimento de US$ 40 bilhões feito com vistas aos jogos. Muitos atletas estrangeiros temem que estas medidas não sejam suficientes para limpar o ambiente para poderem competir sem serem afetados. Um bom número de equipes, como o remo holandês, o triatlo suíço e a natação dos Estados Unidos, optaram por treinar na Coréia do Sul e no Japão e chegar a Pequim poucos dias antes de competirem.

Mas os esportistas estrangeiros não são os únicos que preferem estar longe da capital. Muitos de seus moradores consideram fazer uma pausa da regimentada vida da cidade e fazer coincidir suas férias com os Jogos Olímpicos. Entre eles está Michael Guo, que ensina tênis para crianças e habitualmente se move pela cidade em sua motocicleta. “Agora não posso usá-la. Não poderei trabalhar. Assim, penso em ir para a ilha de Sanya e ver tudo pela televisão”, contou.

Começando esta semana, todos os veículos registrados fora da área de Pequim, bem como seus ocupantes, deverão passar por controles de segurança. As autoridades dizem que querem prevenir sabotagens e estabeleceram mais de uma centena de postos de controle nas ruas da capital. Mais de cem mil homens, entre militares, policiais e integrantes das forças de segurança estarão na cidade para evitar que manifestantes pró-Tibet, seguidores do proscrito movimento espiritual Falun Gong ou ativistas pela democracia ofusquem a festa olímpica. Esse pessoal terá ainda o auxilio de 600 mil voluntários civis.

Médias extremas de segurança também cercaram na semana passada os ensaios da cerimônia inaugural dos Jogos Olímpicos, cujo diretor artístico é o cineasta Zhang Yimou, que tem entre seus filmes o de artes marciais “Herói”, indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 20093. Espera-se que Yimou produza um espetáculo digno de ser recordado. Ignora-se qual será o tema e o estilo da cerimônia inaugural: são um segredo de Estado e os que dela participam tiveram de assinar acordos se comprometendo a nada revelar a respeito.

Mas, existem muitas especulações sobre Zhang fazer “voar” milhares de atores para recriar a magia dos movimentos do kung-fu. “Se conseguirmos ver isso, todas as penúrias terão valido a pena”, afirmou Xiao Jiang, o viciado em DVD pirata. E espera poder comprar, uma vez passada a paranóia que cerca os Jogos, uma cópia, pirata, da cerimônia de abertura das Olimpíadas. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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